O PRODUTOR E O MICO DO REPÓRTER

Em telejornalismo, um dos profissionais mais importantes é o produtor. O cara que faz o trabalho inicial de levantamento das informações, avalia os principais aspectos envolvidos na pauta e ajuda a determinar se a cobertura é viável ou não. Definida a abordagem, a pesquisa, os contatos e a logística que o produtor organiza são fundamentais para o sucesso da reportagem.

Mas o papel dele vai muito além disso. No Brasil, por muitos anos, a função do produtor ficou injusta e estupidamente relegada a um papel de bastidores, um sujeito fincado na redação cujo principal instrumento de trabalho era o telefone e tinha como única missão abrir caminhos para a equipe de reportagem na rua.

De uns 20 anos pra cá isso começou a mudar. As redações das grandes redes no centro do pais, espelhando-se no eficiente modelo americano (retratado no cinema em O Informante, com Al Pacino, e Ao Vivo de Bagdad, com Michael Keaton, entre outros exemplos) já vinham dando asas aos produtores, que passaram a atuar também nas ruas, como produtores repórteres, com ou sem equipe de gravação.

Grandes nomes desbravaram esta área. como Geneton Moraes Neto, Tim Lopes, e Eduardo Faustini, todos da Globo. Profissionais que não apareciam no vídeo (salvo Geneton, que às vezes surgia de relance entrevistando) mas construíam toda a reportagem, da pesquisa à execução.

Esta mudança cultural/profissional demorou a ser incorporada pelas emissoras regionais, aferradas aos modelos tradicionais. No Rio grande do Sul, só começou a ganhar corpo no final dos anos 90, com as primeiras investigações do repórter Giovani Grizotti e mais tarde com Fábio Almeida, ambos da RBS, afiliada da Globo.

Os dois seguem em plena atividade trazendo escândalos à luz do dia, com seu trabalho por trás das câmeras. Só aparecem em áudio, fazendo perguntas e gravando offs. A discrição em relação à exposição da imagem pessoal é uma questão de segurança.

Mas antes disso e por muito tempo os produtores foram vistos como profissionais de segunda classe nas redações. Como se fossem sub-jornalistas classificados mais como administrativos a serviço da reportagem do que geradores de conteúdo. Um preconceito similar ao que sofriam os radio-escuta.

Isso era tão forte no ambiente das redações que na primeira vem em que me deparei com um verdadeiro produtor de campo paguei o maior mico.

Eu era repórter do Núcleo Globo da RBSTV e tinha sido enviado a Buenos Aires com o repórter cinematográfico Jair Alberto para cobrir os preparativos da tumultuada eleição presidencial de 1999.

Ricardo Azeredo e Jair Alberto em Buenos Aires

A Globo nos orientou a procurar na capital argentina um jornalista brasileiro radicado lá há algum tempo e que atuava como produtor freelancer.

Além de ajudar nos contatos com os entrevistados, o carioca Márcio Rezende contratava empresas locais para a edição de vídeo e depois levava o material finalizado para as geradoras de satélite.

Tudo ia muito bem até a primeira entrevista, com um líder empresarial argentino. Comecei a perguntar e o Márcio passou a fazer o mesmo. Eram dois repórteres em ação. Aquilo me deixou muito incomodado. Eu via naquela atitude dele uma inadmissível intromissão no meu trabalho.

Depois da gravação, chamei o produtor para uma conversa reservada e passei uma bronca,  reclamando que ele não tinha que se meter na entrevista, pois aquela era minha função.

Ele ficou bastante constrangido e com ponderação tentou explicar que estava apenas ajudando na apuração das informações.

Só mais tarde, já no avião voltando ao Brasil que me dei conta do papel ridículo que passei. O produtor estava cumprindo muito bem o seu papel auxiliando na entrevista. O babaca era eu, o repórter cheio de pose que não entendia a importância da função daquele colega e que acabou criando um conflito na equipe por não estar acostumado com aquela postura profissional.

Hoje felizmente o modelo está bastante assimilado e valorizado na imprensa brasileira. E os produtores que vão a campo, com equipe ou se arriscando com câmeras discretas realizam coberturas tão impactantes quanto os repórteres mais celebrizados. E são tão importantes para o bom jornalismo quanto as estrelas do noticiário.