O JORNALISMO IPHONE ASSUSTA?

A repórter, sozinha, para o deputado no corredor do Congresso, e pede uma declaração sobre a votação que vai começar dali a pouco. Rola aquele papo preliminar sobre o assunto e a jornalista  então pergunta:

– Ok deputado, pronto pra  gravar? Então vamos lá.

O parlamentar fica intrigado. Olha ao redor procurando alguma coisa.

– Ué, cadê a equipe?

A repórter sorri. Com a mão direita leva o microfone em direção ao rosto do entrevistado, e com a outra segura o celular diante dos olhos, apontando para o deputado.

– Sou eu, deputado. Atenção,1,2…

E tá feita a entrevista. Pouco depois estará no telejornal de rede nacional.

Há quem ainda se surpreenda com isso. Não falta quem vaticine que é o início do fim do telejornalismo tal como o conhecemos. Outros vociferam que é mais uma prova cabal da força do capital contra o trabalho, que é uma exploração, escravidão, etc. O assunto vai longe, principalmente no papo de bar depois do plantão.

O fato é que a tecnologia estabeleceu esta opção, que sem dúvida alguma traz enormes facilidades. Com um celular o repórter grava, edita e transmite. Nos não tão longínquos anos 80 isso seria até considerado coisa de ficção científica.

E no entanto hoje um repórter carrega uma emissora de TV no bolso. Tudo compactado num aparelhinho de pouco mais de R$ 1 mil, que se compra em qualquer lojinha.

Vai espernear contra isso? Inútil. E insensato. Estamos em 2017.

Em primeiro lugar, é preciso avaliar como esta prática está sendo aplicada e o quanto ela representa ameaça real para o que entendemos como telejornalismo de qualidade.

No âmbito das grandes redes – por enquanto – vem sendo apenas um instrumento auxiliar principalmente dos repórteres de política. O uso do celular está limitado a algumas entrevistas e uma ou outra imagem apressada de entrada e saída dos parlamentares em seus gabinetes ou veículos oficiais. É prática comum nos telejornais da GloboNews.

No ar, a imagem e o áudio são de baixa qualidade, mas vale pelo conteúdo e pela agilidade com que foi obtida e enviada para a emissora. Isso aponta uma mudança concreta nos critérios de avaliação dos padrões técnicos.

Vale lembrar que estes padrões, antes rigorosos, vem sendo atenuados ao longo dos últimos anos pela profusão de imagens de flagrantes feitas com celular, câmeras de segurança, etc.

Vivemos tempos de informação em velocidade vertiginosa e competição feroz entre as plataformas de mídia.

Agilidade agora é tudo.

Mas é preciso cautela com previsões dramáticas sobre a prática da reportagem. E avaliar tudo à luz destes novos tempos.

E o tempo não para.

Por hora, é pouco provável que o celular venha a substituir os cinegrafistas na captação das imagens que realmente sustentam uma boa matéria de TV. Mas é previsível que se estabeleça cada vez mais como uma fonte adicional de conteúdo.

Importante levar em consideração também que estes gadgets passaram a fazer parte das coberturas de veículos impressos e rádio, que complementam suas coberturas com o formato em vídeo na web.

Pode-se questionar a qualidade técnica destes conteúdos, mas não a importância de estarem disponíveis em outros formatos, a qualquer hora e em qualquer lugar onde se possa conectar.

Inexorável.

É preciso se acostumar com isso e aproveitar as vantagens. E não se deixar levar por avaliações pessimistas sobre o futuro da profissão.

A forma tradicional de fazer telejornalismo, com repórter e cinegrafista vai continuar, não por ser tradição, mas porque ainda é a melhor forma de produzir um material bem trabalhado.

Quanto aos efeitos a longo prazo das novidades de agora, temos que esperar para ver. Enquanto isso, é fundamental assimilar as novas tecnologias e linguagens.

E ficar de olho no futuro.