O MACACO TARADÃO E A IMPRENSA

Plantão de sábado, 8 da manhã. Nada interessante na pauta. Nenhum factual  que valesse o envio de uma equipe.

Na redação da TV Pampa, o chefe de reportagem se espreguiça jogando o corpo para trás reclinando a cadeira, escancarando um sonoro bocejo de engolir o mundo. Com a voz pastosa de quem luta bravamente contra o sono, fustiga o pauteiro e a estagiária rádio-escuta:

– E aí, nada acontecendo nesta cidade?

Os dois apenas balançam negativamente as cabeças escoradas nas mãos, cotovelos fincados nas mesas.

Sentado de frente pra ele, com a cara amassada e tentando me recuperar dos estragos da agitada noite anterior com os amigos no bar, vasculho os jornais em busca de algo que possa ser explorado e que não esteja velho demais.

A letargia do ambiente é sacudida pelo telefone que toca. Um belo susto na redação anestesiada. Naqueles tempos, metade dos anos 80, os aparelhos de discar soavam com barulhentas campainhas, ao contrário dos telefones digitais de hoje e seus sons eletrônicos suaves.

O pauteiro atende com disposição zero. Mas a expressão muda  aos poucos. O tom da voz vai ganhando animação:

– É mesmo? A senhora tem certeza? Aí na sua casa mesmo? Bah, que legal! Tamo mandando uma equipe praí já, já! Qual é o endereço?

Quase exultante e agora acordado, ele revela a pauta salvadora da manhã, quem sabe até do dia:

– Pessoal, uma moradora do Partenon disse que apareceu uma macaca na casa dela e que o bicho adotou uns filhotes de cachorro que estão sem a mãe, que sumiu. Ela me contou que o a macaca passa a manhã toda amamentando os filhotinhos!

Chegamos no local pouco depois. Era uma casa de dois pisos com uma varanda aberta que circundava o andar superior. A mulher estava no portão esperando ansiosa.

Na mesma hora chega uma equipe da RBS e outra da Zero Hora. Minutos depois estaciona o carro da Band. A mulher chamou todo mundo…

Ela pede que não façamos muito barulho para não assustar aquela “família”, e nos conduz até um canto da varanda onde estava a tal macaca e seus filhotes adotivos. Uma repórter observa a cena e se emociona:

– ÓÓiiinnnn, que coisa mais linda isso!

Mas tinha algo estranho alí. Me aproximei cautelosamente do bicho, enquanto os colegas das outras TVs  preparavam seus equipamentos. E logo percebi que não havia nada de ternura naquela imagem, e sim, sacanagem pura!

Olhei para o Machado, meu cinegrafista, e sussurrei:

– Olha bem no meio das pernas da macaca pra ver a teta…

Ele arregalou os olhos:

– Mas que bicho filho da puta!

Olhei para os outros colegas, especialmente para a repórter enternecida e acabei com o momento maravilhas da natureza:

– Pessoal, os bichinhos tão mamando, é verdade, mas não tem nenhuma mãe adotiva aqui não.

O macaco prego macho, vindo sabe-se lá de onde (provavelmente fugido de algum cativeiro ilegal) estava escarrapachado com as pernas abertas, usando a esfomeada ninhada para uma prazerosa sessão de sexo oral.

Deixamos que a dona da casa descobrisse por conta própria que a linda cena na casa dela não passava de uma orgia promovida por um macaco tarado fujão.

Todos gravaram e fotografaram sem destacar a safadeza do bicho.

E a promissora pauta da adoção gerada pela mãe natureza virou apenas o registro de uma inusitada aparição animal na selva de pedra.