MEMORÁVEIS SACANAGENS – PARTE 2

Quem anda pelas estradas deve conhecer aqueles saleiros instalados no meio das pastagens para o gado. Alguns mais antigos, feitos em fibra de vidro, tem o formato de um orelhão de telefone, com uma abinha na parte superior, tal qual as chaminés de fogão a lenha, para girar conforme o vento.

Pois bem, estávamos cruzando a região norte do estado rumo á Fazenda Annoni, palco da história invasão de terras que foi um dos marcos do nascimento do MST.  Na época eu era repórter do Jornal Meridional, produção da TV Pampa que marcou história no telejornalismo gaúcho.

A equipe tinha um novato como auxiliar de iluminação, função chamada de “pau de luz”. O sujeito nunca tinha viajado com uma equipe de reportagem.

Precisava de um batismo á altura da missão…

Lá do banco de trás da Kombi, chamei o motorista:

– Gilberto, para a Kombi. Precisamos fazer uma coisa urgente.

Ele não entendeu nada, mas estacionou no acostamento.

Todos ficaram me olhando intrigados. Inventei a lorota na hora, fingindo preocupação:

– Pessoal, precisamos avisar a redação que a gente vai acabar se atrasando para gerar o material para Porto Alegre.

Na época não havia celular. E o rádio portátil não tinha nenhuma utilidade naquela distância. Olhei para o novato, e pedi em tom de urgência:

– Ramos, precisamos que tu faça isso, senão todo o trabalho estará perdido!

– Mas o que eu vou fazer? Avisar eles como?

Apontei para a janela, mostrando a pastagem na beira da estrada, com meia dúzia de vacas e nenhuma casa ou galpão por perto. E ordenei:

– Presta atenção: tá vendo aquele orelhão lá no meio do campo? Vai até lá, liga a cobrar pra TV e avisa que a gente ta atrasado, mas tentaremos chegar o mais rápido possível em Cruz Alta pra gerar o material. Entendeu?

– Orelhão? Onde? Aqui??

– Tá alí ó, não ta vendo, perto das vacas?

Ele me olhou meio desconfiado, mas acatou a ordem. E se foi rumo ao “orelhão”. Pulou a cerca, e enveredou pela pastagem ainda encharcada pela chuva forte que tinha caído mais cedo.

Os demais da equipe já haviam percebido que era sacanagem pura e ficaram quietos, fazendo cara de paisagem e tentando prender o riso.

A Kombi explodiu em gargalhadas quando o auxiliar chegou ao saleiro, com os pés e a barra da calça ensopados e não encontrou telefone algum.  Nos olhou de longe, meio atarantado, abrindo os braços naquele gesto de “Ué, cadê??” E logo se deu conta que caíra como um pato na brincadeira. Voltou para o carro furibundo, rosnou por alguns segundos e se acalmou depois de ser “felicitado “pela equipe em coro:

– Muito bem colega,parabéns!!