MILTON COUGO

MILTON COUGO é um dos mais respeitados repórteres cinematográficos do país, com 34 anos de experiência em captação de imagens, coordenação de equipes, instrutor, supervisão de imagens e direção de fotografia. Trabalhou na RBS TV, Rede Globo, TVE, SBT e Band de Porto Alegre e São Paulo, além de produtoras do centro do país.

Foi o primeiro repórter cinematográfico a presidir a Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul – ARFOC-RS. É um mais premiados no sul, com vários prêmios ARI, Movimento de Direitos Humanos, Wladimir Herzog e o primeiro Prêmio Esso para uma equipe de TV gaúcha, pelo SBT. Participou de várias coberturas internacionais e em campanhas políticas no Rio Grande do Sul, Roraima, São Paulo e no Paraguai. Atualmente trabalha na Unidade de Comunicação do Sistema FIERGS.

 A imagem mais difícil que já gravou

– As imagens mais difíceis sempre foram as que envolveram perda de vidas e catástrofes.

O pior momento para um cinegrafista

– A perda de uma imagem que não poderia deixar de ser registrada ou o registro de uma situação triste em que ficamos impotentes.

 A imagem mais gratificante

– É imagem do dever cumprido, da denúncia, de saber que a imagem pode de alguma forma contribuir para ajudar a sociedade. E também os flagrantes de belas imagens.

 Maior perigo que já enfrentou trabalhando

– Foram muitos, aqui vão alguns: caí num rio gelado na Suíça e não sabia nadar, fui assaltado e ameaçado com arma de fogo em São Paulo e levaram a câmera; estive em meio a uma troca de tiros no Paraguai em função do assassinato do vice-presidente, gravei os conflitos na crise econômica da Argentina com intoxicação por gás, presenciei tiroteios na entrada dos morros no Rio de Janeiro.

Maior defeito de um repórter cinematográfico

– Não ter consciência da importância da imagem, não ter atitude, ser desatento e não ter um olhar aguçado, ser desinformado sobre a pauta, não dominar seu equipamento e não saber trabalhar em equipe.

 E de um repórter

– Se achar mais importante do que a notícia, não dar importância à imagem, não trabalhar em equipe.

Câmeras modernas salvam repórteres cinematográficos limitados?

– Salvam em algumas limitações técnicas, mas não na construção da reportagem, na sensibilidade e nos enquadramentos.

 Repórter-cinematográfico deve interferir na edição?

– Pode contribuir na elaboração da edição, sugerindo imagens, pois afinal ele que foi a campo; mas sempre respeitando o trabalho do editor de imagens.

Como a tecnologia está influenciando no papel do repórter cinematográfico?

– Tem modificado o perfil. Em algumas situações é interessante que ele saiba editar. Ele está cada vez mais ágil, independente, mais informado e versátil.

O que é mais importante no olhar do repórter cinematográfico?

– Ter sensibilidade para perceber o fato que pode acontecer e a capacidade de enxergar o detalhe, que muitas vezes, faz a grande diferença.

Cinegrafista mulher tem espaço?

– Sim, com o avanço tecnológico e equipamentos mais leves o caminho está aberto para elas brilharem na profissão.

 Há diferença em trabalhar com repórter homem ou mulher?

– Não faz diferença. O mais importante é a parceria, respeito, afinidade e capacidade profissional.

Que peso o repórter cinematográfico deve ter na construção da matéria?

– Deve ter participação efetiva na construção da matéria, pois é o responsável pela captação das imagens. Quanto mais informado estiver, maior a chance de êxito da reportagem.

Dica para repórteres cinematográficos novatos

– É fundamental fazer curso e passar por um bom treinamento, isto faz a diferença, mas não é tudo. Também é preciso ter comprometimento e paixão pelo que faz. Sempre que precisar ajuda, buscar informações com profissionais mais experientes para rever as suas imagens e as dos colegas. Ter senso crítico, buscar atualização, saber trabalhar em equipe e estar sempre pronto para a notícia são prerrogativas. Tem grande importância estar sempre exercitando o seu olhar sobre diversas artes visuais: quadros, filmes, documentários, fotografias…

 Dica para repórteres novatos

– Não seja maior que a notícia, trabalhe em equipe com o repórter cinematográfico e cheque as informações.

 Qual o tipo de reportagem mais desafiante?

– São aquelas reportagens que existe um grau de dificuldade muito grande tanto em conseguir informações como na captação de imagens, lugares desconhecidos, investigativas, conflitos, desastres naturais, cobertura de grandes eventos, reportagens especiais.

Como percebe o olhar dos editores e chefes de reportagem sobre o trabalho dos repórteres cinematográficos?

– As chefias que não têm conhecimento de campo podem pecar na avaliação do trabalho apresentado.

Repórteres Cinematográficos que fizeram história (quem, de qual veículo ou ocasião)

Todo profissional que trabalha no dia-a-dia está fazendo parte da história. Vou citar três num universo grandioso de ótimos profissionais:

. Paulo Pimentel, Rede Globo, na reportagem da queda do Muro de Berlim em setembro 1989, um dos maiores símbolos da guerra fria.

. O argentino Leonardo Henrichsen, que registrava imagens para a TV Sueca e sem saber filmou sua própria morte. Cobria o motim conhecido como “Tanquetazo”, em 1973, no Chile, quando foi assassinado por um militar.

. Orlando Moreira, que trabalha na Globo desde antes da criação do Jornal Nacional, registrou vários momentos históricos,como a Revolução dos Cravos em Portugal, participou de duas quedas de ditaduras, Salazar em Portugal, e Franco, na Espanha. Trabalhou na cobertura dos ataques ao World Trade Center e muitas outras.

 O telejornalismo mudou?

– A tecnologia propiciou um avanço extraordinário na velocidade da informação. Por exemplo, uma guerra pode ser assistida em tempo real.

As TVs usam cada vez mais imagens de populares com celular ou câmeras fotográficas. Isso preocupa?

As regras e conceitos estão disponíveis para todos, o que irá nos diferenciar será a nossa sensibilidade, a forma como enxergamos o mundo e a paixão pelo nosso trabalho. Lembrando que temos que estar sempre atentos, curiosos, gostar de gente e não desprezar a percepção que os outros têm das coisas. Sempre pode surgir uma bela oportunidade de contar uma nova história, seja com um celular, uma câmera fotográfica ou com o equipamento que estiver disponível.