O PREÇO SALGADO DA DESINFORMAÇÃO

Algumas mancadas que a gente comete no ofício de jornalista ficam como lições eternas, que grudam na memoria para nos lembrar o preço que pagamos nessas ocasiões.

Eu poderia considerar como atenuante para a minha maior burrada o fato de que era um foca, com poucos meses de profissão. Mas a indulgência só nos deixa menos cuidadosos e portanto mais propensos a repetir erros.

Nunca esqueci aquele dia. Ainda hoje, mais de trinta anos depois, quando me vejo diante de pautas que exigem um olhar mais aprofundado, soa estridente na lembrança uma campainha de luz vermelha piscando e um alto falante berrando: ATENÇÃO, ALERTA DE CAGADA!!

Quem dera eu tivesse este sistema ativo naqueles dias..

Eu era repórter na TV Guaíba, em 1985. Meu primeiro emprego formal como jornalista, conquistado dez dias depois da formatura na FAMECOS.

Com aquele deslumbramento típico dos focas, eu saia embevecido com a equipe pela cidade. Nem dava muita atenção (até porque eu não tinha uma percepção clara disso) para o fato de que a emissora estava ruindo, junto com o império Caldas Júnior, que vivia seus momentos derradeiros.

As empresas remanescentes do grupo de comunicação liderado por Breno Caldas, os jornais Correio do Povo e as emissoras Rádio Guaíba e TV Guaíba viviam uma penúria impensável nos tempos de ouro do grupo que fez parte da história do Rio Grande do Sul.

A decadência era resultado de problemas administrativos numa empresa de gestão familiar concentrada e também dos impactos da crise econômica naqueles tempos de hiperinflação e descontrole cambial.

Recebi a missão de entrevistar Péricles Druck, diretor-presidente e fundador do Grupo Habitasul, uma das instituições financeiras mais tradicionais do estado, que entre outras operações, tinha uma vasta carteira habitacional e que no auge chegou a ter mais de 1,6 milhão de correntistas na carteira de poupança.

A pauta era totalmente positiva – ou melhor, era uma exaltação sobre os planos do grupo, suas ousadas metas de crescimento e estratégias para conquistar mais mercados.

Fui orientado a procurar um diretor de marketing do grupo. Ele me daria mais informações e ajudaria na condução da entrevista. Fiquei envaidecido com aura de missão especial que pairava sobre aquela tarefa.

Eu ainda não sabia, mas era uma das típicas matérias 500, aquelas que envolvem interesses econômicos e/ou políticos da empresa de comunicação.

Enquanto eu aguardava com a equipe a chegada do entrevistado na elegante sala da direção da Habitasul, o diretor de marketing, muito simpático, elogiava o meu trabalho e tecia considerações grandiosas sobre o futuro da instituição, dando a entender que a entrevista seria um momento de revelação de importantes realizações que viriam.

Parecia que eu havia sido ungido para ser o portador daquelas alvissareiras novidades para a sociedade gaúcha.

AS MANCHETES REVELAM A DURA REALIDADE 

Começa a entrevista. Ingenuamente convencido de que eu tinha uma grande matéria em minhas mãos, fiz várias perguntas levantando a bola para o entrevistado, sem questionar nada além dos planos mirabolantes que ele descrevia com entusiasmo.

Péricles Druck, sempre atencioso e gentil, traçava perspectivas de glórias cada vez maiores para a instituição. Mesmo ele citando vez por outra as agruras do mercado, eu não valorizava as deixas que poderiam levar a perguntas mais críticas.

A entrevista foi ao ar naquela noite e ganhou um generoso e bastante incomum espaço de tempo na programação.

No outro dia, a realidade desabou sobre a minha cabeça como um cofre jogado do vigésimo andar.

As manchetes por todo o país estampavam a intervenção do Banco Central no Sulbrasileiro, outra instituição financeira gaúcha outrora pujante mas que vinha cambaleando na esteira de uma série de irregularidades.

A derrocada do Sulbrasileiro atingiu em cheio o Grupo Habitasul, que quebrou estrepitosamente, junto com outra tradicional instituição do setor, o Banco Maisonnave.

Foi um terremoto sem precedentes no sistema financeiro gaúcho.

Nada disso acontece da noite para o dia. Bastava estar minimamente informado sobre os rumos da economia regional para perceber que tudo aquilo era bastante previsível.

Finalmente abri os olhos e percebi que tinha sido usado como um boboca, graças à minha total desinformação e falta de senso crítico nos meus primeiros tempos como jornalista.

Naquele dia, ao cobrir as manifestações em frente às agências fechadas, eu me sentia um perfeito imbecil diante dos colegas e do público.

E percebia, com uma crueza que até então não havia sentido, o peso da responsabilidade no ofício que eu havia escolhido.

Aquele foi o meu verdadeiro batismo como jornalista.