O HAPPY HOUR QUE ACABOU EM DESASTRE

Nada como um bom happy hour com os colegas depois de um dia pesado de trabalho, não é?

Jornalista que se preza não dispensa uma cervejinha ou outra bebida pra descontrair e celebrar as maravilhas e agruras deste ofício.

Mas tem vezes – e não são poucas – em que a coisa passa do limite prudente.

Estávamos em Derrubadas, noroeste do RS, na fronteira com a Argentina, produzindo uma reportagem para o Jornal Nacional. A pauta era o monitoramento dos cardumes de dourados no Rio Uruguai. Uma bióloga capturava os peixes, implantava neles um microchip e os devolvia às águas. Depois rastreava para mapear a migração.

Gravamos a pescaria nas águas turbulentas do Salto do Turvo (ou do Yucuman, como os argentinos chamam) e fomos pernoitar em Tenente Portela, a uns 20 km dali, onde havia hotel.

Antes de ir para o hotel, eu, o repórter cinematográfico Enio “Maguila” Rosa e o auxiliar técnico e motorista Henrique Barcellos paramos num boteco . Era verão, e a gente merecia um happy hour com umas cervejas geladas em comemoração à jornada bem sucedida de gravações.

Mas o momento de descontração acabou em porre. Cheguei ao hotel em estado deplorável.

Na manhã seguinte, Maguila e Henrique estavam prontos para retomar o trabalho. Mas eu estava acabado, amargando uma ressaca monstruosa.

Seguimos para Frederico Whestphalen, a única cidade por perto com pista de pouso. De lá a bióloga decolaria num monomotor Cessna e sobrevoaria o curso do rio, tentando captar com uma antena os sinais emitidos pelos peixes chipados.

Quando chegamos ao aeroclube da cidade, eu estava pior. Cabeça doendo e girando, estômago embrulhado e aquela náusea que alertava: aí vem porcaria…

Decidi não embarcar no aviãozinho. Voar era tudo que eu não precisava naquele momento.

Minha presença a bordo era dispensável, pois o objetivo era só captar imagens.

Sentei no chão, escorado na parede do pequeno hangar, que estava fechado por ser domingo. Desejei um bom vôo para o Maguila, a bióloga e o piloto, e tratei de me aquietar para ver se melhorava um pouco.

Enquanto o Cessna ganhava os céus, eu me afundava ainda mais na ressaca. A cabeça quase explodindo e o estômago dando piruetas. Senti que o inevitável estava se confirmando. Levantei meio trôpego e chamei o Henrique:

– Tchê, pelamordedeus, me leva já pra algum lugar onde tenha um banheiro!

Partimos para o centro da cidade. Como em todo localidade onde predomina a descendência alemã, Frederico tem ruas limpíssimas, calçadas impecáveis, casas pintadas com jardins bem cuidados, canteiros floridos por toda parte. E o banheiro da lanchonete onde paramos era um exemplo acabado de todo este capricho ancestral.

UM ESTRAGO COLOSSAL

A lanchonete estava vazia. Entrei apressado e perguntei para a dona se poderia usar o toilette. A senhora de bochechas rosadas logo percebeu a minha urgência e gentilmente indicou a direção, no final da fileira de mesas decoradas com esmero.

Entrei no pequeno banheiro e tive a impressão de estar na casa de bonecas de uma princesa: toalhas alvas ricamente bordadas pendiam de ganchos reluzentes. A tampa do vaso sanitário estava envolvida com uma capa de crochê elaborada por alguma fraulein muito habilidosa e criativa. As paredes tinham quadros bordados e outros pintados. No chão, um tapete felpudo e perfumado. A pia, branca como leite e sem nenhuma mancha, exibia uma bela saboneteira de porcelana, onde repousava um sabonete artesanal em forma de flor, ainda intocado; a torneira banhada em dourado refletia a luz suave daquele ambiente tomado por um delicioso aroma de canela.

Era como aquelas fotos perfeitas de revistas tipo Casa & Decoração. Tudo muito lindo – até o jornalista em apuros irromper em desespero naquele cantinho encantador.

Nauseado até a medula, sentindo que minha garganta era um vulcão a segundos de uma erupção sem precedentes, apoiei uma mão na parede e com a outra levantei a tampa com a força de um descontrolado.

E detonei um vômito instantâneo que explodiu na água do vaso, nas bordas e na tampa, ricocheteado o rejeito fedido das minhas entranhas pelas paredes e pelo chão. A cada espasmo antes de um novo jorro, eu soltava aquele urro característico do borracho que luta visceralmente para expulsar em doloridas contrações o javali que corcoveia ferozmente dentro da barriga.

Com os olhos inundados de lágrimas pelo esforço, não consegui ter uma visão clara do estrago no ambiente.

Quando tentei me recompor, senti que o combate ainda não tinha acabado. Foi quando veio a galope a última besta do apocalipse, na forma de uma cólica que me curvou e mal deu tempo para baixar as bermudas.

A meio caminho de sentar no vaso, a carga disparou num jato que alvejou a tampa antes que eu pudesse me acomodar. E provocou dano semelhante – ou maior – que o primeiro ataque.

Uns cinco minutos depois, arriado no vaso, apoiando a cabeça latejante nas mãos, cotovelos fincados nos joelhos, comecei a me sentir um pouco melhor. Esfreguei os olhos e só então olhei ao redor.

A cena era um caos. Além do vaso, sujei paredes, o chão…O banheirinho de palácio agora parecia um fétido calabouço medieval.

Além do vaso bombardeado impiedosamente, os quadrinhos nas paredes estavam borrifados, assim como as delicadas cortinas rendadas da janelinha lateral, que era um tanto baixa e por isso acabou entrando também na linha de tiro.

Plastas da nojeira que produzi fartamente circundavam o vaso e penetravam no tapetinho antes imaculado. A porta também tinha levado “estilhaços”.

Como diria o delirante Coronel Kurz, de “Apocalipse Now”, era “o horror, o horror…”

Mas como se fala por aí, nada é tão ruim que não possa piorar. Esqueceram de deixar papel higiênico.

E agora? Como consertar aquela catástrofe?

Só me restavam as toalhinhas bordadas, agora salpicadas de marrom…

Fiz o que pude com o que tinha à mão. Quando mais eu esfregava, pior ficava.

A única coisa que funcionou bem foi a descarga. Mas a destruição ao redor era tamanha que não fez muita diferença.

A pia onde eu molhava e torcia as toalhas virou um buraco de latrina; o sabonetinho rosado em forma de flor agora era uma massa disforme e escura.

Decidi que precisava me escafeder dali sem chamar atenção da dona da lanchonete. Não tinha como explicar aquilo tudo.

Fiquei de campana, observando pela fresta da porta do banheiro, esperando o momento em que a simpática senhora entrasse na cozinha. Para minha sorte – pelo menos isso – ainda não havia clientes.

Quando ela sumiu de vista, saí em disparada rumo ao carro, me atirando dentro dele como se tivesse acabado de assaltar o lugar.

– Bora, bora, bora, vai, arranca daqui!!

Henrique não entendeu nada mas saiu cantando pneu.

– O que aconteceu lá dentro, meu? Pra essa pressa toda?

– Cara, fiz um estrago pra me envergonhar o resto da vida. Não apareço nesta cidade tão cedo!

Descrevi a batalha e fiquei pensando constrangido na cara da senhora de bochechas rosadas ao encontrar o cenário que deixei pra trás.

É, a gente faz umas coisas que não dá pra se orgulhar…