QUANDO A MATÉRIA DÁ SAMBA!

Quando uma reportagem de TV começa de forma original, fora da mesmice, a gente logo se liga. Foi o que aconteceu neste domingo, 02/02, quando eu assistia a BandNews tomando preguiçosamente meu mate em casa com minha mulher e sogra.

Batendo papo na sala, nem estava muito ligado no telejornal. Mas aquele instinto que a gente tem, de perceber quando surge algo diferente fez minha atenção ser capturada de súbito e puxou meu olhar para a tela.

E foi logo na primeira frase do off de um repórter paulista que eu não conhecia e infelizmente não gravei o nome. Tentei depois resgatar a matéria no site da BandNews mas não encontrei.

Era uma matéria sobre o acervo do compositor Adoniran Barbosa, mestre do samba, autor de obras imortais como Trem das onze, As mariposas e Saudosa maloca. Foi justamente esta última música que alimentou a criatividade do repórter.

Em vez de apelar para uma abertura convencional, o repórter buscou inspiração no próprio Adoniran. Para mostrar onde teria sido o local do casebre engolido pela construção de um edifício (o lamento de “Saudosa maloca”) ele abriu o off citando literalmente (narrando, não cantando) a letra do clássico obrigatório em qualquer roda de boteco de norte a sul:

“Se o sinhô não tá lembrado, dá licença d´eu contar. Bem alí adonde está, aquele edifício arto, era uma casa velha, um palacete assombradado…”

A matéria conquistou já na largada!

A maioria dos repórteres provavelmente teria começado o off com algo insípido e previsível do tipo “Adoniran Barbosa foi um dos grandes compositores do samba, autor de clássicos como tal e tal…”

Depois da abertura inspirada, o repórter da BandNews descreveu a situação do acervo pessoal do compositor, encaixotado numa sala de um museu em São Paulo, à espera de um espaço à altura de sua importância. Matéria bem construída, com leveza e informação, do início ao fim.

Televisão, assim como o rádio, é isso: tem que arrebatar o telespectador/ouvinte logo na largada, e depois manter o clima prendendo a atenção até o última frase.

E pra não atravessar o samba, o diferencial é justamente criatividade e originalidade, artigos que infelizmente andam muito em falta. Ainda bem que ainda tem muita gente inspirada por aí.