TROFÉU REI DA GANDAIA E DA CARA DE PAU!

Já conheci muito cara de pau neste mundo do jornalismo. Mas o personagem deste causo conquistou com láureas o troféu máximo desta disputada categoria.

Foi meu colega em algumas emissoras de TV da capital. Uma figuraça, grande profissional técnico e muito faceiro, do tipo parceirão.

Adorava uma gandaia. Frequentador assíduo das “primas”,era conhecido nas melhores casas do ramo. Também era doido por baile de carnaval.

Só tinha um problema: era casado. E a esposa, um poço de ciúmes.

Eis que vem chegando o Carnaval e o dito já estava ficando inquieto. Ou, como se diz por aí, com o pé que era um leque pra cair na folia.

Precisava urgentemente de um estratagema para festear sem arrumar confusão em casa. Precisava de um álibi, um senhor álibi.

Sentado na sala onde trabalhava, moía os miolos concentradíssimo na tarefa de encontrar uma solução. Até que olhou para a parede e viu a escala de trabalho que o chefe recém havia afixado no quadro.

Na mesma hora a lampadinha acendeu sobre a cabeça. Pegou a escala, tirou uma cópia e cuidadosamente recolocou a original no quadro. Com a cópia, produziu outra escala, modificada conforme seus inconfessáveis interesses.

A sanha por liberdade era tanta que ele criou uma escala “pessoal” absurda, com uma jornada muito mais extensa que o normal, mesmo que fossem comuns os “engates” de plantão. Mas aquela escala, aquela sim, era uma missão que exigiria muita resistência…

A jornada falcatrua tinha umas 18 horas de trabalho. Sobrava apenas o turno da manhã para algum descanso.

Véspera do Carnaval. Chegou em casa ao anoitecer, fazendo a maior cara de condenado. Caprichou na performance de indignação. Mal cumprimentou a mulher e começou a amaldiçoar o chefe e a empresa. Num gesto estudado, pegou a folha amassada com a escala fajuta e a jogou sobre a mesa, sem dizer nada.

Preocupada, a esposa perguntava o que havia acontecido, mas ele não respondia. Apenas abanava a cabeça olhando para o nada, com jeito de injustiçado. Ela insistiu, e ele, sabendo que a esposa já tinha passado os olhos na escala deliberadamente lançada sobre a mesa, continuava quieto e bufando teatralmente. E então falou:

– Tu não tá vendo aí no papel?? Olha o que aquele fdp do meu chefe me aprontou!! Trabalhar o dia todo e ainda me engatar noite e madrugada!! Isso é um absurdo! É muita injustiça!

Sensibilizada, ela tentava consolá-lo. E ele firme no papel de mártir.

Seguro de que seu álibi havia colado, o festeiro cara de pau se atirou no carnaval. Trabalhava no turno em que estava escalado de verdade e à noite se esbaldava nos bailes madrugada adentro. Quando a festa terminava, ele ia para a empresa, tomava um banho caprichado pra não deixar nenhum rastro de purpurina ou outras pistas incriminadoras.Vestia novamente a roupa com que tinha ido trabalhar e ia para casa ao amanhecer.

Mas aí o filho pequeno já estava acordado e agitado, querendo brincar. Como o festeiro não conseguia dormir, reclamou para a mulher que estava esgotado de tanto trabalhar e que precisava muito descansar para seguir a jornada imposta pela maldita escala e não colocar o emprego em risco.

Dizia então que ia dormir na TV para se recuperar e estar pronto para o turno que começava no início da tarde.

Mais uma vez a performance tinha sido convincente.

E ele então incorporou mais uma atividade naquele período de labuta carnavalesca: trabalhava de verdade à tarde, ao anoitecer se atirava nos folguedos de Momo, e ao raiar do sol ia dormir nas “primas”. No início da tarde, dava uma rápida passadinha em casa pra beijar a mulher e filhos.

E aí seguia heroicamente para o sacrifício da profissão.