TANIRA LEBEDEFF

TANIRA LEBEDEFF é jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Maria, com Mestrado em Relações Internacionais pela UFRGS. Começou a carreira como repórter e apresentadora na RBS TV local. Trabalhou em outras emissoras da RBS e também na Band e no SBT do Paraná. Mais recentemente atuou na TVCOM e no canal OCTO.  Em 2014, ainda na TVCOM, recebeu o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo com o documentário “Porto Alegre, o Mapa da Repressão”. Em 2016, motivada por uma reportagem sobre uma campanha para arrecadar material escolar no Bairro Restinga, criou o Clubinho da Mochila, que distribui mochilas seminovas para crianças de famílias de baixa renda.

A escritora

O currículo da guria de Livramento inclui ainda mais de uma década como correspondente em Los Angeles,EUA, onde trabalhou numa produtora independente fornecendo conteúdo para o mercado norte-americano e canais brasileiros como Globo Internacional e Globo News. Cobriu Hollywood e viajou pelos cinco continentes como jornalista. Algumas dessas experiências estão registradas no livro “A Velhinha que Entrevistou George Clooney” (Catarse, 2016). Há um ano Tanira estreou novamente, dessa vez como professora na Faculdade de Jornalismo da ESPM Sul.

– Qual é o perfil de profissional  que as faculdades buscam formar hoje?

Vou responder segundo o que eu tento aplicar em sala de aula. Acho que a formação de um bom jornalista depende muito da técnica. Para isso temos uma vasta bibliografia, relatos dos grandes, experiências que ensinam e inspiram. Estudamos as ferramentas de captação e edição em áudio, vídeo, impresso. As (já nem tão) novas TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação – nos permitem contar histórias de maneiras muito ricas e dinâmicas, e vou te dizer que essa gurizada domina essas ferramentas muito bem. Eu desafio meus alunos a ousar, pirar: no meio acadêmico a regra é experimentação. É bem mais fácil o aluno se adequar ao estilo de uma redação, no futuro, do que chegar lá sem molho para oferecer. Na TVCOM tínhamos o Faixa Universitária, programa idealizado pelo Zé Pedro Villalobos que exibia a produção de alunos de comunicação. Como ficávamos frustrados quando chegava conteúdo “redondo” com off-passagem-sonora… Queríamos conhecer outras formas de fazer a velha reportagem! Agora… nada disso adianta se o repórter não tiver empatia ou entusiasmo, não souber escutar durante uma entrevista, não observar seu ambiente, não for sensível aos dramas do cotidiano. Estimulo meus alunos a serem sensíveis ao seu mundo, a buscar pautas e personagens no dia a dia. E levar o caderninho de anotações numa mão e o coração na outra. No dia em que não conseguirem fazer isso, que pendurem o microfone.

Na fronteira EUA – Mexico

– Como o universo das redes sociais está impactando no ensino de jornalismo?

Assim como são ferramentas para os veículos, as redes sociais são recurso para a sala de aula também. Tanto para comunicação com alunos, para compartilhar conteúdos importantes, como para pesquisar o que tem sido publicado, entender como são as coberturas mais factuais, como as notícias repercutem. O Twitter foi um dos objetos de estudo na minha dissertação de Mestrado em Relações Internacionais – que abordou ciberativismo e jornalismo participativo. Uso muito em aula também.

– Uma critica antiga às universidades é a distância entre o mundo acadêmico e a realidade da atividade profissional na rua. Ainda existe este hiato entre teoria e prática?

Eu mal me formei (na UFSM) e comecei a trabalhar na RBS TV. Na época achava isso mesmo, que academia e mercado eram dois universos distantes e que eu aprendi colocando o pé na reportagem diária. É claro que a prática faz a perfeição. Mas quando voltei para a sala de aula para cursar o Mestrado percebi o quanto o mercado precisa da academia também. A rotina da redação nos obriga a agir quase no piloto-automático, sem refletir muito o impacto do nosso trabalho. Hoje, depois de um ano como professora e revisitando a bibliografia da Faculdade de Jornalismo, me considero uma repórter muito melhor! E quanto ao que ocorre na ESPM… Já nos primeiros semestres os alunos têm muita atividade prática. A HUB, que é a agência experimental e comunicação da escola, tem vários parceiros no mercado. Em aula analisamos o que os veículos publicam, como cobrem cada tema… É o tempo de pensar, criticar, problematizar… que acaba faltando depois da formatura.

– A realidade do mercado mostra que a obrigatoriedade do diploma, embora legalmente exista, é cada vez mais burlada. Como isso está repercutindo nas faculdades de jornalismo?

Tenho alunos que estão “prontos”, que poderiam estrear numa redação, mas que foram para a faculdade pela exigência do diploma e também para buscar formação. A formação técnica, teórica, é imprescindível para o jornalista, e creio que meus alunos entendem isso. De novo, falo por mim: me sinto uma profissional reciclada desde que comecei a lecionar.

– As faculdades de comunicação estão aproveitando as facilidades que a web e as novas tecnologias oferecem para gerar conteúdo com as atividades dos alunos?

Sim, e o contrário seria impossível, impensável. Tenho alunos com canal no YouTube. Sempre lembro em aula que temos uma produtora de bolso: o telefone celular, com que podemos captar, editar, transmitir. Aproveitamos plataformas como Medium para publicar reportagens feitas como tarefa de disciplinas, assim o trabalho em aula toma outra dimensão: os alunos serão lidos, vistos, ouvidos não somente pela professora. Recentemente um especial sobre o show do Paul McCartney que publicamos no Medium (era tarefa da disciplina de Mídia Local e Regional) foi aproveitado pela edição online Jornal do Comércio. Prova de como essas tecnologias permitem que academia e mercado entrem em sintonia.

Entrevistando Tom Cruise nos EUA

– Como deve ser o perfil de um professor de jornalismo no contexto de hoje?

Creio que professoras e professores de Jornalismo têm que seguir a mesma diretriz de quem está na redação: atualizar-se sempre. Entender como as notícias são consumidas – ou serão consumidas num futuro breve. Um exemplo: em geral meus alunos assinam dezenas de canais no YouTube e poucos sentam na frente da TV para assistir a um telejornal. Muitos acompanham sites de mídia alternativa, buscam vozes dissonantes da narrativa geral, se interessam mais pela opinião, pelo “Jornalismo de raiz” e pelo “lado B” das histórias. Novamente falando sobre a maravilha que é a Internet, estudante não precisa esperar chegar numa redação para ver seu texto publicado. Temos que estimular essa produção. Temos que preparar profissionais para esse mercado que é multiplataforma e que tem espaço para interesses múltiplos. E retomando a ideia da formação além da técnica… Eu sou apaixonada pelo Jornalismo, pela oportunidade de conhecer tanta gente, tanta coisa. Eu não dou aula, eu faço praticamente uma pregação em sala! Para mim um dos atributos mais nobres do Jornalismo é aproximar realidades. E muitas vezes “invadimos” a vida do entrevistado no seu momento de maior dor, de maior vulnerabilidade (uma tragédia, uma acidente, uma enchente…). Mesmo assim, perguntas devem ser feitas, histórias devem ser contadas.  Ter empatia, ter a real noção do impacto do nosso trabalho: ficarei realizada se meus alunos lembrarem disso em suas reportagens.