UMA PASSAGEM (QUASE) MORTAL!

Foi por pouco, muito pouco.

Quase fui manchete mundial, pois a imagem seria espetacular: um repórter despencando em queda livre e se esborrachando no chão, enquanto tentava gravar uma passagem a 130 metros de altura pendurado numa corda.

Sempre gostei de esportes radicais, e isso me credenciou para a matéria do Fantástico que mostraria uma família que tinha no seu quintal o que na época (1998) era a segunda ponte ferroviária mais alta do mundo.

O Viaduto 13 fica numa propriedade encravada entre morros nos arredores de Vespasiano Correa, a uns 200 km de Porto Alegre. A estrutura gigantesca faz parte da Ferrovia da Produção, uma obra ambiciosa erguida nos anos 70 para escoar a produção de grãos até o porto de Rio Grande.

Na região montanhosa onde estávamos, a ferrovia  atravessa  os morros com vários túneis, alguns com mais de 2 mil metros de extensão. Eles são ligados por viadutos que se projetam sobre os vales.  O 13 é o mais alto deles. São 143 metros de altura, 50 a mais que a Estátua da Liberdade.

A reportagem era sobre a família que mantinha na propriedade um refúgio para práticas de esportes radicais. O destaque era o rapel (técnica de montanhismo em que se desce com cordas usando freios especiais) no vão central do Viaduto 13, o ponto de altura máxima.

Depois de gravar com a “Família Aventura”, resolvi que a melhor passagem seria ficar pendurado no ponto mais alto, descrevendo a sensação de estar ali “por um fio”.

Amarrei uma corda fininha no microfone de mão sem fio e atei ao meu pulso, para que não caísse caso eu me desequilibrasse e o perdesse.

Como eu já tinha alguma experiência de rapel em outras reportagens, topei a tarefa com tranqüilidade, embora jamais tivesse encarado uma altura vertiginosa como aquela. Também não estava acostumado com o tipo de freio.  Em todas as outras vezes, eu havia usado o freio “oito”, que é exatamente um 8 de metal por onde as cordas transpassam.

Desta vez o equipamento era o “Stop”, uma espécie de carretel com 4 ou 5 roldanas em linha por onde a corda serpenteava. Ele fica preso á “cadeirinha”, um conjunto de tiras super resistentes que envolve o quadril e as coxas. Uma alavanca acionada com o aperto da mão solta o freio. Quanto mais se aperta, mais rápido se desce. Soltando a alavanca, tudo para.

Para me familiarizar com o equipamento, passei por um briefing com o Silvio Zonatto, o pai da Família Aventura. Montanhista experiente, entrou no Guinness Book do ano anterior (o Livro dos Recordes) por conta das descidas no Viaduto 13.

Combinei com o repórter cinematográfico Enio “Maguila” Rosa que além da passagem eu iria gravar a entrevista com o Silvio numa corda e eu noutra, os dois pendurados naquele imenso vazio.

Maguila e o auxiliar Carlos “Chitão” Renaux se posicionaram numa sacadinha que se projetava para fora do viaduto, obtendo o ângulo ideal para a gravação.

Comecei a descer. Parei uns 12 metros abaixo, numa distância que dava ao cinegrafista um quadro perfeito.

Gravei a passagem duas ou três vezes. Numa delas me desequilibrei e acabei soltando o microfone. A cordinha no pulso foi providencial.

De repente senti um leve solavanco, que me fez descer um meio metro. Imediatamente percebi  que alguma coisa estava errada. Olhei para o Stop, que ficava na altura do meu peito, e notei que uma das cordas que passavam por dentro do mosquetão (aquela argola em forma geométrica de trapézio, com uma rosca que tranca a abertura  e que prende o freio ao corpo) estava fora de posição.

Eu não tinha certeza se era assim que deveria ser, mas sentia que estava com um problema sério e procurei ficar o mais imóvel possível.  Movendo as mãos como quem desarma uma bomba, puxei a corda para dentro do mosquetão e travei a rosca. Movi a cabeça bem lentamente pra cima e pedi ajuda.

– Ô Silviooooo, acho que tinha uma corda fora de posição aqui. Eu ajeitei, mas não sei se fiz certo. Dá pra dar um pulinho aqui embaixo?

Ele nem me respondeu. Como já estava amarrado no equipamento, numa fração de segundo pulou da amurada, fazendo aquele zunido de corda passando a mil pelas roldanas. Parou ao meu lado com expressão lívida.

– O que houve??

Contei o que aconteceu e o que fiz com a corda. Ele ficou olhando fixo para o mosquetão, e só falou depois de um profundo suspiro de alivio.

– Os franceses sabem o que fazem!

Não entendi nada, mas ficou claro que o perigo havia passado. Ele me explicou então que se referia á qualidade do metal dos mosquetões franceses que ele utiliza. Feitos com ligas ultra resistentes, são os preferidos dos montanhistas mundo afora. Foi fácil entender porque são tão populares entre os caras que se penduram em penhascos e outras travessuras radicais.

Continuando a confortadora explicação, Silvio disse que se o metal fosse de qualidade inferior, provavelmente não suportaria a tensão com uma corda apenas e se romperia.

E o repórter das alturas desabaria direto para a morte certa

Que imagem daria,  heim?

Depois do inesquecível cagaço, tratei de gravar a entrevista alí mesmo no ponto onde parei.

Maguila e Chitão ficaram o tempo todo gravando sem entender o que tinha acontecido. Ou melhor, o que não tinha acontecido.  Mais tarde contei sobre o susto e Maguila, que custou a acreditar que tudo aquilo aconteceu diante da lente dele sem que nada percebesse.   

Um ano depois voltei ao Viaduto 13 para outra reportagem. Encarei o rapel novamente, bem faceiro!

E desta vez sem sustos.