O VITORIOSO RIO GRANDE QUE DÁ CERTO

Muito antes da expressão “pauta positiva” virar uma das modinhas de hoje na mídia, esta forma de trabalhar os conteúdos já havia sido explorada com grande sucesso na Band.

Quem vislumbrou o potencial deste tipo de abordagem foi o diretor geral do grupo no RS, jornalista Bira Valdez. Foi dele a idéia de criar um programa regional de reportagens especiais focado nas iniciativas de sucesso dos mais variados setores da sociedade: da indústria ao trabalho comunitário, tecnologia, cultura, pesquisa científica, agronegócio e setor público, entre outros.

Bira Valdez

O objetivo era produzir um programa de profundidade, com reportagens de alto padrão, fugindo dos tradicionais modelos release ou “chapa branca”.

Eu tinha me desligado da RBSTV poucos meses antes, e fui convidado pelo Bira para ser o responsável para dar vida ao projeto, que previa uma equipe enxuta mas dedicada exclusivamente à produção das reportagens semanais de 22 minutos.

E então em julho 2003 nasceu o programa  “O Rio grande que dá certo”, nome também idealizado pelo Bira, que tinha um carinho especial pela sua criação.

A equipe era composta por mim na coordenação e reportagem, o conceituado repórter cinematográfico Milton Cougo,  o também veterano editor de imagens Bira Melo e a produtora Luciana Mismas.

Era o sonho de todo jornalista de TV focado em reportagens especiais. Tínhamos liberdade total para definir as pautas e organizar a logística da produção, que envolvia viagens por todo o estado. Havia limites orçamentários, mas raramente inviabilizavam a realização das pautas. No máximo encurtavam a duração da viagem.

O programa de estréia foi sobre a produção vinícola no Vale dos Vinhedos, que rendeu o primeiro dos 15 prêmios de jornalismo conquistados pelo programa em pouco mais de três anos. A maioria de âmbito nacional, concorrendo com toda a mídia do país.

Estreia no Vale dos Vinhedos, com Milton Cougo

Estas conquistas não foram à toa. O programa seguia um padrão com esmero tanto no conteúdo e roteiro como na produção de imagens e na finalização.

Entre outras premiações, o programa venceu 3 vezes o Prêmio Embrapa (concorrendo com o Globo Rural, programa tradicional de altíssimo nível) e os prêmios Massey Fergusson, Setcergs, Abimaq, ABS, Abecip, Brigada Militar,Direitos Humanos e Emater. E minha atuação  ainda rendeu o Prêmio Press 2006 de Repórter do Ano.

Em pouco tempo, o “Rio Grande que dá certo” mostrou que era possível levar ao ar com alta qualidade um programa regional de reportagens especiais que não dependesse de factuais nem orçamentos astronômicos.

A fórmula era simples: uma equipe capacitada  integralmente dedicada ao projeto, com intensa produção de pautas consistentes, viabilizadas com objetividade, profissionalismo e pé no chão sem perder a ousadia.

Alguns meses depois da estréia, o cinegrafista Milton Cougo deixou o programa para investir em um projeto pessoal. Em seu lugar assumiu Jair Alberto da Silva, outro profissional com larga experiência em telejornalismo.

Com Jair Alberto

A produtora/editora Luciana Mismas também saiu para reforçar a equipe do telejornal Band Cidade.  Reorganizamos o processo e assumi integralmente a produção do programa.  E logo eu era responsável pela pauta, produção, roteiro, edição e claro, a reportagem de campo.

Bira Valdez faleceu cerca de um ano depois, vítima de um mal súbito. Como ele era o apresentador do programa, assumi também esta função.

O dinamismo e envolvimento da equipe impediam que houvesse sobrecarga. A interação entre eu, o repórter cinematográfico Jair Alberto e o editor Bira Melo era tamanha que a coisa fluía sem maiores desgastes. E era um prazer enorme conduzir um programa assim.

Com a morte de Bira, o então chefe de jornalismo Leonardo Meneghetti assumiu a direção geral da emissora, mantendo o apoio ao programa, que a essa altura já havia alcançado grande conceito.

No canal de Rio Grande

Em 2006, Meneghetti  reorganizou a estrutura de jornalismo, separando rádio e TV em duas gerências. Fui convidado a assumir o telejornalismo, o que me obrigou a deixar o “ Rio Grande…”.

Passei o bastão para outro repórter da casa, Luis Gustavo Bordim, que assumiu o projeto de corpo e alma, tendo inclusive produzido um programa na Antártica.

Jair Alberto deixou a emissora e as imagens ficaram então a cargo do novato Henrique Barcellos, que em pouco tempo se tornou um grande profissional com a experiência adquirida nas reportagens especiais com Bordim, com quem foi  ao Pólo Sul.

Seis meses depois  houve nova mexida na estrutura do jornalismo da emissora e acabei demitido.

Bordim, Henrique, Bira Melo e Azeredo

As questões administrativo-financeiras da empresa já vinham ameaçando a viabilização do “Rio Grande..” impondo cada vez mais restrições à realização das reportagens.  As viagens foram sendo cortadas e as pautas passaram a se concentrar na capital.

Pouco tempo depois o programa foi cancelado, encerrando de forma melancólica uma trajetória como há muito tempo não se via no telejornalismo gaúcho.

Desde então nenhuma emissora gaúcha (com exceção da TVE, que há muitos anos mantém o TVE Repórter) teve disposição para investir em programas de reportagens especiais.

Bordim na Antártica

O “Rio grande que dá certo” foi o último de uma espécie praticamente extinta nas emissoras privadas do RS.

Não há nenhum sinal de que este tipo de produção volte a ter espaço na programação local. A presença cada vez maior de programas de rede nacional na grade e a falta de interesse dos gestores de comunicação gaúchos em produções locais de fôlego baniram das telas o tipo de programa mais adequado para o telejornalismo em qualidade e profundidade.