PARA TUDO! ESSA CEGONHA É MINHA!

Quando o cinegrafista é “encarnado”, ou seja, teimoso até as últimas consequências para obter a imagem que quer, não tem jeito. Melhor deixar o cara trabalhar, que ele vai dar um jeito de conseguir o take desejado. Ou pelo menos o melhor possível.

Me acostumei com a obstinação fundamentalista do repórter cinematográfico Jair Alberto. Embora tivéssemos trabalhado juntos na RBSTV, foi na Band RS, algum tempo depois, que nossa sintonia foi realmente afinada.

Éramos a equipe responsável pelas gravações do programa de reportagens especiais semanal “O Rio Grande que dá certo”.

Em 2004, estávamos na unidade da General Motors em Glorinha, à margens da BR 101 (que a gauchada só consegue chamar de Freeway) colhendo imagens para um programa sobre a indústria automotiva no sul.

Depois de gravar linha de produção, testes, depoimentos, etc, faltava a imagem final: o embarque dos carros prontos para o mercado.

Era uma operação cronometrada, que seguia padrões rígidos de timing, controlados com mão de ferro pelos encarregados de fiscalizar o embarque dos carros novinhos em folha nos caminhões cegonha, que tinham hora certa para ganhar a estrada e chegar ao seu destino.

No pátio junto ao grande portão de saída da fábrica, funcionários carrancudos anotavam em planilhas o ritmo dos embarques, marcando o tempo que os motoristas da empresa levavam para subir a rampa da cegonha e acomodar cada Celta no seu lugar. Apontavam o tempo que outros funcionários levavam para “amarrar” os carros na estrutura e o horário de saída pelo portão principal, acelerando o processo com ordens quase gritadas, como sargentos ensandecidos atucanando um grupo de recrutas destrambelhados.

Nada podia sair do ritmo. Aquela unidade industrial era modelo mundial e seguia regras draconianas.

Mas eles não conheciam o Jair Alberto.

Como estávamos de saída, tomando o rumo do estacionamento para ir embora, a assessoria de imprensa que havia nos acompanhado o tempo todo já tinha nos deixado.

Perguntei ao responsável pela área quantos caminhões faltavam partir. Sem tirar os olhos da prancheta, ele apontou para um Scania que roncava alto, esperando a abertura do portão, como se fosse um cavalo de corrida impaciente no partidor.

– Esse aí é o último de hoje. Já tá carregado e tá saindo agora mesmo.

Jair se virou para mim, com os olhos arregalados pela resposta, mirou o caminhão, e bradou:

– Mas não mesmo! Essa cegonha é minha!

Parou na frente do caminhão, com uma mão segurando a câmera apoiada no ombro, e a outra abanando freneticamente para o motorista, que não estava entendendo nada.

– Para aí papai, não avança não, agora é comigo!

O fiscal ao meu lado ficou paralisado diante da cena. Parecia não saber o que fazer. Era algo tão inusitado que ficou por alguns instantes meio catatônico, vendo aquele negão alto e barbudo assumindo o controle da operação, dando ordens com o vozeirão que ativava sempre que queria controlar a situação.

Tentei tranqüilizá-lo e dar alguma margem para o Jair fazer o que queria antes que a segurança fosse acionada:

– Fica tranquilo chefe, a direção tá sabendo, é só por alguns instantes.

Ele ficou me olhando ainda meio embasbacado. E balbuciou um “Tá bom” quase inaudível.

Na boléia do caminhão, o motorista estava atônito. Jair subiu no estribo da cabine:

– Olha só amigo, eu só vou gravar umas imagens dos carros embarcando, é vapt- vupt!

– Mas os carros já tão embarcados!

– Fica frio, vão embarcar tudo de novo! Olha lá o meu repórter, já acertou tudo com o teu chefe!

Desceu do estribo, olhou para os motoristas que assistiam a tudo, e gritou de longe mesmo:

– Vocês aí, sobe lá, tira os carros e sobe tudo de novo. Vamulá, vamulá, rápido, rápido, não dá pra ficar aqui o dia todo! Bora, bora, papai!!

Fui me afastando devagarinho do fiscal que observava tudo sem dizer nada. E deixei Jair à vontade pra fazer o seu show.

Como se fossem obedientes escoteiros, uns quatro ou cinco motoristas subiram na cegonha, desamarraram os Celtas atados na parte de baixo, baixaram a rampa metálica, acionaram os motores e desembarcaram os carros, formando uma fila atrás do caminhão.

Permaneceram aos volantes olhando para o Jair, esperando ordens. Pareciam hipnotizados.

“Atenção, olhando pra mim”, gritava Jair, já com o olho no wiewfinder (visor) da câmera, ajustando o foco. O braço esquerdo estava esticado para cima, para dar o sinal de largada.

– Agora, vai, um de cada vez, bem devagar, pra eu poder gravar bem bonito e não ter que fazer de novo!

E um a um os carros foram subindo a rampa. Os motoristas não tiravam os olhos do Jair, como se temessem levar uma bronca.

A operação toda levou uns 10 minutos. Se provocou ou não uma catástrofe no cronograma de despacho da GM, nunca soubemos. Mas na reportagem, a obstinação do Jair fez toda diferença!