O ESTÁDIO OLÍMPICO E OS TÚMULOS NOBRES

O repouso eterno é mais caro conforme a vista. É isso mesmo, a vista. O panorama, o cenário diante dos olhos. E não é o Céu.

Final dos anos 90. A pauta era a boa e velha matéria do feriado de Finados, com a inevitável roteiro funéreo pelos cemitérios da cidade.

O de sempre: a saudade dos que se foram, o movimento nas bancas de flores, a vida dos que vivem da morte, etc, etc…

Eu era repórter do SBT/RS. Depois de perambular pelo atordoante labirinto branco do cemitério São Miguel e Almas, juntando enquetes e imagens de gente entristecida diante das lápides, a próxima parada era no João XVIII.

Eu e o repórter cinematográfico Jairo Christofari estávamos com aquela incômoda sensação de ter feito mais uma matéria do tipo “pega do arquivo que dá na mesma”.

Foi quando me chamou a atenção uma tenda um tanto chamativa na entrada do cemitério. Banners coloridos anunciavam promoções de jazigos. Vendedores ofereciam condições variadas e “vantajosas” para a morada eterna.

– Que porra é essa? Liquidação de covas? Barbadas pro além? Isso parece bom, Jairo!

Fomos até o casal de vendedores. Ofereciam túmulos com a naturalidade e o palavrório de quem vende consórcio de carro.

Fiquei curioso para saber quais eram os argumentos para convencer as famílias a optar por uma das diferentes formas de acomodar definitivamente seus entes queridos.

Em off, naquela conversa antes de gravar, perguntei ao vendedor porque tanta variação de preços e condições no mesmo cemitério, onde tudo parecia igual naquela gigantesca prateleira de “gavetas” onde se enfiam os caixões.

Ele me disse que, entre outros fatores, os preços variavam conforme o andar em que se localizava a sepultura.

Bom, até aí tudo bem, tinha alguma lógica. Mas eu encasquetei com os “outros fatores”.

Com aquele papo fluído de vendedor,  me disse que os jazigos mais caros ficavam nos andares cuja vista se descortinava para a cidade, tendo em primeiríssimo plano o Estádio Olímpico, na época em plena atividade.

Peraí! Tudo bem que os gremistas exaltem a imortalidade do tricolor, mas aí já era demais!

– Como assim? Uma baita vista para o defunto desfrutar? Os parentes só viriam aqui de vez em quando, deixariam umas florzinhas e tchau! Quem iria aproveitar esta “espetacular” vantagem?

Inabalável, convicto da qualidade do seu produto, o vendedor não perdeu a pose.

– O mercado é cada vez mais dinâmico, é preciso encantar o cliente. Estamos oferecendo um ótimo produto. E em condições imperdíveis!

Aquele marketing do outro mundo foi o que salvou a matéria.

E voltei pra emissora pensando:

– Vou morrer e não vou ver tudo!