TUBARÃO!!

Estávamos em alto mar, a uns 500 km da costa gaúcha, a bordo do Atlântico Sul, navio de pesquisas oceanográficas da universidade federal de Rio Grande. Era a viagem de retorno, depois que fizemos a reportagem sobre o Bahamas, um navio ucraniano de cargas químicas que tinha sido levado para fora do mar territorial brasileiro para ser afundado, por causa das toneladas de ácido sulfúrico que estavam vazando do casco condenado.

Nossa equipe incluía um mergulhador profissional,  que tinha sido instrutor do repórter cinematográfico Edison Silva. Quando a pauta surgiu, sugerimos à RBSTV que o contratasse para acompanhar o Edison na tentativa de gravar imagens sub-aquáticas na hora do afundamento.

O Bahamas acabou sendo interceptado por  um rebocador enviado por supostos donos da embarcação. Foi levado embora, impedindo  o afundamento (leia nesta seção do site a história completa deste mistério).

Nossa navegada de retorno acontecia com mar muito calmo, parecendo uma lagoa infinita. Sol forte e céu limpo.

Edison e Vlad, o mergulhador, tiveram a idéia de aproveitar para dar um mergulho e fazer algumas imagens.

Como não havia pressa para a volta, pedimos permissão ao comandante, e ele concedeu alguns minutos.

Os dois vestiram as roupas de neoprene, penduraram os cilindros de ar comprimido nas costas, ataram os cintos de lastro e caíram na água, levando uma câmera Mini-DV em caixa estanque para gravar o que aparecesse.

O ponto onde mergulharam ficou marcado por uma boia laranja ao lado do navio ancorado. E da boia, pendia para dentro dágua uma corda guia que servia de orientação para os mergulhadores lá embaixo.

Enquanto os dois se divertiam nas profundezas, aproveitei para escrever meu texto sentado no convés de popa, de onde eles haviam saltado.

Os tripulantes aproveitaram pra pegar um sol, fumar um cigarro e jogar conversa fora, curtindo aquela folguinha inesperada.

Mas minha concentração no texto foi atropelada por um grito que percorreu cada corredor do navio:

– Tubarão!!

Todos correram para a amurada, procurando ver de onde vinha a fera.

– Tá lá, tá lá, ali vem ele!!

Virei para a direção que todos observavam de olhos arregalados e vi o que parecia ser uma enorme barbatana indo em direção à boia que sinalizava onde Edison e Vlad tinham mergulhado.

Ela ficava cada vez maior. Parecia um monstro. Um silêncio aterrador tomou conta do convés.

Quando aquilo chegou a poucos metros da boia, um enorme volume escuro começou a emergir na superfície.

Então um barulhento jato de água e espuma jorrou para cima, subindo uns 5 metros e borrifando gotas salgadas nas nossas caras abobalhadas.

Era uma baleia, que se aproximou curiosa do navio, deu sua espiada, respirou e mergulhou novamente, na direção da boia.

Ninguém soube dizer que espécie era. Nem precisava. Bastava saber que aquela  aparição não tinha sido um enorme um tubarão branco, tubarão tigre ou outro desses bichões marinhos e suas bocarras cheias de dentes afiados que habitam o aterrorizado imaginário dos viventes em terra firme.

Pouco depois Edison e Vlad subiram a bordo, exultantes com o encontro que tiveram lá embaixo.  Nem imaginavam o que se passou no convés enquanto se maravilhavam com aquele animalão que passou bem pertinho deles.

Edison relatou que tudo foi tão rápido que só rendeu um take, prejudicado pelo turbilhão que a passagem daquela massa enorme provocou.

Para eles foi rápido. Mas para quem estava no convés, aqueles segundos de pavor pareceram uma eternidade até a revelação daquele bem vindo capricho da natureza.