O HORROR! DEU BRANCO NO VIVO!

O  “branco” é um fantasma danado que ronda toda entrada ao vivo, mesmo que o repórter seja um sujeito seguro, experiente e tenha o texto na ponta da língua antes do “Vai!”

É a pior coisa naquele momento:  do nada, forças do além mandam um delete na memória, e bem na hora H o texto decorado ou parte dele simplesmente some.

O caos toma de assalto a cabeça do pobre sujeito, que está ali exposto para milhões de pessoas. Não há para onde fugir – tá no ar! É preciso fazer alguma coisa no ato, não tem jeito.

O maldito “branco” geralmente vem com algo que distrai o repórter:  ruídos inesperados, alguém que passa e fala ou grita, cabeça cheia de preocupações, armadilhas do subconsciente, etc, etc.

O fato é que sempre pode acontecer. E aí é preciso agir.

Conter o desespero é absolutamente fundamental. Se o repórter deixar o nervosismo tomar conta, vai transformar uma situação brevemente constrangedora numa catástrofe pessoal ao vivo e em cores, pra todo mundo ver.

Então, o que fazer naquele momento dramático?

Em primeiríssimo lugar, respirar fundo e manter a calma, custe o que custar. A situação já se estabeleceu, o público já percebeu. Só resta encarar e consertar. Assim, o melhor a fazer é assumir a situação honestamente e tentar se organizar, ali mesmo, com a cara no ar.

Não há problema nenhum em reconhecer a falha diante da câmera, desde que o repórter demonstre que está equilibrado e tentando resolver o problema.  O público compreende isso e  admira um repórter que consegue contornar uma situação dessas ao vivo.

Uma baita ajuda: tenha sempre à mão o texto ou os dados da entrada ao vivo escritos num papel, bloquinho ou digitados no celular. Deu branco? Vai no texto sem nenhum constrangimento e resgata o ponto perdido.  Se estiver muito nervoso ainda, continue a ler, olhando o máximo possível para câmera.

INSEGURANÇA PODE PREJUDICAR A CARREIRA

Quando uma performance ruim num vivo fica muito escancarada, o repórter pode ficar marcado, sendo mantido longe destas operações por causa da imagem de insegurança que passa. Isso é muito ruim para a trajetória profissional, pois repórteres que balançam nos vivos tendem a ser descartados de coberturas importantes devido à desconfiança das chefias na sua capacidade de segurar a missão.

Conheci um repórter que teve dois brancos em vivos numa edição de telejornal em rede nacional.

No primeiro, ele perdeu o texto, não conseguiu se recompôr e ficou mudo no ar, meio catatônico. A direção do programa percebeu que ele estava perdido e cortou o vivo. Mas no último bloco o repórter foi chamado mais uma vez para dar as informações.

Ainda muito nervoso, ele se perdeu novamente. Para piorar a situação, ele, arrasado, simplesmente abandonou o posto, saindo mudo da frente da câmera, ao vivo.

Esta atitude o manteve na “geladeira” por um bom tempo. Mas ele tomou o episódio como lição, domou seus medos e hoje é um baita repórter de rede, que faz vivos perfeitos.

Muitas vezes o cinegrafista pode ser uma valiosa ajuda na hora do aperto. Ao ver que o colega se atrapalhou com o texto ele pode desviar a câmera e mostrar outra imagem relacionada ao assunto enquanto o repórter tenta se refazer.

Mas nem sempre há opções de imagem.

Como neste caso que aconteceu comigo, e que foi um dos piores momentos da minha carreira.

Eu me preparava para um vivo de volta de feriadão, numa rodovia, para o Fantástico. Era minha primeira transmissão em rede nacional.

Eu estava usando fones de ouvido grandes, daqueles com tiara; na mão direita segurava o microfone, e na outra o watchman, um pequeno receptor de TV do tamanho de uma latinha de cerveja, onde eu visualizava o que estava no ar. Presa ao meu cinto, a “caixinha”, um aparelho onde estavam conectados os cabos que vinham da unidade móvel.

Quando o apresentador me chamou, comecei a falar tranqüilo, mas em segundos meus fones foram invadidos pelo delay, que é quando a fala do repórter chega aos ouvidos com alguns  segundos de atraso e se sobrepõe ao que ele está falando.

Aquilo gerou uma confusão dos diabos na minha cabeça, e comecei a perder o controle. Eu queria desesperadamente tirar os fones, mas estava com as mãos ocupadas. Então, num gesto tresloucado, tentei arrancar os fones com a mão que segurava o microfone – como se ninguém fosse perceber!

No ar, pareceu que eu tinha tentado me dar um soco. E pior, o fone só se deslocou, ficando com um dos auriculares no meio da minha testa.

Era noite e ainda havia pouco movimento na estrada. Vendo meu pânico, o cinegrafista desviou a câmera para a escuridão da estrada e com o zoom tentou focar os faróis distantes. Era o jeito.

Aproveitei aqueles segundos para tirar o fone da cara e tentar salvar o texto.

A câmera voltou para mim, mas eu já havia perdido completamente o ritmo.  Só me restou assinar a entrada, dando a deixa para o corte.

Saí dali querendo me exiliar no topo do Everest por uns 10 anos.

Toda esta trapalhada só aconteceu porque eu, inexperiente e inseguro, não soube me controlar. Na hora em que o problema surgiu, bastaria ter feito uma pausa sutil, tirar os fones com calma e seguir falando.  Não seria nada demais e tudo ficaria bem.

Foi duro, mas aprendi a lição.