TÁ NO AR, NÃO PARA!!

Tem horas em que só um vocabulário bem calibrado e uma base de informações consistente salvam o sujeito.
OK, são duas exigências básicas para o exercício decente do jornalismo, desde sempre. Mas todos sabemos o quanto estes artigos estão cada vez em falta hoje em dia.

Há uma situação em que estes recursos são especialmente valiosos: as transmissões ao vivo, seja em rádio, TV ou web.

Nessa hora não tem arrego. Ou o sujeito segura a onda ou paga mico no ar. E não adianta muito ter o papelzinho na mão com a cola, se o texto não tem qualidade em expressão e conteúdo.

A cola apenas salva o repórter de não ficar com cara de tacho na TV ou de ficar gaguejando no rádio por não saber o que dizer.

Aquela olhadinha no papel ou no smatphone, mesmo indesejável na TV (escancara a falta de capacidade de memorização e pior, de conhecimento do assunto) vai ser apenas “encheção” de lingüiça com um texto recitado.

E até mesmo pra encher lingüiça é preciso capacidade mínima de comunicação para que não vire um trololó de enganação pura no ar.

Normalmente, as entradas ao vivo tem tempo determinado. E é para aqueles poucos segundos ou minutos que o repórter prepara sua intervenção. Nestas circunstâncias, por conta do planejamento prévio, os riscos são menores, embora nas entradas ao vivo sempre possam surgir surpresas.

O problema é quando tudo muda inesperadamente.

O que fazer quando chega pelos fones, durante a transmissão, a ordem de ficar falando e falando até que alguém decida a hora de parar?

É aí que se separam os homens dos meninos – ops, é arriscado usar uma expressão de gênero nestes tempos de patrulha ensandecida, mas dane-se. Você entendeu o ditado, né?

ENROLAÇÃO NÃO É JORNALISMO

Quando a gente se vê de microfone na mão, cara e voz no ar, ao vivo para milhões, sentindo que já disse tudo que havia planejado para dizer e precisa continuar falando sobre o assunto com informações novas, a única salvação é a capacidade de aproveitar sua base de conhecimentos e apoiar a fala num vocabulário bem articulado e variado.

Você pode até ser um grande enrolador, com recursos teatrais e um palavrório que permitam esticar o papo sem dizer muita coisa. Mas isso não é jornalismo.

O jornalista competente é aquele que diante da situação consegue superar a insegurança gerada pelo inesperado e continuar informando, com firmeza e objetividade.

CADÊ O CAIXÃO DO MÁRIO QUINTANA?

Maio de 1994. O corpo do poeta Mário Quintana estava sendo velado no salão nobre da Assembléia Legislativa do RS, no primeiro andar. A RBSTV transmitia a cerimônia. A repórter Maria Helena Martinho descrevia ao vivo o ambiente em torno do caixão. Eu estava do lado de fora do prédio, aguardando a saída rumo ao cemitério.
Quando Maria Helena mostrou o caixão saindo do salão fui plugado no ar para continuar a transmissão.
Comecei a falar, e nada do caixão aparecer. Senti que havia algo errado. Vários minutos se passaram . Nos fones, o editor mandava seguir falando, enquanto eu ouvia ao fundo os berros do diretor de imagem:
– Alguém sabe cadê a porra do caixão???
O caixão havia trancando na escada de acesso á garagem, que tinha um ângulo muito apertado. Passaram-se mais de 15 (QUINZE!!!) minutos até que o dito aparecesse sobre o caminhão de bombeiros na saída do prédio.
E eu ali falando, falando, descrevendo o clima na Praça da Matriz, movimentação dos policiais no isolamento, estimativa de pessoas, etc, e alguns aspectos da biografia do poeta que eu conseguia resgatar na memória no meio daquela confusão toda..
Em muitos momentos eu senti falta de expressões que substituíssem as que eu já havia repetido. Que sufoco!!

VIVO INTERMINÁVEL NA REBELIÃO

Outro perrengue desses aconteceu durante a rebelião no Presídio Central de Porto Alegre, no mesmo ano. Eu me preparava para entrar ao vivo para o Jornal do Almoço (RBSTV) em frente ao portão principal, dando o clima da situação.

Era pra ser menos de 1 minuto de transmissão. Mas acabei ficando 12 minutos. Estávamos longe dos acontecimentos e não havia muito o que descrever. As intervenções de estúdio do apresentador Lazier Martins , com quem eu conversava ao vivo, foram providenciais para tornar aquela eternidade uma transmissão produtiva.

Mas mesmo para sustentar uma conversa ao vivo é preciso ter boas informações do contexto e saber interagir bem, com falas objetivas, consistentes e adequadas ao clima do que se descreve.

Enrolação não é jornalismo.