UM GAY COM G MAIÚSCULO

Por natureza, o ambiente militar exige uma postura de macho. É uma atividade apoiada na disciplina rigorosa, com regras duras impondo atitudes de combate. Em qualquer país é assim. O sujeito é treinado para eliminar sem hesitar a ameaça ao seu povo.

Não existe mimimi em forças armadas, em lugar algum. Elas existem para proteger a nação dos seus inimigos, às custas da própria vida dos militares. É o único contrato de trabalho em que esta cláusula é tácita e explícita.

Antes que as vivandeiras do politicamente correto e os patrulheiros da homofobia reclamem, “postura de macho” é uma brincadeira para ilustrar a atitude de quem sabe que vai ter que encarar os rigores de uma atividade que mesmo em tempos de paz muitas vezes impõe risco de morte num simples treinamento, e onde não existe “ai, não quero!”

Nada disso exclui as mulheres, que desde sempre provaram serem tão aptas para esta atividade quanto os homens. A história, antiga e recente,  está recheada de exemplos heróicos onde elas fizeram a diferença no campo de batalha, sangrando e morrendo.

Bueno, depois deste nariz de cera castrense (não confundir com castrador…), vamos ao que interessa.

Num ambiente em que a “macheza” impera, seria naturalmente difícil para um gay assumido impor respeito. Mas quando o cara se garante, a coisa é diferente.

Na minha turma de aspirantes a oficial do Exército, no CPOR de Porto Alegre (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), em 1980, havia um integrante que honrou com firmeza e classe tanto a sua condição gay como a de militar.

E isso lá no início dos 80, governo militar, quando os movimentos de gênero praticamente não existiam.

Ricardo não era espalhafatoso nem militante da “causa”. Mas seus trejeitos eram indisfarçáveis. O tom da voz, mesmo contido, não deixava dúvidas.

No entanto, dentro do quartel ele nunca se envolveu em atos que comprometessem a sua imagem pessoal e nem a disciplina militar. Não por medo de punição, mas por respeito ao ambiente e a si mesmo.

Nunca se insinuou com ninguém e cumpria todas as tarefas da caserna tão bem ou melhor que muitos outros.

Exibia invejável  vigor físico e não se mixava para a dureza das rotinas militares, inclusive durante os penosos exercícios de guerra nos campos de treinamento.

Num curso de oficiais, faz parte da formação exercitar a capacidade de controle da tropa. Ricardo não se preocupava em disfarçar exageradamente a voz para bradar os tradicionais comandos gritados na hora da ordem unida. Encontrava um tom adequado, e sem falsetes impunha o ritmo com a energia necessária. E cumpria a missão.

A postura digna e tão competente nas lidas militares como os demais fez Ricardo conquistar o respeito de todos. Naturalmente se ouvia piadinhas maldosas aqui e alí, mas ele nunca se viu frente a uma situação de  desacato que exigisse pronta resposta. Mantinha-se sempre acima disso.

Também nunca presenciei nenhuma atitude preconceituosa do Comando contra ele. Era respeitado como todos os outros aspirantes, pois se fazia respeitar pela atitude.

O DESTINO ARMOU A PAUTA

Duas décadas depois, já bem longe da caserna, eu era repórter da RBSTV. Nunca mais ouvi falar do Ricardo.

No início dos anos 2000, a Justiça gaúcha tomou uma decisão inédita, ao conceder ao viúvo de uma união homoafetiva o direito à pensão do cônjuge.

Fui escalado para fazer a matéria. Fomos até  um endereço na José do Patrocínio, na Cidade Baixa, onde o casal residiu por muitos anos.

O viúvo ficou surpreso quando me viu. Ao abrir a porta, não se conteve:

– Olha só! Quem diria, eu te conheço de outros carnavais…

Os pândegos da minha equipe se entreolharam com expressões marotas.

Só entendi a recepção daquele estranho quando me vi na sala do pequeno apartamento. Nas paredes, várias fotos emolduradas do casal em seus momentos mais felizes.

Com sutil pesar na voz, ele novamente se dirigiu a mim:

– Sempre que tu aparecia na TV, o Ricardo falava: “Olha, o meu ex-colega de quartel! Agora é repórter famoso!”. Quem diria que o destino te traria aqui pra relatar esta nossa vitória, heim?

Aquilo me trouxe um misto de emoção e orgulho. Lembrei como admirava a postura do Ricardo no quartel e agora, ao ver a conquista que ele certamente estimulou ainda em vida com seu parceiro, tinha diante de mim mais uma prova da sua têmpera e personalidade.

Um gay com G maiúsculo.