SE FILMAR, NÃO DIRIJA…

Final dos anos 90. A RBS investia num processo de reorganização de pessoal para reduzir custos. Uma das medidas daquilo que na época atendia pelo modernoso nome de “reengenharia” atingia em cheio a operação do telejornalismo na RBSTV.

O objetivo era reduzir ainda mais o tamanho das equipes de reportagem.

Esse processo já havia começado no fatídico passaralho de 1988, quando foi eliminada a função dos auxiliares de cinegrafista, os chamados “paus de luz”. Eram os profissionais que operavam o kit de iluminação e carregavam baterias, fitas, cabos de extensão e outras tralhas.

Todos foram demitidos e suas funções passaram a ser acumuladas pelos operadores de VT (videotape), que carregavam pendurado nos ombros o pesado gravador de vídeo, que era separado da câmera.

A essa altura já estava em andamento a evolução tecnológica que incorporava o gravador ao corpo da câmera, o que acabou decretando o fim dos operadores de VT.

A chegada de equipamentos padrão HI-8, Betacam e SuperVHS  de certa forma ressuscitou os “paus de luz”. Só que agora eles eram os ex-operadores de VT, para quem não havia sobrado outra função a não ser carregar as luminárias, baterias, etc.

E não demorou para que entrassem na alça de mira dos gestores. Eles e os motoristas.

O plano agora era implantar um modelo de equipe de reportagem com apenas 2 pessoas: repórter e um cinegrafista motorista.

Todo operador de VT almejava ser promovido a cinegrafista. Esta sempre foi considerada uma evolução profissional natural para os que sonhavam em operar uma câmera na reportagem.

Os operadores dedicados aprendiam a técnica de captação das imagens com a ajuda dos próprios colegas cinegrafistas, que davam dicas e sempre que possível permitiam que os aspirantes a câmera operassem o equipamento sob sua supervisão.

A maioria dos grandes repórteres cinematográficos veteranos que ainda estão em atuação começou assim.

Mas era necessário haver vagas. A emissora planejava aumentar o time de cinegrafistas, pois havia a demanda gerada pela recém nascida TVCom, emissora de conteúdo local em faixa UHF, diferente das TVs abertas que operavam em VHF (canais 02 a 13).

Só que desta vez o processo de promoção teve um critério inédito.

Ansiosos por ascender na carreira e manter seus empregos, os ex-operadores de VT, então reduzidos à condição de auxiliares de cinegrafista, receberam uma proposta da direção: para tornarem-se profissionais da imagem, teriam também que ser motoristas, ganhando um percentual a mais pela função.

A mesma proposta também foi feita aos cinegrafistas veteranos. Mas estes, cascudos na profissão, reagiram e recusaram com firmeza o novo modelo.

Os auxiliares não tinham este poder de barganha. Ou aceitavam a promoção sob estas condições, ou estavam na rua.

A maioria nunca tinha dirigido um carro.

Foram correndo matricular-se em auto-escolas. Os que tinham alguma noção de como conduzir um veículo foram direto ao Detran, fizeram os testes – que naqueles tempos não eram tão exigentes – e obtiveram habilitação.

E assim surgiu a primeira turma de cinegrafistas motoristas da RBSTV (na capital, pois nas sucursais do interior este modelo vigorava há anos).

Em emissoras menores concorrentes isso não era novidade, mas na sede da grande e rica rede de telejornalismo era uma mudança e tanto.

Mas o resultado não foi o esperado.

ACIDENTES EM SÉRIE

Logo ficou evidente que ser motorista é uma coisa, e ser motorista profissional, no agitado mundo da reportagem e no conturbado tráfego das ruas e estradas, é bem diferente.

Uma das primeiras consequências foi a chuva de multas nas mesas do departamento financeiro.

Até pouco tempo antes disso, os carros de reportagem podiam estacionar praticamente em qualquer lugar, autorizados por um documento da prefeitura que era fixado com fita adesiva nas janelas laterais.

Quando esta regalia acabou, os carros da imprensa passaram a ser tratados pelos fiscais de trânsito como um veículo qualquer, sujeito aos rigores da lei no tumultuado trânsito da capital.

E veio então a enxurrada de multas por estacionamento proibido e outras infrações. Resultado da falta de prática dos novos motoristas, instintivamente preocupados em priorizar a pauta e a corrida contra o deadline.

Inseguros na direção, a maioria dos novatos dirigia em velocidades baixas. Alguns repórteres, acostumados com a agilidade e as malandragens dos veteranos, reclamavam da lentidão. Certa vez um deles, egresso da Rádio Gaúcha, perdeu a paciência:

– Pô meu, tu só anda a 30 por hora? Assim a gente não chega nunca!

– Quer correr? Então tu pega a direção. Eu dirijo assim!

E o repórter apressado assumiu o volante. Os dois trabalharam assim por uma semana, sem que a direção soubesse.

Mas o pior efeito da imposição deste modelo foram os acidentes. Várias pequenas colisões trouxeram altos prejuízos com oficinas mecânicas. Outras, nem tão pequenas, quase causaram tragédias.

Numa manhã, eu estava com minha equipe pelo bairro Azenha quando chegou pelo rádio comunicador a informação de que outra equipe havia sofrido um acidente grave naquela área. A redação pedia que nos dirigíssemos urgente ao local para apurar o que aconteceu.

O cinegrafista e motorista novato do repórter Flávio Fachel perdeu o controle do carro no agitado cruzamento da Avenida Princesa Izabel com a rua São Luiz. A Parati avançou sobre a calçada e bateu de frente na entrada de uma concorrida churrascaria que ficava bem na esquina. Um local que sempre acumula filas de clientes à espera de lugar nas mesas, mas que naquele horário felizmente ainda não tinha movimento.

Encontramos o carro com a frente demolida, mas sem ninguém. Fachel já tinha ido de ambulância para o HPS e o cinegrafista estava envolvido com o registro da ocorrência na polícia. Fui direto para o hospital.

Encontrei Fachel deitado numa mesa da emergência, sozinho num ambiente de pouca luz, à espera de atendimento. Era uma cena muito triste. Ele tinha vários hematomas e escoriações. Com o braço quebrado, chorava de dor. O cinegrafista teve ferimentos leves.

A sequência de acidentes (todos os novatos se envolveram em colisões em poucos dias) e conflitos internos levou os cinegrafistas a dar um basta.

Num raro momento de união e de desafio à direção, veteranos e novatos, reunidos numa  “assembléia” improvisada no corredor, decidiram que ninguém mais partiria para as reportagens sem motoristas profissionais.

A direção acabou cedendo e naquele dia o projeto cinegrafista/motorista foi engavetado na RBSTV de Porto Alegre.

Coroando o final feliz do episódio, os cinegrafistas “calouros” que fizeram habilitação sob pressão foram mantidos nos empregos.