O VÔO DA OLIVETTI

É delicado contar histórias de colegas que se estranham e partem para as vias de fato.

Mas tem uns causos vale a pena serem resgatados, não pelos motivos da briga, e sim pelas cenas inusitadas que surgem da peleia, e pelo folclore que se estabelece à medida em que a história vai sendo contada e recontada ano após ano.

Esse é um desses causos.

Os envolvidos são dois conhecidos jornalistas de trajetória admirável, que seguem em plena atividade. Por isso, nada de nomes.

Redação da RBSTV, anos 80. Era a redação antiga, que ficava no terceiro andar da emissora, no Morro Santa Tereza, em Porto Alegre. Jornalismo geral e Esporte dividiam o mesmo espaço, separados apenas pelas mesas e por um estreito corredor de divisórias envidraçadas que funcionava como acesso ao ambiente.

O entrevero rolou bem no horário de fechamento.

Concentradíssimo, um consagrado apresentador famoso pelo pavio curto redigia as laudas de papel que iria levar para o estúdio.

A redação ainda não estava informatizada. Nas mesas atulhadas de papel reinavam as pesadas Olivettis, que matraqueavam como metralhadoras, em rajadas longas ou espaçadas conforme a habilidade do redator ao teclado.

Também ecoavam sonoros  “plins” quando o rolo com o papel na máquina chegava ao fim do trilho, obrigando o redator a trocar de linha acionando a alavanca lateral cromada. Gesto que muitos faziam abruptamente como quem dá um tapa.

Eis que no meio da turbulência do deadline um repórter, conhecido por sua habilidade em tirar colegas do sério, engatou uma calorosa discussão com o apresentador que tentava fechar seu texto.

Este não demorou a atingir o ponto de ebulição. Sem hesitar saltou da cadeira, ergueu a Olivetti com os dois braços e arremessou contra o repórter, que conseguiu se esquivar.

Os vinte quilos de ferro da máquina de escrever voaram sobre as mesas, se espatifando estrondosamente no chão.

O apresentador bufava, enquanto o repórter, de olhos arregalados, recuava e saía de fininho.

Houve um breve cessar fogo na metralha das outras Olivettis, enquanto todos olhavam incrédulos a cena.

Mas logo a urgência do deadline fez os demais retomarem suas tarefas.

Nunca mais se soube de querelas entre os dois esquentados.

Ou pelo menos não na redação, com Olivettis zunindo sobre as cabeças.

Bem, este foi o causo como vem sendo contado todos esses anos pelas redações. E como todo bom causo, há variações em suas versões.

Abaixo, o relato real de um dos protagonistas, o apresentador. Creio que ele não se incomodaria em ver seu nome aqui revelado, pois, após ler a publicação do site, elegantemente fez questão de esclarecer como as coisas aconteceram. Mesmo assim vou preservá-lo, tanto como o outro colega envolvido.

“Ricardo, como toda história contada, o teu relato também está com um pouco de drama. Não houve o arremesso da máquina. Na realidade, a pequena mesa de apoio (que tinha rodas) onde estava a dita Olivetti é que foi empurrada para frente, para que eu pudesse me levantar da cadeira. Só que no calor da discussão esse empurrão na mesa foi mais forte que o devido e a máquina de escrever caiu no chão e na minha direção, junto aos meus pés. Sequer passou perto do (…), muito menos, foi arremessada na direção dele. Essa é a versão correta do fato. O resto ficou por conta do romance das redações de jornalismo. Abraço.”