UMA MUSA DA PLAYBOY NO MEIO DO NADA

Era início dos anos 2000. Eu, o repórter cinematográfico André Maciel e o motorista e auxiliar técnico Charles Oliveira percorríamos a fronteiras do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina para uma série especial do Jornal Nacional sobre a fragilidade das fronteiras do Brasil.

O projeto envolvia outras três equipes de emissoras e afiliadas da Rede Globo, que por sua vez cobriam a região amazônica, o oeste e a área de Foz do Iguaçu. A RBSTV ficou com a missão de mostrar a falta de controle nos limites do sul.

Já havíamos percorrido mais de mil km de estrada e campos desde o Uruguai, mostrando a realidade do contrabando, do abigeato, tráfico de armas e drogas além de outros crimes que cresciam com a falta de policiamento naqueles rincões.

Neste dia não estávamos mais trafegando pelo asfalto depauperado das BRs na região.  Agora nossa equipe rodava por centenas de quilômetros de estradas de terra no meio do nada acompanhando o traçado da fronteira rumo o extremo noroeste gaúcho.

Raramente encontrávamos algum veículo no caminho. E quando aparecia um geralmente era trator ou carroça.

Eu estava sentado no banco de trás, de olho no mapa. Ainda não eram os tempos de GPS no celular. No banco do carona, André cochilava. De repente, Charles começou a diminuir a velocidade. Sem tirar os olhos do mapa, perguntei com vago interesse:

– Que foi agora, outra carroça ou boi na estrada?

– Que nada! Que coisa é aquela??

O tom de voz dele era meio espantado.  Ergui a cabeça, e vi à nossa frente uma gigantesca estrutura atravessada na estrada. Uma visão surreal naquele fim de mundo.

Quando chegamos mais perto, vimos um grupo de homens andando de um lado para o outro, ao redor do que parecia uma ponte de metal sobre dezenas de rodas, carregando uma máquina do tamanho de um ônibus. E tentando arrastar aquela coisa descomunal, um daqueles enormes caminhões especiais feitos para puxar cargas pesadíssimas.

Um dos homens informou que estavam levando um titânico transformador para a hidrelétrica de Garabi, que estava sendo construída por Argentina e Brasil na cidade de Garruchos, algumas dezenas de quilômetros adiante. Tinham partido do Porto de Rio Grande há uma semana e agora estavam estagnados ali porque a carreta não vencera o ângulo do entroncamento de estrada onde pararam.

Conseguimos desviar por um barranco e seguimos em frente, deixando para trás aqueles homens com o seu (literalmente) problemão.

Aquele não seria o único fato inusitado do dia.

Algumas horas depois chegamos em Porto Mauá, uma cidadezinha com pouco mais de 2 mil habitantes às margens do Rio Uruguai. Parecia um lugar deserto. Só se via algum movimento no comércio miúdo ao redor do prédio da Receita Federal. Este ficava junto ao embarcadouro da pequena balsa que fazia a ligação com a Argentina, na margem oposta.

Gravamos alguns flagrantes de botes indo e vindo com contrabando barato e entrevistamos um sargento da Brigada Militar frustrado por não conseguir combater aquela atividade ilícita que acontecia diariamente diante dos seus olhos.

Antes de seguir viagem, entramos num mercadinho para comprar uns pacotes de bolacha e água mineral.

Quando chegamos no caixa, minha atenção se fixou na atendente.

Uma jovem quieta, com traços muito bonitos, mas sem produção alguma, num vestidinho bem simples, cabelo desalinhado e chinelos de dedo.

“Eu conheço esta mulher”, fiquei pensando, tomando cuidando para que ela não percebesse meu olhar intrigado.

Dei uma olhada um pouco mais demorada sem que ela visse e aí caiu a ficha.

– Me desculpa, mas tu não é uma das trigêmeas que apareceram na Playboy?

Sem nenhum constrangimento, mas com expressão ao mesmo tempo gentil e contida, ela confirmou, com poucas palavras e um sorriso simpático e algo acanhado.

Não lembro qual das três ela era, embora tenha dito o nome.  As trigêmeas Marilise, Renata e Lilian causaram sensação em 1992, quando foram capa da Playboy brasileira aos 18 anos de idade. As meninas tinham sido descobertas na minúscula Novo Machado, cidade vizinha de Porto Mauá. Com o sucesso veio a carreira de modelo e as garotas ganharam o mundo.

A receptividade dela me deixou à vontade pra matar a curiosidade.

– E como tu vieste parar aqui neste fim de mundo?

– Eu moro nos Estados Unidos, mas vim visitar minha família, que é dona deste mercadinho. E tô aqui aproveitando pra dar uma ajudinha no serviço.

Pensei em fazer uma selfie da equipe com a estrela, mas achei que seria jeca demais. Besteira, seria uma boa lembrança. E seria perfeita para ilustrar este texto.

Meus dois colegas não estavam entendendo nada daquela conversa. Só depois, já no carro,  expliquei quem era a figura que para eles até aquele momento  era apenas uma guria bonitinha perdida naquele lugar distante de tudo.

Surpresas que a gente encontra por estas estradas do mundo…