REPÓRTER ESQUISITO, MATÉRIA GENIAL!

Tá achando que o telejornalismo brasileiro quebrou históricos “paradigmas” ao abolir a gravata dos repórteres? E que os textos mais soltinhos, cheios de maneirismos inauguraram uma nova e revolucionária era de narrativas descoladas e locuções charmozinhas?

Pois então vou te contar o que é fazer revolução em narrativa de TV. E não é coisa de agora, não.

Foi em janeiro de 1999. Eu trabalhava na RBSTV e estava em Buenos Aires, cobrindo para a Globo pendengas do Mercosul.

Tarde da noite, aboletado na cama do hotel, caindo de sono, eu zapeava meio zumbi pelos canais internacionais de notícias.

Já estava com os olhos fechando quando comecei a estranhar uma reportagem que eu não estava vendo, apenas ouvindo.  Era só som ambiente. Uma gritaria danada em espanhol, com   sirenes, mulheres chorando, etc. Já ia um tempão só naquilo, sem que eu ouvisse nada de locução.

Meu sono foi embora. Descolei daquele maravilhoso travesseiro e me apoiei num cotovelo para assistir.

Era uma reportagem passando na TVE chilena. O assunto era a tragédia na cidadezinha de Armenia, na Colômbia, atingida por um violento terremoto.

Demorei um pouco para entender a narrativa, pois pelo nosso padrão o primeiro reflexo é escutar o texto em off para se situar.

Mas não tinha texto, só áudio ambiente. Soldados berrando, marretas batendo nos escombros, gente desesperada de um lado para outro pedindo socorro procurando desaparecidos, socorristas nervosos tentando organizar as buscas. Uma sinfonia caótica reverberava no meu quarto vinda da tela da TV.

Foi quando comecei a perceber que eu estava entendendo tudo que se passava naquele lugar, sem que um repórter precisasse ficar descrevendo cada cena. E mais do que isso: eu sentia o clima daquela tragédia com muito mais impacto do que qualquer locução seria capaz de fazer.

De repente, uma frase em off, que entra apenas pontuando uma mudança de ambiente. E só. O som natural segue reinando na narrativa. Mais adiante, outra rápida locução, sempre precisa, sem descrever imagens ou turbinar o drama. E dê-lhe som ambiente!

A matéria ressaltava a tolerância dos soldados encarregados de conter os saques em busca de comida e água, mas que, por serem eles tão pobres quanto a população exasperada, faziam vista grossa e deixavam as pessoas passar, numa curiosa e velada solidariedade por trás dos escudos e capacetes.

O SUSTO!

Eu, que já estava encantado com aquele estilo de narrativa que nunca tinha visto, me  perguntava: E o repórter, cadê o cara? Será que só pegaram material de agência de notícias e apenas deram um trato?

Bem, já seria golaço só pela fórmula que aplicaram.

Mas eis que no meio da correria de soldados coniventes e saqueadores ensandecidos surge o repórter.

A imagem me fez sentar na cama de súbito como um bonequinho de mola.

– Ah não! Eu tô vendo isso mesmo?

O repórter era um tipo sisudo, de barba, aparentando uns 50 e tantos, vestindo uma túnica tipo safári. E ostentava um bizarro tapa-olho negro, daqueles dos clássicos piratas de cinema, com uma grossa tira atravessada na testa. Deu o recado e sumiu da tela.

Refeito do susto, voltei a prestar atenção na condução da matéria. Apesar do figurino pra lá de inusitado, percebi que, depois da rápida intervenção da passagem, o repórter bucaneiro  manteve a sobriedade da narrativa, fazendo observações em off bem pontuais e deixando o clima por conta das imagens e seus sons tão tristes quanto eloqüentes. As passagens eram raras.

Desde que sintonizei o canal, já haviam se passado uns 10 minutos daquela arrebatadora reportagem. De repente, o som baixa e corta para o estúdio, onde num canto da tela irrompe o repórter e seu tapa-olho, mas agora de terno e gravata. Sempre sério, ele faz a chamada para o bloco seguinte.

Foi aí que percebi que era um programa de reportagens especiais, como um Globo Repórter, mas com o pirata fazendo dublê de repórter e Sérgio Chapelin.

Conclusão:o visual daquele repórter, algo que poderia ser visto como uma excentricidade ou mesmo bizarrice, não teve interferência alguma na qualidade soberba do material. Entendi que aquilo era uma marca do sujeito, de quem infelizmente não guardei o nome. A forma magistral como a matéria foi conduzida (apesar do meu susto inicial) neutralizou qualquer estranheza que se pudesse ter em relação ao modelito Barba Negra.

Revolução estética? Nada disso. Apenas jornalismo de primeira qualidade valorizando o que interessa, que é  contar bem a história, explorando o que ela tem de melhor: o clima que salta dos acontecimentos diante dos olhos.