QUANDO O REPÓRTER NÃO SE MICHA!

Para resgatar a história com fidelidade, é preciso contextualizar objetivamente para que se compreenda a dimensão e o ambiente em que o causo aconteceu.

Nos anos 80 fiz parte de uma maravilhosa experiência jornalística no Rio Grande do Sul: o Jornal Meridional, telejornal em horário nobre da TV Pampa. Era uma equipe de elite, formada pelo núcleo central do programa RBS Documento, um equivalente local do Globo Repórter. Todos tinham saído da RBS e formado uma nova equipe na Pampa.

Era um projeto pra lá de ousado na época para os padrões da TV Pampa, uma emissora pequena que apesar de afiliada à Rede Manchete (Grupo Bloch) não tinha estrutura nem tradição para comprar briga de verdade com a poderosa RBS. Mas comprou.

O projeto foi estimulado pelo diretor de programação, jornalista Clóvis Duarte, que convenceu Otávio Gadret, dono da Rede Pampa, a investir na idéia. O fator determinante foi o contrato de patrocínio master celebrado com o recém criado Banco Meridional,  que viabilizou financeiramente a iniciativa.

Redação do Jornal Meridional

O telejornal começou com quase 1 hora de duração. Os âncoras eram Flávio Porcello e Cláudia Nocchi, ambos repórteres de ponta da RBS. Na Pampa passaram a atuar como âncoras de verdade, pois naquela época de tele-roteiros engessados e sóbrios, eles tinham liberdade para dar pitacos agudos fora do script.

Além deles, havia um time de comentaristas consagrados, como Sérgius Gonzaga, Enéas Franco, Elódio Zorzetto (irmão do Elói e da Eloisa, era também repórter), Eduardo “Peninha” Bueno e outras feras.

Na reportagem, várias equipes unindo veteranos egressos da RBS, como Ataides Miranda, e alguns focas cheios de vontade – entre eles, eu.

Naqueles novos tempos (a redemocratização tinha menos de dois anos) as coberturas do JM buscavam ousadia. O espírito do grupo era de liberdade total nas abordagens.

BUENO, AGORA VAMOS AO CAUSO!

Um dos repórteres novatos era Ferraz Jr, que atuava na Rede Manchete em Recife e veio para o sul reforçar a equipe do Jornal Meridional.

Ferraz Jr na redação do Jornal Meridional

O gaúcho Paulo Brossard era o Ministro da Justiça do Governo José Sarney. Estava vindo de Brasilia para um fim de semana em suas terras no Alegrete.

Ferraz foi escalado para entrevistá-lo no aeroporto Salgado Filho. Na época fervilhavam as invasões de terras, e ocorria no RS a emblemática ocupação da Fazenda Annoni, no norte do estado, considerada um marco na gênese do MST.

Brossard, jurista aclamado e liderança histórica do MDB gaúcho, foi personagem de importante atuação no processo de retomada da democracia. Mas era um tipo sisudo,  extremamente formal. Dava entrevistas como quem sustentava uma complexa argumentação diante de um júri. Não tinha a menor preocupação com objetividade para facilitar a vida dos jornalistas. Gravar com ele era sempre um sacrifício. Cada vez que um repórter tentava atalhar, ele retrucava com um sombrio “Deixe-me concluir o raciocínio.”

Assim que o vetusto ministro surgiu na sala VIP, trazendo na mão o inseparável chapéu, Ferraz o abordou.

Astuto, o repórter fez uma primeira pergunta sobre o contexto nacional para amaciar o ilustre entrevistado – o que representava um risco diante da provável tese que seria exposta com toda pompa pelo ministro. Mas era um risco calculado.

Assim que veio a brecha, Ferraz Jr. lascou outra pergunta sem hesitar:

– Ministro, o senhor, como um grande proprietário de terras, como analisa essas ações do MST em busca da reforma agrária?

Brossard puxou um interminável suspiro, soltando um sutil grunhido, daqueles que antecedem um incisivo contra-ataque verbal.  A resposta confirmou o clima:

– O senhor quer perder o seu emprego?

Ferraz viu que a barra pesou e na mesma hora mudou de assunto para aliviar a tensão. O ministro sentiu-se vitorioso com sua advertência e seguiu falando com seu jeitão característico.

Mas ele não contava com a teimosia do Ferraz Jr.

– Ministro, voltando àquela questão, como o senhor, um grande latifundiário, vê estas mobilizações pela reforma agrária?

Mais um longo suspiro, e novamente o tom intimidatório:

– Mas o senhor quer MEEEESMO perder o seu emprego, não é?

– Ministro, apenas peço a sua avaliação…

– Esta sua pergunta é asnática e não merece resposta.

Brossard calmamente se virou e foi embora.

Havia um componente na atitude de Brossard que era especialmente sensível naquele momento: como ministro e grande liderança política gaúcha respeitada nacionalmente, ele teve papel fundamental na complicada articulação federal que culminou com a criação do Banco Meridional, logo após a bancarrota estrepitosa do Grupo Sul Brasileiro, uma potência financeira gaúcha. E o Banco Meridional era o patrocinador de qual telejornal?

Fiéis ao estilo independente liderado pelo jornalista Paulo Martinbianco, diretor da equipe, o Jornal Meridional veiculou a entrevista à noite da forma como ela aconteceu – incluindo o “asnática”-  mostrando claramente o embate do seu repórter com o figurão do governo.

A reportagem foi veiculada também em rede nacional, pela Manchete, e repercutiu até na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, onde a deputada Cidinha Campos, jornalista egressa da Globo, fez duro pronunciamento em plenário condenando a postura do ministro.

Se quiseres conhecer toda a história do valente Jornal Meridional, com outros episódios incríveis, confere o causo abaixo:

ÂNCORAS NO AR: ESTAMOS EM GREVE!