O HOLOCAUSTO CANINO

Por mais que os anos passem, a gente nunca esquece as besteiras que fazemos em início de carreira.

Eu era repórter da TV Guaíba em 1985, recém formado. A pauta era sobre as atividades da faculdade de veterinária da UFRGS em Porto Alegre.

Além do ensino, a instituição também prestava serviços á comunidade (faz até hoje) proporcionando atendimentos clínicos a animais de estimação, especialmente para quem não tinha recursos para pagar clínicas veterinárias.

Este importante trabalho também ajudava na formação dos acadêmicos, que tinham nestas tarefas a oportunidade de praticar seu futuro ofício, sob a supervisão dos professores.

Era bastante concorrido, pois sempre havia fila de gente em busca de socorro para seus cães, gatos e outros bichos. Era cobrado um valor quase simbólico para ajudar nos custos diários da instituição.

Lá pelas tantas, uma das responsáveis pelo curso que estava atendendo a imprensa resolveu mostrar, muito orgulhosa, a mais nova instalação: um pequeno crematório para os animais que morriam por doenças infecto-contagiosas, os que eventualmente não sobreviviam aos tratamentos ou que chegavam mortos, trazidos por pessoas que os encontravam atropelados ou maltratados na redondezas.

O forno, construído especificamente para aquela tarefa, era uma solução há muito aguardada para um antigo problema: o descarte dos animais mortos. Até então a faculdade tinha que recorrer à prefeitura para recolher os corpos e dar um destino. Nem sempre este atendimento era ágil, o que obrigava os funcionários a guardar os bichos mortos em geladeiras que muitas vezes lotavam.

A funcionária relatava a importância do forno crematório para as questões sanitárias das instalações, e comentou que ainda não havia sido definido um nome para sacramentar a inauguração daquele novo setor.

E eu, repórter novato ainda meio deslumbrado nos meus primeiros passos no ofício, resolvi dar uma de engraçadinho:

– Já que é um forno pra cachorro, que tal batizar de Au-Auschwitz?

A piada infame e desastrada aludia estupidamente ao tenebroso campo de concentração na Polônia onde os nazistas exterminaram milhares de judeus e outras minorias durante na 2ª.Guerra Mundial.

A mulher, até então sorridente e solícita, armou uma carranca e disparou com os olhos em fúria:

– Que absurdo isso!! Vou fazer de conta que não ouvi esta barbaridade. E tem mais: não vou mais gravar contigo!

Virou as costas e me deixou falando sozinho.

Olhei para o Lacê Cirne, meu cinegrafista, sentindo que tinha pisado feio na bola.

– Bah Lacê, acho que falei merda, né?

– Falou sim…Olha o jeito que a mulher ficou!

Ela atendeu a todos os outros colegas, me evitando ostensivamente. Fui o último a entrevistá-la. Pedi desculpas pela minha idiotice, mas a boa vontade dela já tinha ido para o beleléu e o clima da entrevista foi péssimo.

Ainda bem que outros colegas ao redor não ouviram a minha colossal bobagem de foca deslumbrado.