O DOIS CAIXÕES E OUTROS BALAQUEIROS

Entre as criaturas que habitam o mundo da comunicação estão os famosos “balaqueiros”, tipos marrentos que vivem exaltando suas proezas profissionais , sexuais, aquisições e outras manifestações de pura vaidade. E na maioria das vezes, pura fantasia.

Geralmente exibem seus supostos trunfos sem que ninguém tivesse perguntado nada.  Eles sempre dão um jeito de puxar algum assunto onde possam sorrateiramente abrir uma brecha e surpreender os incautos com suas “conquistas”.

Tá pensando num monte de gente que você conhece, né? Pois é.

O habitat destes seres é diversificado. Eles proliferam tanto na área técnica como nas redações e chefias.

As histórias variam conforme o posto. E as reações também. Quando algum chefe vem exaltar suas iluminadas decisões estratégicas, os subordinados geralmente fingem uma contida  satisfação; já os puxa-sacos demonstram admiração e até gratidão, mesmo sem entender do que se trata.

Mas na “graxa”, o chão de fábrica, o pessoal não perdoa. Quando um balaqueiro começa a decantar suas balelas, a turma escancara sem dó, geralmente desarmando o discurso do pretencioso com uma saraivada de gargalhadas e sonoros  “ahh, para com isso, contra outra!”.

Além dos que gostam de exibir suas posses e feitos, há os que sofrem de uma curiosa  compulsão em acrescentar histórias pessoais em qualquer assunto que o coitado do interlocutor traga. O sujeito sempre tem na ponta da língua um caso relacionado ao tema, em que ele, um parente ou amigo próximo viveu a mesma coisa só que pior, por mais inusitada ou exótica que seja a história.

Esta necessidade de se sobressair ou se fazer notar por conta de suas pretensas qualidades e feitos muitas vezes extrapola as raias do bom senso e resvala no ridículo.

Na RBSTV, havia um motorista cujo apelido era “Dois Caixões”. O pessoal dizia que quando ele morresse, seria necessário um caixão para o corpo e outro para a balaca.

Era profissional competente e bom parceiro. Conhecia bem todos os caminhos para levar as equipes de reportagem. Mas era um balaqueiro incurável.

Destilava sua sapiência sobre tudo com aquele tom de voz malandro de quem se gaba das suas habilidades: “Sei tudo, tá comigo, tá com profissional”.

Naqueles dias, celulares serviam basicamente para ligações e mensagens  de texto. Eram caros demais para a maioria da turma de baixos salários da área técnica e do transporte.  E só os aparelhos mais caros tinham a trepidante novidade do vibrador.

Para mostrar aos colegas que estava de posse de uma jóia daquelas, a figuraça caprichou na exibição.

Com aquele caminhar cheio de malemolência, atravessou o pátio da emissora e se uniu a um grupo de cinegrafistas, motoristas e repórteres que conversavam na entrada do corredor que levava à redação.

Subitamente, começou a balançar nervosamente a perna, como se um bicho tivesse entrado pela bainha do largo abrigo de tactel e começasse a roê-lo furiosamente por baixo do pano.

O grupo silenciou diante daquela cena esquisita. Ele então levou a mão no bolso e sacou triunfante o celular novinho em folha. Levou teatralmente o aparelho ao ouvido, mas antes explicou o que estava acontecendo, enquanto ia se afastando dissimuladamente:

– É o vibracau! Treme pra caramba. Agora dá licença. Alô,quem é?

Acostumados com a peça, ninguém engoliu aquela performance. Nem se deram ao trabalho de rir. Um cinegrafista veterano balançou a cabeça condescendente:

– Esse aí não tem jeito mesmo, deixa ele…