O PASTOR DE CROCODILOS

Dezenas de crocodilos africanos lagarteando solenemente na beira do lago. Uns trinta, no mínimo.

Crocodilos do Nilo, monstros com cinco metros de comprimento, um ao lado do outro. A largura das barrigas esparramadas passava de um metro, juro!

Alguns ficavam com aquelas bocarras lotadas de dentões bem abertas, trocando temperatura corporal com o ambiente. Uma cena meio Jurassic Park, pois pareciam mesmo assustadores dinossauros dando um tempo antes da próxima caçada.

De repente, surge no meio deles uma figura humana. Um inusitado petisco desavisado pronto para ser engolido de uma bocada só. Caminha calmamente entre as feras anestesiadas pela preguiça sob o sol.

Não está nada aflito. Parece um pastor sonolento entre ovelhas. Ou Jesus entre os leões.

O homem, meio maltrapilho, leva numa das mãos um instrumento em forma de T que lembra um inocente rodo. Não era o cajado do pastor, mas parecia que funcionava como tal.

Ele para, leva uma mão na cintura, olha para um daqueles bichões e diz alguma coisa. Na distância em que estávamos não conseguimos ouvir, mas seja lá o que disse, o enorme crocodilo começou a se mover lentamente para o lado, como quem obedece um tanto contrariado a um ríspido “sai pra lá!”.

O homem dá mais uns passos e se detém diante de outro monstrengo daqueles atravessado em seu caminho, aboletado com a cabeçorra repousada sobre a pata, de onde se projetavam enormes unhas.

Ele gira o “rodo” e larga displicentemente sobre o ombro.  Se agacha e dá uma bronca no crocodilo.

Desta vez, pelo tom, conseguimos ouvir mas sem entender. O bichão não deu a mínima. Nem se mexeu.

O sujeito então se levanta e dá um violento cutucão com seu instrumento na pança do crocodilo. Agora o cara tá ferrado, pensei. Este sujeito quer se matar, só pode ser!

O animalão ergueu a cabeça e a virou lentamente para o homem. Se desse pra dublar o crocodilo, a fala dele seria algo como “Deu pra ti, xaropão! Agora vou te comer!”

Mas o que deu pra ouvir mesmo foi o pito que o homem passou nele:

– Não tá ouvindo?? Sai da frente!

E o monstro se arrastou lentamente para o lago, sumindo debaixo da água turva sem espalhafato.

Repetiu o gesto outras três ou quatro vezes, tirando os bichos do sossego, fazendo com que dessem uma meia dúzia de passos pachorrentos até se acomodarem novamente, sem nenhum grunhido.

Ele tira o chapéu de palha esfiapado, limpa o suor da testa e se vira para nós:

– Tá bão assim? Ou percisa mais?

ÁFRICA SELVAGEM NO RIO GRANDE

Esta cena não aconteceu durante um safari na África ou em algum rio lamacento na Índia. Testemunhamos o pastor de crocodilos em ação numa área entre as lagoas do litoral norte do Rio Grande do Sul e a Estrada do Mar, rodovia que leva aos balneários marítimos da região.

Ali funcionava o Zambezi Crocodilo Zôo, um empreendimento privado que unia criação de crocodilos africanos e turismo. Os cerca de oitenta répteis adultos trazidos da Africa viviam em lagos artificiais cercados por altos muros de onde o público podia observá-los. Também havia exibição de animais nativos, como capivaras, macacos, veados e aves.

A cena descrita no começo desta história aconteceu quando estive lá para gravar um Projeto Ecologia, programa semanal de reportagens da RBSTV voltado para assuntos de meio ambiente.

O pastor de crocodilos era o tratador. Um homem simples da região que foi recrutado para este trabalho e acabou demonstrando uma espantosa capacidade de lidar com a espécie.

A curiosa “intimidade” que ele desenvolveu – sabe-se lá como – com os crocodilos do Nilo era algo um tanto difícil de se encontrar entre as usuais habilidades da peonada gaudéria.

Ele entrou em cena para nós quando viu que o cinegrafista Edison Silva parecia desanimado com os bichos parados, sem nenhuma ação. Com a intenção de ajudar, o tratador se propôs a entrar no viveiro para sacudir a turma e garantir cenas mais movimentadas.

– Deixa comigo que eu me entendo com eles.

Falava com a naturalidade de um agricultor partindo para uma singela ordenha.

Com autorização da veterinária responsável pelo Zoo, que nos acompanhava, entrou no viveiro por um pesado portão de ferro que servia de acesso para manutenção. O que para qualquer outra pessoa pareceria uma caminhada suicida, para ele era apenas mais um passeio no seu quintal.  E foi uma ajuda valiosa para as imagens que o Edison desejava.

O Zambesi funcionou até 2003, quando fechou os portões depois de ser derrotado numa acirrada batalha judicial movida por entidades ambientalistas como a AGAPAN, que apontavam riscos para o ambiente e para a população da região caso houvesse fuga daqueles animais exóticos.

Nunca houve registro de que algum crocodilo tivesse escapado.  Mas a pressão foi forte demais para os empreendedores, que acabaram desistindo da atividade.

E o pastor de crocodilos teve que abandonar seu cajado e seu estranho rebanho, para reassumir a pacata rotina de cidadão comum em Osório.

(Tá, confesso  que pensei em  fechar o texto com uma piadinha emotiva aludindo às lágrimas de crocodilo, mas felizmente me contive.)