O CAÇADOR DE TOMADAS E A FERA SOB O SOFÁ

A gente encontra umas peças muito raras neste mundinho do telejornalismo.

Conheci muitos tipos curiosos, engraçados, maniáticos e por aí vai, nas muitas equipes de reportagem com quem trabalhei em várias emissoras.

Esquisitões que se tornaram, na maioria, grandes amigos.

Um desses é o Martins, que todo mundo conhece como “Niu”.

Sujeito de origem humilde, havia começado nesta lida já na casa dos 40.

Baixinho, mas robusto, inquieto e cheio de energia.

Se orgulhava de dizer que vinha de bicicleta para o trabalho, pedalando deste a longínqua Restinga (bairro no extremo sul de Porto Alegre) até o topo do Morro Santa Tereza, onde está a maioria das emissoras de TV da capital gaúcha.

O bravo Onildo “Niu” Martins

O traço mais marcante desta figura era a metralha de sílabas repetidas e confusas que constituía o seu jeito de falar.

Pronunciava várias vezes a mesma palavra em sequência, numa velocidade que fazia de cada frase um emaranhado de sons sibilantes quase incompreensíveis.

Trabalhava num ritmo tão acelerado quanto seu falar.

Sempre disposto, foi um grande companheiro de trabalho e um bom amigo.

Com a convivência, me tornei um dos poucos entre os colegas que conseguiam entender o “dialeto” dele.

Quando nos conhecemos, na TV Pampa, lá por 1986, ele era o “pau de luz” da equipe, o encarregado de operar o kit de iluminação da reportagem e carregar outras traquitanas que o trabalho exigia naquela época.

Sempre que chegávamos ao local da pauta, ele disparava na frente da equipe, numa busca alucinada por tomadas onde pudesse ligar os cabos da luminária.

Entrava agitado como um cão de caça farejando freneticamente por todos os lados em busca do seu alvo.

Voltava em segundos anunciando, de peito inflado e com seu peculiar idioma, que a luz estava pronta!

– Belez belez belez beleza, tudo tudo certin certin certi certinho!

Para o Martins, missão dada era missão cumprida.

Lá pelo final dos anos 80 fomos ao então Banco Meridional, que na época funcionava no prédio onde está o Santander Cultural, na Praça da Alfândega, centro de Porto Alegre.

No imponente e elegante saguão do térreo havia um grande círculo formado pelas mesas dos funcionários. Era a linha de frente no atendimento ao público.

Mal entramos, Martins travou o foco naquela grande ilha de bancários e seus computadores com pesadas telas de tubo.

E disparou para baixo das mesas carregando seus fios e entoando seu grito de guerra:

– Madamadamada,tomada,tomtomtomadatomadatomada,tomada,tomada!!

Em poucos segundos capturou sua presa. E voltou todo faceiro espanando o pó das mãos com aquele gesto típico de quem anuncia o trabalho bem feito.

– Tudo pront,pront,tudo,pront,pront,tudo pronto!!

Foi quando começou uma gritaria dos funcionários, que levavam as mãos às cabeças em puro desespero:

– Ai meu Deus, apagou tudo!!! Os arquivos!! Deu pane, perdemos tudo!!!

Todos os monitores se apagaram. Bancários atarantados de um lado para o outro pediam socorro.

– Cadê a manutenção, chamem alguém, o banco vai parar!!

Alguma coisa me dizia que o Niu estava por trás daquilo.

Olhei para ele e vi que observava aquela confusão, sem entender nada. Virou pra mim:

– Queisso,queisso,queisso, quefoiquefoifoifoi?

– Martins, tu desligaste alguma coisa debaixo das mesas?

– Ué ué ué ué, eu tinhatinhatina que ligar a luzluzluz, né?

Na sua sanha em busca da conexão perfeita, ele foi desligando cabos embaixo das mesas até encontrar a tomada que lhe agradasse. E acabou dando um “boot” em quase todo o sistema naquela parte do banco.

Só conseguimos fazer a matéria depois que os técnicos vieram e arrumaram tudo, pondo fim ao pânico das secretárias e gerentes.

A FERA SOB O SOFÁ

Outro dia fomos entrevistar o então secretário de meio ambiente de Porto Alegre, Caio Lustosa.

Morava numa casinha simpática no bairro Rio Branco.

Acionei a campainha e na mesma hora disparou uma saraivada de latidos estridentes e contínuos dentro da casa.

Lustosa, que já nos aguardava, abriu dois dedos de porta e me disse pela fresta que precisava primeiro acomodar o furioso cachorro debaixo do sofá da sala, onde o guaipeca costumava se esconder quando chegavam visitantes estranhos.

Deu a ordem e o cão imediatamente se enfiou onde o dono mandou.

Entrei. Olhei desconfiado para o sofá.

Eu conseguia ouvir o rosnado raivoso e ver os dentes à mostra rangendo no escuro sob o móvel, como se o bicho só estivesse esperando o dono dizer “Pega!!”

Lustosa procurou me tranquilizar:

– Agora tá tudo bem, é só não incomodar ele ali embaixo.

Chamei a equipe que permanecia no carro. Como já era esperado, Martins veio na frente, cheio de vontade.

– Cadêcadcadcadcad cadê a tomatomatomatomada?

Não resisti à tentação.

– Ó Martins, ele disse que a única tomada que funciona fica debaixo do sofá. É toda tua!

Se a porta da casa tivesse sido fechada, a imagem seria aquela cena clássica de desenho animado, com o buraco na porta revelando os contornos do personagem que atravessou apavorado a madeira!

Martins saiu voando, perseguido pela fera, largando tudo pelo caminho.

Só parou na rua, depois que se certificou que o cusco tinha desistido da perseguição, já que a “ameaça” já havia sido escorraçada.

Depois que as gargalhadas da equipe cessaram, e com o cão de volta para baixo do sofá, Martins pode enfim sair em busca de uma tomada segura.

Mas antes passou por mim, meio rindo, e vaticinou:

– Tumitumitumitumi pegapaapapagagaga, baixinhoibaixinhobaixinho filhofilho da putaputaputa!!

Só não brigou feio comigo porque eramos bons amigos e ele já estava acostumado com as sacanagens do povo televisivo.

Grande figura esse Martins!