O PIOR MATE DO MUNDO

Sempre que viajo em reportagens, carrego meu kit chimarrão. Encarar estrada sem mate é um suplício para quem, como eu, é dependente da ylex paraguaiensis.

Mas tem vezes que a missão surge tão rápido que mal dá tempo de pegar a pauta e a escova de dentes.

No final dos anos 90, o navio de carga brasileiro Rio Jaguaribe II foi impedido de deixar a Argentina porque os donos deviam taxas portuárias. Os cerca de 20 tripulantes ficaram esperando por uma solução, enquanto os suprimentos iam acabando. Já estavam sem energia e racionando comida e água. O caso virou uma questão diplomática.

A Globo acionou a RBSTV para mandar alguém cobrir o caso. Fui escalado, mas sem equipe. No aeroporto Ezeiza encontrei uma equipe argentina contratada para a matéria.

Com o cinegrafista Jorge Casales e seu auxiliar, outro Jorge, fomos de carro até San Nicolas, onde estava o navio, a uns 300km de Buenos Aires. Quase ao anoitecer, embarcamos numa lancha que nos levaria ao Rio Jaguaribe II.

Fazia frio. Estávamos na popa da lancha, ao relento, tomando vento e respingos gelados. Traído pela ansiedade gerada pela abstinência, acabei parafraseando o Rei Ricardo III em voz alta:

– Meu reino por um mate!

De dentro da pequena cabine, o piloto da lancha na mesma hora bradou triunfante:

– Acá está, compañero! El mejor mate del mundo!

Passou o leme para um ajudante e sentou entre nós com a garrafa térmica, sorridente e orgulhoso por ser o dono do mate salvador.

A ALEGRIA DUROU POUCO

Minha alegria virou estranheza quando vi que ele não servia a água fumegante numa cuia, mas numa pequena caneca esmaltada verde, pouco maior que uma xícara de cafezinho. A bomba parecia um canudinho.

Observei o primeiro a tomar, um representante da empresa fretadora. Deu duas ou três sugadas e devolveu a canequinha. Antes de servir para o próximo, o piloto da lancha meteu duas colheres de açúcar no minúsculo recipiente do mate. Senti que aquele não seria o meu tão desejado amargo…

Outros dois beberam antes de mim. E a cada vez que servia o sujeito entupia a canequinha de açúcar. Comecei a ficar com medo da minha vez. Não teria como recusar, depois da manifestação inicial e da pronta resposta do dono do mate.

Os Jorges em ação

Quando me passou a canequinha, fiz a expressão mais gentil que minha contrariedade permitia e dei a primeira sugada.  O piloto me observava com expectativa, como que esperando um elogio ao mate que ele tão generosamente havia preparado.

O líquido quente, repugnantemente adocicado e melequento desceu pela garganta com muito sacrifício. Foi um esforço dramático fazer cara de satisfação diante de todos.

Murmurei um falso “hummhumm” de quem se delicia, mas por dento eu gritava “bleeeeeeerghhhh!”.

Não sei se a interpretação foi convincente, mas fui o melhor ator que pude ser naquele momento. E ainda restavam umas três bombadinhas para acabar aquela coisa horrorosamente enjoativa.

Enquanto isso, todos continuavam me olhando com animada curiosidade, como se eu fosse um estranho visitando a tribo e tinha que experimentar o cachimbo da paz.

Tentando manter a cara de agradecido, sorvi o que restava e ainda forjei um sorriso. Foi um dos maiores testes de falsidade que já enfrentei. Devolvi a canequinha, aflito para dar um jeito de não tomar a próxima.

Era preciso agir rápido. Meu estômago já estava protestando, revoltado com o que eu havia engolido e com o balanço da navegada.

Quando faltava um mateador antes da minha vez, fiz uma exagerada expressão de quem se lembra de algo urgente. E apelei para a clássica desculpa do aluno matador de aula e do funcionário malandro: ferrei com a minha pobre vovó.

Saquei o celular do bolso e fingi que estava atendendo uma chamada.

– Nossa, esqueci que tava no silencioso, ainda bem que senti a vibração!

Levantei simulando surpresa e fui para o outro lado da lancha, falando bem alto, para todos ouvirem mesmo com o barulho do motor e do vento.

– O Que? A vó não tá bem? Hospital? Que hospital? Como assim? Me explica tudo o que aconteceu!!

E fiquei um tempão ali falando “ahãns” e “putz” bem sonoros, como quem ouve extensas e preocupantes explicações sobre a amada avó levada às pressas para o hospital.

Com a tripulação do navio

De vez em quando eu me virava para o grupo e percebia olhares intrigados a me fitar, enquanto a insidiosa canequinha verde passava de mão em mão.

Quanto mais eu via a colherinha de açúcar em ação, mais eu esticava a tensa conversa ao telefone…

Fiquei tão envolvido na minha performance que nem percebi o imenso navio, agora ancorado bem ao nosso lado. Finalmente era hora de trabalhar e se livrar de vez do pior mate do mundo!

 

Sobre o Rio Jaguaribe e sua azarada tripulação, o Itamarati negociou com as autoridades argentinas e dois dias depois da matéria no JN o navio voltou para o Brasil.