O REPÓRTER ALADO E SEU MACACÃO PINK

Um macacão em tecido brilhoso azul bebê, preto e rosa choque. Completando o conjunto, um gritante paraquedas totalmente pink elétrico.

“ Um  a-rra-soo!!”, diria a impagável Rogéria.

Enfiado neste modelito drag queen alada, um repórter em seu primeiro salto. Salto de paraquedas, convém esclarecer.

Era uma reportagem para o Fantástico sobre pessoas comuns em busca de emoções fortes, que faziam cursos relâmpago de paraquedismo e saltavam sozinhas.

A ideia era registrar a sensação daquela aventura, saltando com a turma.

Depois de uma tarde de instrução teórica em porto Alegre, partimos no dia seguinte para Campo Bom, na região metropolitana. Receberíamos as últimas orientações antes do salto na pista do aeroclube onde a escola Adrenalimits tinha sua base.

Chamei dois grandes parceiros para fazer a matéria: os repórteres cinematográficos José Henrique Castro e Enio “Maguila“ Rosa. Um decolaria comigo e outro faria as imagens a partir do solo, utilizando uma câmera com lente de duplo estágio, para maior alcance. Completando a equipe, o motorista Vando Jardim, o Bagé, que assumiu também as fotos do nosso making off.

Enio Maguila e José Henrique

Olhando para minhas roupas convencionais de repórter, o instrutor resolveu dar um trato no meu visual.

– Peraí que vou te arrumar uma roupa de paraquedista de verdade!

Quando saí do vestiário todo paramentado, minha equipe desabou em gargalhadas. Não esperavam me ver naquele modelito extravagante. O instrutor explicou que as roupas tinham cores vibrantes exatamente para facilitar a visualização.

A diversão deles não parou aí. Para treinar o toque ao solo na hora do pouso, eu e os outros paraquedistas calouros tivemos que ensaiar um movimento que, aos olhos de quem não entendia nada daquilo parecia simplesmente ridículo.

Com os pés juntos, cotovelos dobrados junto ao corpo e mãos ao peito, eu tinha que dar um pulinho para a frente, como criança brincando de coelhinho, e cair de lado rolando o corpo. Era patético…

Tive que repetir várias vezes a cena, pois a equipe não conseguia parar de rir do meu gracioso bailado sobre a lona esticada na pista.

Na hora de treinar a saída do avião, ainda em terra, um contratempo. Exagerei na impulsão para trás e machuquei a cabeça ao raspar nas ranhuras da asa. Ganhei um corte profundo na minha já proeminente calvície,  e um curativo elaborado com humor pelos instrutores: cobriram a gaze sobre a ferida com um X de esparadrapo branco imitando a marcação do ponto de aterrissagem na pista.

Não escapei da piada pronta dos carecas:

– Agora sim, é o próprio aeroporto de mosquito!

curativo piada

DEU PANE NA ESTREIA!

Hora de saltar. Enfiado no meu esfuziante traje multicolorido, levava pendurado nas costas o conjunto com paraquedas principal e reserva. Caso a “cordinha” não funcionasse ou por algum outro motivo o paraquedas principal não abrisse, havia um sensor numa das alças que media a pressão do ar. Se eu entrasse em queda livre sem controle, o mecanismo acionava automaticamente o equipamento reserva. E se mesmo assim este pifasse, eu ainda poderia puxar uma alça de emergência para o reserva.  

O pequeno Cessna Skylane só tinha assento para o piloto. Eu, o cinegrafista José Henrique, o instrutor e outro novato decolamos amontoados no chão. Zé Henrique foi atado à cabine com um conjunto militar de tiras de lona, para que pudesse se movimentar em segurança na hora de gravar meu salto do aviãozinho sem porta.

Subimos em espiral até atingir 3.000 pés, algo como 1,5 km de altitude. Gravei uma fala quase inaudível socado no fundo da minúscula e barulhenta cabine. Ao sinal do instrutor, me posicionei no lado de fora do avião, pisando com os dois pés num estribo lateral sobre o trem de pouso e agarrando com as mãos a haste perpendicular que sustentava a asa. Recebi o “Vai!” e me lancei no vazio.

A fita de nýlon que me ligava ao avião acionou o paraquedas. Com o gritante velame rosa choque totalmente aberto, tratei de fazer o check para conferir se tudo estava ok.

Não estava. Deu merda.

Meu batismo de salto veio com um twist, que é quando as cordas do velame se enroscam no ponto onde convergem para os batoques, as alças com as quais o paraquedista “pilota” o equipamento, controlando a velocidade e a direção do vôo.

Sem desatar este nó, não há como conduzir o paraquedas.  A pessoa fica completamente à mercê do vento e dos obstáculos que surgirem à frente, como linhas de alta tensão, prédios, torres, árvores, etc.  Situação ainda mais grave quando o salto é em baixa altitude, ou seja, o chão está logo ali e não há muito tempo para resolver o problema.

Ainda bem que, além do pulinho que fez a alegria da minha equipe em terra, também aprendi no cursinho instantâneo que o único jeito de desfazer um twist é ficar “pedalando” no ar para girar o corpo e provocar uma torção no sentido contrário do enrosco. Foram alguns segundos bastante tensos naquele bailado esquisito nas alturas até que senti as cordas voltando ao seu lugar.

Mesmo assim tive tempo no meio daquele aperto para lembrar do Cau Hafner, baterista da banda gaúcha Cidadão Quem.  Paraquedista experiente, ele morreu alguns meses antes, naquela mesma região, numa queda por causa de um problema na abertura do paraquedas.

Afastado o perigo,  com céu limpo e apenas uma leve brisa, passei a conduzir tranquilamente meu vistoso paraquedas, a uns mil metros do chão, vivendo a sensação única de voar como um pássaro, contemplando  a paisagem como poucas pessoas podem experimentar, planando suavemente em direção ao longinquo X branco marcado na pista de grama do aeroclube. Aquela inesquecível combinação de paz absoluta e adrenalina nas alturas foi uma bela recompensa pelo susto de poucos minutos antes.

Eu recebia instruções de terra por um radinho dentro do capacete. Mas na hora de alinhar para o pouso, me deixei levar pela emoção e não prestei atenção aos comandos do instrutor para frear o paraquedas.

Deveria puxar os batoques para tocar o solo com suavidade, mas acabei fazendo um pouso desastrado, descendo rápido demais, lavrando a pista com a bunda e acabando com os fundilhos do meu lindo macacão pink.

Pouco depois saltei novamente, com o mesmo modelito, só que agora todo rasgado no traseiro, exibindo minha cueca por entre os farrapos esvoaçantes de tecido brilhoso. Desta vez não teve twist e meu pouso foi perfeito. Toquei a pista suavemente, amortecendo a chegada com algumas passadas na grama macia.

Aquele macacão provavelmente teve sua última aventura, no corpo um estabanado repórter paraquedista estreante. Mas foi um gran finale!