UM MARKETING ERÓTICO ACIDENTAL

Sabe aquela técnica da publicidade subliminar, feita para mostrar uma coisa mas induz o subconsciente a captar outra? Pois topamos com um belo exemplo, ainda que involuntário.

Eu e o cinegrafista Jair Alberto da Silva fomos a um importante curtume na região de Montenegro. Era uma reportagem especial sobre o setor coureiro.

Depois de nos guiar todo orgulhoso pelas suas instalações e de falar sobre o animador cenário de negócios, o empresário nos levou a uma sala de reuniões para gravar a entrevista..

Enquanto Jair fazia as imagens de apoio, aquelas em que o repórter aparece conversando com o entrevistado antes da gravação da entrevista, o empresário espalhou na mesa exemplares da sua mais nova peça publicitária.

– Olha só isso aqui, vê se não ficou um espetáculo!

Estava entusiasmado com a campanha pela qual certamente pagou um bom dinheiro. Uma das peças era o folder que descrevia um novo processo de amaciamento do couro.

O folder tinha uma página com um recorte circular bem no meio, uma “janela” que se sobrepunha sobre a imagem que vinha na página seguinte.

Ao colocar uma página sobre a outra, o recorte fazia uma moldura destacando a imagem que vinha por baixo.

A imagem de baixo, quando vista inteira, era um pedaço de couro em tom rosado, tal como um  tecido humano, levemente brilhante, como se estivesse umedecido. Havia suaves e deliberadas ondulações para representar a maciez do produto.

Só que quando o recorte pousava sobre a foto, salientando apenas um pedaço da imagem principal, o resultado era bastante, digamos, inusitado.

Certamente não era a ideia original do publicitário. Mas acabou resultando naquilo, e o patrão adorou!

O empresário olhava para o Jair e pedia, todo animado:

– Olha só que bacana , mostra bem isso aqui, ó, foca aqui, vou dobrar a página pra tu vê que efeito bonito!

Quando eu vi o tal efeito, tomei um susto.

Convencido pelo entusiasmo do empresário, Jair, que ainda não havia percebido nada, tirou a câmera do tripé, colocou no ombro, inclinou-se sobre a mesa e tratou de dirigir a cena:

– Tá bom, o senhor vira a página quando eu mandar, ok?

Jair apoiou os cotovelos na mesa, ajustou o foco e deu a ordem.

– Ok, pode virar, bem devagar.

Quando ele viu o resultado da “criação”, arregalou o olho que não estava colado ao wiewfinder (visor) e com ele buscou o meu olhar, sem desgrudar  o rosto da câmera. Murmurou bem baixinho para que só eu ouvisse :

– Porra, mas que merda é essa?

Fiz uma cara de “fazer o que?”, notei o ar de expectativa do empresário  e com a cara de pau possível naquele momento pedi:

– Faz um take bem cabana, Jair!

Feita a imagem, o empresário satisfeito e sorridente se levantou e foi pedir cafezinho para a secretária.

Era a deixa que o Jair esperava para manifestar seu espanto.

– Papai, isso é propaganda de puteiro!! Como é que a gente vai botar isso no ar?

– Fica frio! Claro que a gente não vai usar isso, né?

O pedaço de couro cor de carne que aparecia no buraco circular formava uma imagem idêntica a um órgão sexual feminino, totalmente depilado e umedecido. Uma bela e involuntária peça de marketing erótico.

Não sei como aquele “efeito” foi aprovado pelo pessoal de marketing da empresa. Mas o fato é que aquela perereca lustrosa era agora um destaque na campanha publicitária da empresa.

Achamos melhor não emitir opinião e deixar o empresário feliz com a sua propaganda.

Vai entender…