UMA NÁDEGA PRA LÁ DE IMPACTANTE!

Nada como um argumento realmente impactante para embasar um comentário inusitado durante uma entrevista.

Eu estava no pequeno prédio da Fundação Gaia, entidade ambientalista no bairro BomFim, que era também residência do ecologista José Lutzenberger. Nem lembro qual era o assunto que me levou a entrevistá-lo, pois já se vão uns vinte e picos anos desde então.

Mas a eloqüência da argumentação dele sobre um assunto inesperado grudou na minha memória pra nunca mais sair. Também pudera…

Lutzenberger, ou Lutz, como também era conhecido, morreu em 2002. Engenheiro agrônomo, escritor e filósofo, foi pioneiro da luta ambientalista no Brasil. Uma verdadeira autoridade no assunto, reconhecida internacionalmente.

Dono de vasto conhecimento e defensor de posturas firmes e consistentes, não se alinhava  com os ecochatos irritantemente utópicos que grassavam mundo afora, e especialmente no Rio grande do Sul, berço do movimento ambientalista no Brasil. Foi fundador da combativa AGAPAN, uma das primeiras entidades ambientalistas do país, atuante até hoje.

Lutz comprava muitas brigas. Mas entrava nelas munido de conhecimentos sólidos e uma argumentação tão inflamada quanto convincente.

Ao contrário dos ambientalistas radicais, sabia discutir à luz das realidades sociais e de mercado, passando ao largo dos preconceitos juvenis e do romantismo inviável que temperavam as manifestações de outros defensores do meio ambiente na época. Tanto que topou ser Ministro do Meio Ambiente no governo de Fernando Collor. Mas ficou pouco tempo no cargo, por não ter papas na língua e denunciar falcatruas no IBAMA, entre outros embates palacianos gerados pela sua franqueza e firmeza.

Tinha um jeitão de falar que oscilava entre a autêntica naturalidade de um homem sem frescuras e uma certa impaciência com falatório vazio e distorcido sobre meio ambiente, assunto ao qual dedicou a vida com paixão.

Ele me recebeu para a entrevista um tanto inquieto. Caminhava ao redor da mesa do escritório, com uma mão no quadril, massageando o local.

Ao mesmo tempo em que discutia comigo uma abordagem para o assunto que eu havia trazido, reclamava de algo que eu não entendia, pois falava sobre aquilo meio que grunhindo.

Então se virou para mim:

– Olha, me desculpa, mas não vai dar, não vou dar entrevista, não tem como.

– Ué, o senhor concordou quando ligamos. Houve algum problema?

Ele continuou murmurando algo que não consegui captar. Tinha uma expressão grave. Insisti.

– O senhor quer discutir melhor a abordagem?

– Não, não, tu não vai entender.

Fiquei intrigado. Será que havia alguma polêmica misteriosa por trás da pauta? Voltei à carga.

– Me diga, professor Lutzenberger, há algum problema, alguma encrenca na pauta?

Ele parou, me olhou muito sério e abriu o jogo.

– Quer saber mesmo? Olha filho, não tá nada fácil. E agora tu vai saber porque!

Sentado de frente para ele, me ajeitei na cadeira e me preparei para ouvir algo muito forte. Os alarmes da curiosidade de repórter disparavam na minha cabeça. Será que vou sair daqui com uma inesperada e acachapante manchete?

Lutz se virou de costas para mim, do outro lado da mesa, abriu a fivela do cinto e arriou as calças até pouco abaixo da bunda, expondo uma nádega branca como leite mas quase totalmente coberta por um enorme hematoma roxo.

– Tá vendo isso? Tomei um tombo hoje de manhã e ficou desse jeito, nem consigo sentar!

Fiquei sem saber o que dizer. O cinegrafista me olhava com espanto, num esforço doloroso para não soltar uma retumbante gargalhada diante daquela cena.

Levei alguns segundos para me refazer do susto.

– Bah, professor, me desculpe, agora eu entendo. Se o senhor realmente não tá bem, a gente cancela. Eu explico pro pessoal na TV, fique tranquilo.

Continuou resmungando de dor, mas quando viu que nos preparávamos para ir embora, me chamou:

– Não, peraí, deixa eu ver se me acomodo de algum jeito. Vocês vieram até aqui e não vão perder a viagem por causa duma bobagem.

Lutz conseguiu se acomodar meio de lado na cadeira, e mesmo com muito desconforto por causa da “bobagem” que ele nos exibiu com a sua típica espontaneidade, concedeu a entrevista sem abreviar nada por conta da dor.

Alguns anos depois me tornei amigo de uma de suas filhas, Lara, que morava com o marido no apartamento vizinho ao meu. Lutz já havia falecido. Contei a história.

Ela riu sem demonstrar surpresa e disse algo como “…Esse era meu pai, uma pessoa sem rodeios, totalmente verdadeira.”

Bota verdadeira nisso.