JAIR ALBERTO DA SILVA

Este grande repórter cinematográfico gaúcho é uma das mais sólidas referências profissionais em telejornalismo. Veterano de coberturas por todo o Brasil e no exterior, trabalhou com os grandes repórteres da Globo, mas teve a maior parte de sua exitosa carreira aqui no RS. Começou na extinta TV Guaíba nos anos 70 e depois foi para a TV Gaúcha, rebatizada mais tarde como RBSTV.

Cinegrafista obstinado, dono de uma peculiar teimosia em não abandonar a pauta antes de obter imagem ideal, Jair Alberto foi fundamental na formação de muitos repórteres (incluindo eu) com sua visão jornalistica aguda e inesgotável capacidade de trabalho. Hoje está aposentado,  depois de inscrever definitivamente seu nome entre os maiores da categoria.

1) A imagem mais difícil que já gravou:

– Foi no meio da mata amazônica, onde eu e a equipe tivemos que conquistar a confiança de uma tribo onde ninguém falava nossa lingua e tentar uma aproximação para fazer a reportagem para TV Globo. A tribo não era civilizada, e passamos por momentos muito difíceis e perigosos. Por fim, obtivemos sucesso.

2) O pior momento para um cinegrafista:

– Quando tu estas preparado para exercer o trabalho, e o equipamento falha…

3) A imagem mais gratificante:

– Foi quando encontrei e filmei um avião que havia caído na selva amazônica. A notícia que tínhamos era que ele tinha ficado sem combustível. Depois de alguns dias de procura, encontramos vivo um dos oito garimpeiros de Roraima que estavam neste avião. Ele nos levou até o local da queda. Foi muito significativo descobrir a verdadeira causa do acidente: o avião tinha sido abatido com 32 tiros pela polícia da Venezuela. Esta reportagem trouxe não só a gratificação desta descoberta, como o reconhecimento em nível nacional de toda a equipe. O fato gerou também um conflito diplomático, e as autoridades venezuelanas foram obrigadas a divulgar um pedido público de desculpas.

4) O maior perigo que já enfrentou trabalhando:

–  Em uma das muitas viagens que fiz na Amazônia, uma em especial foi bastante delicada. Viajando num avião com outros 40 passageiros (funcionários da Petrobrás), a porta se abriu em pleno ar,  colocando em risco a vida de todos. Dois passageiros rapidamente conseguiram fechar a porta, evitando um acidente.

Outro momento de muita tensão foi quando eu e alguns repórteres fomos atacados por uma tribo na Amazônia. Eles nos perseguiram com bordunas (grandes porretes que os índios usam como cacetetes) e facões. Estavam completamente descontrolados, encarando-nos como inimigos. Felizmente conseguimos reverter a situação e ninguém saiu ferido.

 5) O maior defeito de um cinegrafista?

–  Ser irresponsável ao não checar o equipamento (bateria, testar a câmera, etc) antes do trabalho, porque isso pode prejudicar toda a reportagem e fazer com que se perca um flagrante, por exemplo.

6) E de um repórter?

– É não colaborar para ter diálogo com o cinegrafista antes da reportagem, não discutir a matéria, não dar detalhes sobre, como e quem deve ser enfatizado nela; não ter espírito de equipe.

7) Câmeras modernas salvam cinegrafistas limitados?

– Sim, porém não o aprimora. É a experiência com equipamentos variados que o torna um repórter cinematográfico e não apenas um câmera. Buscar mais conhecimento e a perfeição distingue um bom profissional dos demais.

8) O cinegrafista deve interferir na edição?

– Na maioria das vezes, interferir para dar a sua visão do fato e de como ele aconteceu, para a melhor transmissão da realidade.

9) Como a tecnologia está influenciando no papel do cinegrafista?

– É uma aliada do cinegrafista, pois a tecnologia dos equipamentos fornece a melhor eficácia da imagem e a rapidez no processo de edição e conclusão da matéria.

10) O que é mais importante no olhar do cinegrafista?

– O olhar de um cinegrafista de verdade é o olhar que envolve tudo a sua volta, mostrando a imagem que desvenda tudo nos detalhes; tem que ser sensível e criativo ao desvendar uma realidade, criticar uma situação.

11) Cinegrafista mulher tem espaço?

– Muito, como todos os demais. O que diferencia um profissional do outro é a vontade de ser o melhor, a disciplina e a eficiência, não o sexo.

12) Há diferença em trabalhar com repórter homem ou mulher?

– Nenhuma, em absoluto! A diferença está em ser um bom ou mau profissional.

13) Dica para cinegrafistas novatos:

– Um profissional só é completo quando faz o que realmente gosta. E que no seu cotidiano busca ser o melhor e transmitir sempre a verdade. Estudar muito os recursos e equipamentos com que trabalha, e sempre participar das reuniões de pauta sobre as reportagens. Isso é muito importante na hora de saber o que e como transmitir determinada imagem.

14) E para repórteres novatos:

– Esta resposta deixo para ti, Azeredo!

15) Qual o tipo de reportagem mais desafiadora?

– É aquela em que tu não conheces a realidade que vai filmar; aquela que te surpreende e te emociona. Estas são as mais prazerosas!

16) Como percebe o olhar dos editores e chefes de reportagem sobre o trabalho dos cinegrafistas?

– Em geral valorizam o profissional.  Acredito que eles reconhecem este profissional como o “veículo” que molda a imagem, que tem tato para absorver o melhor dela. Muitas vezes o cinegrafista trabalha junto aos editores e chefes de reportagem, enriquecendo o resultado final com o trabalho em equipe.

17) Cinegrafistas que fizeram história:

– Odone, Milton Cougo, Ricardo Nunes, Wilson Ferrari.

18) O telejornalismo mudou?

– A tecnologia engrandece o telejornalismo. Ao longo dos anos, equipamentos mais modernos, formas alternativas de apresentar reportagens e a experiência dos jornalistas em geral, fizeram com que a informação pudesse ser transmitida com mais rapidez, agilidade e responsabilidade.

19) As emissoras de TV usam cada vez mais imagens de populares feitas com celulares e câmeras amadoras. Isso preocupa?

– É importante pra sociedade. A tecnologia é sem dúvida necessária. Um cinegrafista amador, por exemplo, mostrará uma imagem inédita que servirá também para informar ao mundo algum acontecimento. O crescimento desta “classe” é inevitável. Porém, não desmerece de forma alguma o trabalho de um profissional habilitado para este ofício, pois quem o faz com categoria, sempre terá mercado de trabalho.