O ENTREVERO MAL RESOLVIDO NO FIM DO MUNDO

Acabávamos de voltar suados do lugar mais gelado do planeta. Um dia inteiro de gravações na Antártica, produzindo matérias para o Fantástico e para o Projeto Ecologia, programa de reportagens especiais da RBSTV.  

De volta a Punta Arenas, a cidade chilena mais ao sul do mundo, eu, o repórter cinematográfico Edison Silva e o auxiliar técnico Umberto Durand só queríamos um banho bem quente, depois de uma jornada extenuante num dos ambientes mais hostis para qualquer vivente.

Era agosto, auge do inverno, período em que nem os pinguins ficam por lá. Aqueles bichos de fraque são esquisitos, mas não são bobos: nesta época  eles migram para águas menos geladas mais ao norte.

Ainda estamos no pequeno saguão do simpático Hotel Mercurio quando o oficial da Marinha Brasileira nos avisa que a tripulação do Hércules C-130 da FAB,  que nos trouxe desde o Brasil e nos levaria de volta para casa, ainda faria mais um vôo antártico no dia seguinte para treinar o lançamento de cargas em baixa altitude.

Pedi ao oficial que pudéssemos gravar a operação, mas não tivemos autorização.

O jeito então era ficar esperando que a tripulação voltasse do exercício.

As violentas evoluções do pesadão Hércules sob mau tempo acabaram provocaram danos no leme direcional do avião. Seria preciso esperar alguns dias pela chegada de uma peça vinda do Brasil.

Este contratempo nos obrigou a uma permanência mais demorada na cidade.

Decidimos então aproveitar a estada para produzir algumas matérias complementares. E saímos então batendo pé pelas ruas.

Percorrendo a área do porto, onde embarcações pesqueiras de vários países atracam para se reabastecer, deparamos com uma simpática lojinha de souvenires.

Oba! Hora de conferir o que ainda restava da mirrada diária de viagem e tentar comprar alguns badulaques nativos.

Somos os únicos ali.  Vejo apenas a vendedora no fundo da loja. Uma rechonchuda senhora muito sisuda, de uns 50 e poucos anos, absorta com as anotações que fazia atrás do balcão do caixa.

Assim que nos vê, lança um olhar desconfiado, mal levantando a cabeça.  Sem dizer palavra, retoma seus afazeres.

 

Ficamos ali bisbilhotando os artigos, à procura de algo que pudéssemos levar para casa e exibir aos amigos.

Meus colegas, que não falavam espanhol,  me usavam como intérprete quando toda vez que queriam saber o preço ou detalhes de algum produto. Eu aplicava então a fluência que desenvolvi  em muitas coberturas no Uruguai e principalmente na Argentina. Minha pronúncia soava marcadamente porteña, de tantas idas a Buenos Aires.

A mulher respondia laconicamente, com visível desdém e clara má vontade. Chegava a insinuar um desprezo velado. Falava monossílabos e se calava, sem ao menos nos dirigir o olhar.  Comecei a estranhar aquela animosidade toda, e logo descobri que não era grosseria gratuita ou simples mau humor.

Assim que ela percebeu que conversávamos  em português,  mudou de expressão. Saiu de trás do balcão e se aproximou, perguntando em tom elevado:

– Mas afinal, de onde vocês são?

Respondi que éramos jornalistas brasileiros trabalhando numa reportagem na Antártica, e que estávamos aproveitando para conhecer melhor a cidade e levar alguma lembrança da viagem.

– Ahhhh bom, agora sim! Eu jurava que vocês eram argentinos!!

A carranca se apagou.  A dona da loja passou a exibir um simpático sorriso e mostrava  alegremente os produtos à venda, destacando os que ela achava mais representativos da região, sugerindo presentes e oferecendo pechinchas. Entre uma oferta e outra, repetia constrangida:

– Ai meu Deus, me perdoem, eu achei que vocês eram daquela gente!

A mudança radical de comportamento escancarava a beligerância entre chilenos e argentinos, especialmente naquela região. Resultado de uma disputa territorial que apenas 16 anos antes quase levou os dois países à guerra.

Em 1977, Argentina e Chile, duas ditaduras militares, disputavam em tribunais internacionais  o controle do Canal de Beagle,  uma gélida e inóspita porém estratégica passagem marítima que faz atalho entre o Pacífico e o Atlântico no meio de um emaranhado de ilhas desabitadas no extremo do continente.  Os dois países chegaram a reforçar tropas na área, que ficaram de prontidão para um entrevero iminente.

O impasse diplomático só amainou um ano depois, quando o Papa João Paulo II intercedeu. O pontífice mediou um acordo determinando quem ficava com qual pedaço daquele fundão gelado do continente.

O confronto armado não aconteceu, mas a hostilidade sobreviveu firme aos anos, como pudemos constatar  vivamente naquela lojinha de Punta Arenas.

Com um aceno animado de “hasta luego” da senhora de bochechas rosadas, saímos dali bem faceiros, levando uns pinguinzinhos de cerâmica, nossos singelos recuerdos do fim do mundo.

A porta se fecha atrás de nós com o sininho tilintando. Umberto se despede murmurando o comentário derradeiro da cena:

–  E eu achando que brasileiro é que tinha bronca com argentino…