O IRRITANTE HÁBITO DE DESCREVER IMAGENS

Cena da reportagem em telejornal de rede nacional: repórter em primeiro plano; atrás dele, escombros fumegantes de uma casa destruída por um incêndio. Ele então se vira para o cenário e relata, em tom grave, quase nervoso: “A casa, consumida pelas chamas que já foram apagadas, ficou assim, totalmente destruída, olha o telhado desabado, as paredes quase caindo, móveis queimados, só sobrou isso aí que vocês estão vendo…”

Ah, muito importante: ele fica apontando para tudo que descreve, pois vai que o telespectador não esteja vendo direito, né?

Em outro canal, a repórter chama o cinegrafista pelo nome e pede para que ele mostre ao telespectador o que ela aponta o tempo todo. E aplica a esmiuçada narrativa:

“Alí ó, como vocês podem ver, dá pra ver os buracos de bala na lataria. Os vidros do carro de cor escura estão estilhaçados, olha o banco alí, ó, cheio de fragmentos. Você vê aí também os policiais fazendo o isolamento, esticando fitas pretas e amarelas. “

Já escrevi sobre isso há algum tempo. Mas a coisa parece tão cristalizada na cabeça dos repórteres de televisão, em pleno século XXI, que resolvi atacar novamente a questão, pra ver se pelo menos alguns deles acordam.

É impressionante a falta de criatividade – ou preguiça mesmo – de repórteres que insistem em descrever literalmente as imagens que a câmera mostra em todos os detalhes.

Vejo isso todos os dias nos telejornais – locais e de rede – e me espanta a naturalidade com que os coleguinhas se aplicam a “traduzir” o trabalho dos repórteres cinematográficos que se esmeram para registrar da melhor forma possível a imagem que falará por si.

Só há duas hipóteses para justificar esta prática irritante:

. O repórter acha que o telespectador é um imbecil incapaz de perceber o que a imagem está mostrando, por mais eloqüente que ela seja;

. O repórter é tão fraco ou preguiçoso que não consegue elaborar uma informação mínima que complemente a imagem, de maneira que a comunicação seja plena através de uma narrativa mais consistente.

E o pior é que o motivo pode ser as duas coisas.

Editores e chefes de reportagem são cúmplices nesta letargia criativa. Se o repórter é novato e ainda está se familiarizando com a linguagem de telejornalismo, é fundamental que ele seja orientado pelos mais experientes.

O problema é que até repórteres cascudos caem nesta tentação, mesmo tendo vocabulário mais denso e uma percepção mais clara do que estão cobrindo.

Porque a coisa continua assim então?

Parece que nas redações ninguém consegue se livrar daquela máxima do “é assim que se faz porque é assim que sempre se fez”.

E o telejornalismo segue ladeira abaixo.