O ASSALTO, O TRAPALHÃO E AS ARMADILHAS DO DESTINO

Agosto de 1989. Encarando um plantão noturno básico, eu e o repórter cinematográfico Arno Maciel (a equipe tinha também o operador de VT, o iluminador e motorista, mas infelizmente não lembro quem eram)  fomos ao Palácio da Polícia entrevistar o delegado Wilson Muller.

Mal começamos a conversar  e o telefone da mesa dele toca. Um assalto com refém estava em andamento.

Saímos todos  juntos  rumo á ocorrência. Zarpamos na nossa Kombi (na época o carro padrão de equipes de reportagem)  seguindo os Opalas da policia.

Em menos de 10 minutos chegamos na esquina da Dr.Timóteo com a 24 de outubro. Já havia alguns brigadianos em posição em frente a uma locadora de vídeo, onde um assaltante mantinha a atendente sob a mira do revólver.

 

A tentativa de assalto aconteceu pouco antes da locadora fechar, por isso não havia clientes. Alguém que passava em frente viu a movimentação e chamou a polícia.

A locadora ficava a uns 15 metros da 24 de Outubro. Pouco depois da nossa chegada, a rua já estava  fechada  e o cerco reunia uns 50 policiais civis e militares.

O assaltante mantinha a refém dando uma “gravata” com um braço e com o outro mantinha o cano da arma na cabeça dela. Agitado, gritava que queria um carro pra fugir. A refém chorava baixinho.

Os delegados Cleber Ferreira e Wilson Muller foram até ele e iniciaram a negociação. Aplicaram aquele rito clássico, com palavrório de enrolação para conter o nervosismo do assaltante, avaliar bem a situação e fazer com que ele pensasse que tinha alguma chance de sair dali vivo e, quem sabe, livre.

Um carro da policia sem identificação foi estacionado em frente á locadora, dando a ilusão para o assaltante que o veículo poderia estar à disposição dele, se a refém fosse libertada. Um carro em que ele poderia sair dali, mas para ser interceptado logo adiante.

Eu estava agachado no meio dos policiais, bem perto deste carro, tentando escutar a negociação. Arno, o cinegrafista, gravava tudo do outro lado da rua, num ângulo bem favorável e protegido por uma árvore.

Alguém esbarra em mim.  É um policial civil, que passa quase se arrastando, com um canivete na mão, como um soldado que avança sorrateiro com a baioneta armada na ponta do fuzil.

O colega dele, logo atrás de mim, olha a cena e chama o outro, tentando não falar alto:

– Ô meu, aonde tu vai??

– Vou dar um jeito nesta porra!

– Como assim? Tá louco? Os homem tão lá negociando com o cara! Quer ferrar tudo, maluco??

– Eles vão deixar o cara fugir com o carro. Vai nada! Eu vou furar os pneu! Quando ele tentar sair, a gente ferra ele!!

O policial atrás de mim saltou e ficou ao lado do outro, abaixado, segurando o colega pelo braço. Não consegui compreender o que ele disse. Mas ficou bem claro que deu uma bronca no agente espertalhão.

O outro bufou resignado, dobrou o canivete, enfiou no bolso e saiu dali praguejando.

O colega dele viu que eu observava aquela conversa insólita e me deu uma olhada, respirando fundo e sacudindo a cabeça, como quem diz “Tem cada doido por aí…” E retomou sua posição sem dizer nada.

Fiquei ali imaginando os possíveis desdobramentos daquela “tática” se o lobo solitário não tivesse sido impedido pelo colega e o assaltante tivesse chegado até o carro.

Cerca de uma hora depois os delegados conseguiram convencer o bandido a se entregar e tudo acabou bem.

Cinco anos depois,  o assaltante, conhecido como Bicudo, foi um dos líderes da famosa rebelião no Presídio Central, junto com Dilonei Melara e Fernandinho.

Ele escapou num dos carros exigidos pelos amotinados para fugir. Mas acabou encurralado pela policia na Lomba do Pinheiro. Morreu fuzilado no tiroteio, junto os comparsas que estavam com ele.

Melara e Fernandinho foram para outro lado e perseguidos acabaram invadindo de carro o saguão do Hotel Plaza San Raphael.

Assim como Bicudo fez na locadora cinco anos antes, eles tomaram reféns e negociaram várias horas até se entregar.

Mas desta vez Bicudo não teve a mesma sorte daquela noite na video-locadora.