OS MORDEDORES E O PATRULHEIRO FANTASMA

Encarar estradas pelo interior da Argentina e topar com a policia rodoviária deles significa  grande chance de levar uma bela mordida no bolso.

Pelo menos era assim no inverno de 2002, quando partimos para um Globo Repórter nos Andes. O trajeto começava em Uruguaiana, atravessava a Argentina  e avançava pelo Deserto de Atacama, no norte do Chile.

Quando nos livramos da demorada burocracia na Gendarmeria (polícia de fronteira) em Paso de Los Libres, nossa porta de entrada na Argentina, comentei com meus colegas:

– Já vamos separando uns trocos que mais adiante vai ter achaque.

Paciência para aturar os trâmites de aduana

A equipe era composta por mim na reportagem, o repórter cinematográfico Eduardo Mendes, o motorista e auxiliar técnico Felipe Silveira e o diretor/produtor Saulo De La Rue.

Antes de partir de Porto Alegre, tínhamos tomado uma série de precauções para evitar problemas com a “Caminera”, a polícia rodoviária dos hermanos.

Reunimos toda papelada que poderiam nos pedir, começando pela documentação completa da camionete S.10, incluindo uma autorização para trafegar na Argentina. Revisamos todos os itens de segurança do carro, e inclusive compramos mais um triângulo de sinalização, pois a legislação de trânsito argentina exigia que todo veículo tivesse dois. Tínhamos também documentos com a relação de equipamentos, tudo carimbado pela aduana deles.

Logo no começo da jornada, já em solo argentino, um camioneiro brasileiro nos fez um alerta preocupante:

– Se preparem! Os salários da Caminera aqui na província de Corrientes estão atrasados há meses. Eles tão mordendo como nunca!

Sem dúvida não era um bom sinal.

Pelas estradas do norte argentino

Fomos em frente. Ao anoitecer, um policial nos fez parar num posto de controle à beira da estrada.

Eram dois guardas. Um ficou mexendo em papeladas dentro da casinha que servia de posto policial, observando a abordagem do colega com o canto do olho pela janela. O outro veio nos averiguar.

Chegou com uma cara de cínica gentileza e aquele sorrisinho de dentes cerrados que emoldurava a própria imagem da safadeza velada.

– Boa noite. Para onde vão?

Desembarquei  e expliquei que éramos uma equipe de TV brasileira, fazendo reportagem sobre os caminhos que levam aos Andes, etc, etc. Meus colegas permaneceram na camionete.

– Hummmm…Que bom pra vocês, heim?

E passou a pedir documentos. Começou pelas identidades de cada um, e depois foi pedindo outro e mais outro. Cada vez que verificava que estava tudo certo, fazia cara de desconfiado, armava uma carranca e pedia outro. Já começávamos a sentir certo prazer em entregar a papelada e ver que ele não conseguia esconder a decepção por não encontrar nada que nos comprometesse.

Devolveu os documentos mas não se deu por vencido. Fechou ainda mais a cara e passou a olhar para a S-10 de cima a baixo, tentando encontrar algo errado. Pediu bruscamente que  abríssemos a caçamba, lotada de equipamentos e bagagens. Olhou para o compartimento abarrotado de caixas e malas e ficou nos olhando para fazer pensar que iria conferir cada peça.

Falei que tudo alí estava na relação que havíamos mostrado e que já tinha sido verificada pela aduana.

Ele não gostou da minha “ousadia”. Me olhou como quem anuncia “Ah é? Então agora vou te ferrar!” . Com um tom meio triunfal pediu para ver os dois triângulos, na certeza de que brasileiros nunca tomam esta precaução ao vir para a terra dele.

“ Aqui estão”, mostrei para ele, me exibindo cheio de razão.

Dava pra perceber claramente o esforço que ele fazia para esconder a frustração sem perder a pose. E voltou ao ataque.

– E o cambão? Cadê o cambão??

O tom da inusitada imposição era sinal claro que ele perdera a paciência e agora usava qualquer pretexto para conseguir dar sua mordida. Afinal quem leva pra viagem um cambão, aquela barra de ferro que se usa para rebocar outro veículo?

Sem alterar a voz, eu disse que aquilo não fazia parte da lista de exigências que nos havia sido fornecida pelas autoridades argentinas.

Subindo os Andes, com muito gelo e frio abaixo de zero

O guarda invocado nem me respondeu. Deu meia volta e voltou resmungando baixinho para a casinha, de onde o outro observava tudo agora com mais atenção. Os dois ficaram conversando e nos olhando. Era evidente que estavam tentando armar outra estratégia para nos pegar.

REAGINDO COM NOSSA MELHOR ARMA

Decidimos que era hora de contra-atacar. Mendes botou a câmera no ombro, apontou para os guardas e acionou a luminária acoplada. Na escuridão da noite aquilo teve um efeito pra lá de impactante. Peguei o microfone de mão sem conectar o cabo e fomos na direção da casinha onde o inimigo tramava contra nós.

Os dois , de olhos arregalados, pareciam estar vendo uma carga de cavalaria avançar feroz contra suas frágeis defesas. E deu certo. Ainda tentando manter a empáfia, capitularam.

– Nada de imagens! Desliga a câmera, agora! E vão embora, já!

Retomamos a estrada, certos de que ganhamos uma batalha mas não a guerra. Ainda tínhamos alguns milhares de quilômetros pela frente.

Passamos por outras duas barreiras pouco mais adiante, mas curiosamente os guardas apenas mandaram reduzir a velocidade, deram uma olhada a distância e mandaram seguir em frente. Ficamos com a impressão que talvez tivessem sido avisados por rádio pelos dois que deixamos para trás.

Nossa última complicação na Argentina foi na fronteira com o Chile, no alto da cordilheira, a mais de dois mil metros de altitude. Penamos umas 3 horas na aduana, mas acabamos liberados , sem mordida.

Mas a alegria durou pouco.

Ao chegar em Los Andes, primeira cidade chilena após a fronteira, as autoridades alfandegárias nos informam que o despacho legal dos nossos equipamentos só poderia ser feito por um agente local.

Tivemos que contratar um despachante chileno para liberar todo nosso equipamento, que havia sido levado para um depósito federal. E só conseguimos deixar a cidade dois dias depois, pagando o equivalente a R$ 1,5 mil pelos serviços.

O PATRULHEIRO FANTASMA DO DESERTO

Gravando por do sol no Atacama

Seguindo pela rodovia Panamericana, que corta o país de sul a norte, estávamos cruzando o imenso Deserto de Atacama rumo ao mítico povoado de San Pedro de Atacama.

Num trecho absolutamente desértico, uma ferrovia cruzava pela estrada. Havia naquele ponto  umas três ou quatro casinhas de madeira esparsas sem nenhum sinal de que eram habitadas.

Ninguém na pista além de nós. Nada de trem. Nada quilômetros á frente ou atrás. Nenhuma viva alma ao alcance dos olhos naquela imensidão amarela e ensolarada.

Reduzimos a velocidade e passamos bem devagar sobre os trilhos que se fundiam transversalmente ao asfalto.

Mal havíamos passado o trecho, ouvimos uma sirene. Felipe olha pelo retrovisor com cara de assombro.

Como que emergindo dum portal de outra dimensão, surge um Ford Falcon da policia chilena com os flashes ligados.

“Mas de onde surgiu este infeliz aqui no meio do nada??”, exclamava Felipe, incrédulo, olhando pelo espelho externo.

Paramos. A viatura estacionou atrás. Dentro da S-10, todos pensamos:

– Agora sim, lá vem o patrulheiro fantasma para dar a mordida da caminera chilena! O que vão inventar agora?

O patrulheiro, com uma casmurra cara de índio andino de pele escura e olhos rasgados,  veio caminhando devagar na nossa direção. Vestia um uniforme tão imponente e alinhado que se não fosse pela cor marrom seria igual àqueles oficiais da SS nazista com suas elegantes e macabras fardas negras.

Sem nenhuma saudação, perguntou seco:

– O que está escrito na placa junto aos trilhos lá atrás?

– Pois é, seu guarda, a gente viu, mas não tinha nada nem ninguém por perto, e passamos, bem devagar.

– A placa diz Pare! E pare… é pare!

Era um diálogo meio insólito. Nem sabíamos o que argumentar. Parar pra que, se éramos os únicos seres vivos naquele lugar -isto é, até o portal do além se abrir e a sirene do nazistão berrar atrás de nós.

– Desta vez passa. Mas não esqueçam: Pare é pare! Mesmo aqui no deserto!

– Tá bom seu guarda, obrigado pela dica.

Seguimos viagem, olhando para o deserto e tomando cuidado com as regras de trânsito, pois vai que duma hora pra outra surge outra figura daquelas emergindo de dentro de uma duna!

Vai saber…