O CASO BAHAMAS – PIRATAS EM AÇÃO DIANTE DAS CÂMERAS!

Agosto de 1998. O navio Bahamas, de bandeira maltesa, atraca no porto de Rio Grande vindo da Austrália trazendo milhares de toneladas de ácido sulfúrico. As autoridades logo percebem que a carga perigosa está vazando pelas fissuras do casco corroído. O produto corrosivo e mortal polui as águas do canal de Rio Grande. Por conta do risco à saúde pública a pesca é proibida, afetando gravemente a vida de milhares de famílias de pescadores e impactando fortemente na economia da cidade.

O misterioso Bahamas no porto de Rio Grande

Agravando a situação, os técnicos constatam que o navio atracado está afundando lentamente. E que seria preciso retirar urgentemente a carga antes que vazasse totalmente e condenasse todo o ambiente na região, com consequências incalculáveis para a natureza e para a economia local.

Por ordem da justiça, 9 mil toneladas de ácido são transferidas para o navio argentino Yeros, que faz cinco viagens ao alto mar para descartar a carga em zona segura. Mas ainda restam quase 4 mi toneladas de ácido nos tanques do Bahamas, que se misturam à água que invade o casco e segue vazando cada vez mais no canal.

Os meses vão passando e a ameaça continua. Até que a justiça determina: o carcomido Bahamas tem que ser retirado do porto de Rio Grande e afundado bem longe dali, em águas internacionais. Havia consenso de que o navio, segurado em US$ 10 milhões, estava velho demais e não compensava reformar.

Pressionada pela justiça brasileira e pelas autoridades portuárias, a empresa suiça Chemoil, dona do navio, envia a Rio Grande uma equipe holandesa especializada em salvatagem, atividade de recuperação de grandes embarcações. Os técnicos da SmitTak coordenam o esvaziamento do que resta nos tanques e instalam dentro deles enormes balões, para garantir flutuabilidade ao Bahamas.

UMA COMPLICADA COBERTURA JORNALÍSTICA EM ALTO MAR

O assunto vinha sendo coberto basicamente pela imprensa local. Eventualmente era enviada alguma equipe da capital para atualizar os fatos. Mas a decisão de afundar o navio, numa inédita e complicada operação marítima exigiria uma cobertura mais ambiciosa.

O Grupo RBS então montou uma “força tarefa” para cobrir toda a operação desde a saída do porto até o desfecho em alto mar.

Mas como viabilizar esta logística?

A saída foi acionar a Fundação Universidade de Rio Grande. A RBS negociou espaço para suas equipes no navio Atlântico Sul, embarcação de pesquisas  da instituição.

Azeredo, Edison e Vlad, o mergulhador

A equipe da RBSTV era formada por mim e pelo cinegrafista Edison Silva. Contratamos também um mergulhador profissional que havia sido instrutor do Edison. A idéia era tentar fazer imagens subaquáticas na hora do afundamento. Eu também faria os boletins para a Rádio Gaúcha.

O restante do grupo era integrado pela equipe da RBSTV de Rio Grande, com a repórter Julieta Amaral e o cinegrafista Maureci Ferreira, e o chefe da sucursal de Zero Hora em Rio Grande, Klécio Santos. Da ZH da capital veio o fotógrafo Ronaldo Bernardi.

Passaram-se alguns dias antes da partida. Era preciso esperar por condições ideais de maré e ventos. Havia probabilidade de mau tempo, o que inviabilizaria a operação pelos riscos à precária estrutura do Bahamas.

Maurici, Edison, Julieta, Ronaldo e Azeredo

Mas havia algo mais no ar além das nuvens carregadas. Informes confusos vindos da Europa deixavam as autoridades portuárias desconfiadas sobre as intenções dos donos do navio. O trabalho das equipes de salvatagem a bordo do Bahamas também gerava suspeitas. Havia uma inquietante aura de sigilo em tudo.

A POLICIA FEDERAL ENTRA EM AÇÃO

Enquanto acompanhávamos no porto os trabalhos de preparação do Bahamas para a última viagem, acontecimentos estranhos levaram a Polícia Federal a embarcar no caso.

Os 27 tripulantes, de várias nacionalidades, haviam abandonado o navio assim que ele chegou a Rio Grande. O comandante, o ucraniano Volodimyr Kishnychian foi preso, julgado por negligência e sentenciado a 18 meses em regime aberto, a serem cumpridos em Rio Grande. Surgiram ainda informações de que o navio poderia estar sendo usado para contrabando de armas, drogas, ouro ou diamantes africanos.

A Polícia Federal subiu a bordo e encontrou lá 3 mergulhadores gregos que estavam em situação irregular no Brasil. Eles disseram que foram enviados pela dona do navio para fiscalizar o trabalho dos holandeses.Foram presos, e depois de prestar depoimento, liberados com a ordem de voltar ao seu país.

Não foi o único fato intrigante a gerar desconfiança nos federais. Quando os agentes fizeram nova revista no navio alguns dias depois, encontraram as paredes internas escavadas, como se alguém tivesse removido o “recheio”.  A ChemOil explicou que era para aliviar o peso do navio. Mas no entanto todo o entulho removido das paredes continuou a bordo. Além disso, porões e a sala de máquinas foram totalmente lacrados. As portas estavam soldadas, impedindo qualquer chance de acesso.

Nossa equipe conseguiu autorização para embarcar e pudemos registrar em imagens o que os policiais constataram.

COMEÇA A ÚLTIMA VIAGEM 

Quase 8 meses depois de chegar ao porto, o Bahamas começa a derradeira jornada. A embarcação, arrastada por dois rebocadores oceânicos, foi conduzida pelos práticos, marinheiros locais que são responsáveis pelo comando de navios estrangeiros enquanto estes navegam por águas internas do pais onde chegam. A bordo também estavam os holandeses da empresa de salvatagem.

Bahamas lentamente rebocado pelo canal

Além dos dois rebocadores, havia um terceiro, o D´Georgiana, que levava observadores da Marinha, do Ibama e operadores navais de Rio Grande contratados como representantes da dona do navio. Completando a pequena flotilha, o Atlântico Sul, que levava nossa equipe e pessoal da Universidade de Rio Grande.

Hora crítica: ganhando mar aberto

Foram duas horas de lenta e cautelosa navegada pelos 20 km do canal de Rio Grande até chegar à barra, a porta para o mar aberto. Ali era um ponto crítico: havia o sério risco do casco corroído se romper no momento do choque com as ondas. Um naufrágio ali bloquearia o Porto de Rio Grande.

A habilidade do prático no comando evitou o pior. E o Bahamas ganhou o oceano.

Acompanhamos todo este trajeto tenso pelo canal gravando das margens.

Partimos em nossa embarcação duas horas depois. Navio bem menor e mais rápido, o Atlântico Sul alcançaria a flotilha do Bahamas ao anoitecer. E lá fomos nós.

O Atlântico Sul e ao fundo o D´Georgiana

Seriam três dias de navegação até o ponto previsto de afundamento, fora das águas territoriais brasileiras, ou seja, mais de 500km mar adentro.

Entre nós, havia a expectativa de uma grande matéria!

O mar estava calmo, e tudo parecia correr conforme o previsto. Ninguém desconfiava que havia outro destino traçado para o Bahamas.

PIRATAS ATACAM AO AMANHECER

Todos se preparavam para dormir, na noite do segundo dia de navegada, quando observamos luzes ao longe na escuridão. Vinham de outra embarcação não identificada que apareceu próxima à flotilha, navegando em paralelo, a uns dois km de nós. Parecia acompanhar nosso rumo. Não respondeu nenhum contato de rádio. Apenas permaneceu na mesma velocidade, à distância e em silêncio, como se estivesse à espreita.

O Salvage Giant à espreita do Bahamas

Assim que o dia raiou o navio misterioso fez o primeiro contato e se identificou. O comandante do Salvage Giant, com péssimo inglês, disse que trabalhava para uma empresa de Taiwan contratada pela ChemOil para interceptar e resgatar o Bahamas antes que fosse afundado.

Numa manobra surpreendente, o navio intruso acelerou, ultrapassou e se posicionou á frente do Bahamas, bloqueando a passagem. Uma escancarada ação impedir que o Bahamas seguisse seu rumo.

O veterano Homero Alvariza, comandante do nosso navio, estava espantando. Uma vida no mar e nunca tinha vivido uma situação daquelas.

– Isso é pirataria, só o pode ser! Jogar o navio pra cima do outro e querer levar embora? É pirataria!

Comandante Homero, de camiseta azul: “É pirataria!”

No D´Goeorgiana, rebocador que era a nau capitânia da nossa flotilha, e que levava o pessoal da Marinha, Ibama e os representantes dos donos do navio, ninguém explicava nada pelo rádio, apesar dos nossos apelos.

Ficamos observando a movimentação, gravando e fotografando tudo, mesmo sem saber o que acontecia.

O  D´Georgiana se aproximou e atracou junto ao casco do Bahamas.

Observamos uma grande lancha inflável a motor ser lançada ao mar pelo Salvage Giant. Ela partiu em alta velocidade na direção do Bahamas.

O repórter cinematográfico Edison Silva aproximou a lente o quanto pode, e pudemos ver que nela estavam os mesmos mergulhadores gregos que haviam sido expulsos do Brasil pela Policia Federal.

Eles alcançaram o Bahamas, mas não tiveram autorização para subir. Voltaram para seu navio, e começou assim uma longa e intrincada negociação. Tentávamos acompanhar os acontecimentos pelo rádio, mas a frequência foi mudada.

A lancha dos gregos avança até o Bahamas

Só nos restava observar de longe. A ordem da Marinha era que nos mantivéssemos a 500 metros de distância.

Algumas horas depois a lancha voltou ao Bahamas. Desta vez os gregos embarcaram e os holandeses foram se retirando para o rebocador D´Georgiana.

Era evidente que os intrusos estavam assumindo o comando do Bahamas!

Enquanto Édison e os outros colegas registravam as imagens possíveis da distância em que estávamos, eu ia passando boletins para a Rádio Gaúcha e para a RBSTV, falando pelo rádio do Atlântico Sul utilizando uma conexão marítima via satélite da Embratel.

Relatando para Rádio Gaucha via rádio/satélite

Diante da situação, a direção do jornalismo da RBSTV decide enviar um cinegrafista de avião para registrar o que estava acontecendo. O repórter cinematográfico Sérgio Rosa embarcou num taxi aéreo bimotor e conseguiu fazer providenciais imagens daquela operação. Foi uma ótima solução para garantir imagens para o factual nos telejornais daquele dia, pois ainda levaríamos pelo menos três dias para retornar a Rio Grande.

 

UM MISTÉRIO NUNCA ESCLARECIDO

Com o comando do Bahamas nas mãos dos gregos, observamos os rebocadores se retirando, abrindo caminho para que o Salvage Giant iniciasse sua operação de “resgate”.

Registrando o flagrante em alto mar

O navio de Taiwan prendeu suas amarras no Bahamas e o levou para um destino não divulgado. Sumiram no horizonte deixando para trás muitos mistérios.

Bahamas retomado pela tripulação do Giant

Dias depois, em Rio Grande, gravamos com o representante local da dona do navio. Ele disse não entender porque tamanho esforço, uma vez que o seguro não cobria os gastos que seriam necessários para recuperar a estrutura. E insinuava que teria que haver algo de muito valor em jogo para justificar tanto interesse em resgatar aquele velha e condenada embarcação.

Mesmo com muitas perguntas sem respostas, nossa jornada rendeu uma longa matéria no Fantástico e um programa especial na TVCom.

Azeredo, Edison, Vlad e o Bahamas ao fundo

Uma semana depois, produzimos reportagem para o Jornal Nacional atualizando o assunto com a decisão da Interpol (polícia internacional) de fazer uma busca mundial pelo navio. Mas não encontrou nada. O Bahamas havia sumido do mapa.

Foi preciso mais um ano para que o Bahamas fosse encontrado na costa da Nigéria, abandonado como sucata.

Ninguém se apresentou como dono do navio.

Nunca se soube o que havia anos seus porões que despertasse tanto interesse.