O ALTO PREÇO DOS PASSARALHOS

Quantos filmes você já viu sobre aquele velho conflito de gerações em empresas que investem alto em jovens inexperientes e supostamente promissores, desdenhando os veteranos que sabem tudo do ofício e da vida?

E quantas vezes você pensou ”já vi esse filme…” ao testemunhar os passaralhos nossos de todo dia no jornalismo?

A renovação das redações é tão inevitável quanto necessária.  É preciso dar chance para os novos talentos e incorporá-los ao ambiente dos mais calejados.  Todo mundo tem que começar um dia. É assim em qualquer profissão. Todos nós passamos por isso no início, de um jeito ou de outro.

Além do gás, do tesão para trabalhar e o ímpeto da juventude, os mais novos trazem a cultura do seu tempo, coisa que nem sempre os mais vividos conseguem perceber com clareza.

Quando uma empresa consegue harmonizar o perfil de cada geração no ambiente de trabalho e no processo de produção, o resultado é extraordinário.  A equipe toda cresce, e o produto final é sempre bom. Os mais jovens evoluem rápido e se tornam bons profissionais, tendo os veteranos a mostrar os caminhos.

Mas hoje o que vemos nas redações Brasil afora, com variadas proporções conforme a região e seu mercado, é um implacável descarte daquilo que historicamente os veículos de comunicação tem de mais precioso:  a sua cultura profissional, patrimônio construído pelo trabalho e as conquistas dos mais experientes ao longo de décadas.

E isso não é valioso apenas para o veículo. É importante para toda a sociedade, pois tem a ver com a qualidade da informação que ela recebe.

O assunto parece velho (sem trocadilho…) mas o que acontece hoje vai muito além da habitual renovação das redações.

É uma agressiva juvenilização, apoiada na cínica premissa de que os mais jovens são mais preparados para o mundo cyber e suas vertiginosas transformações – o que inclui atuar em várias plataformas de mídia ao mesmo tempo, em jornadas estendidas e pelo mesmo salário.

Também por conta deste processo, jovens com pouca experiência de profissão (e de vida) ascendem muito cedo a postos de comando. E acabam tendo que tomar decisões de alta responsabilidade que em outros tempos caberiam a profissionais tarimbados no ofício e na vida. Um risco enorme para os jovens, que por inexperiência podem cometer erros irrecuperáveis e prejudicar a carreira. E um grande risco também para o veículo de comunicação, dependendo das conseqüências da burrada.

Outra face muito triste desta tendência é que, com a ausência dos veteranos, os mais jovens são privados de uma inestimável fonte para a sua formação no combate do dia a dia: a palavra dos mais velhos, os “espelhos” em que os novatos vão se inspirar e buscar ajuda sobre como abordar tal assunto, a dica da fonte certa, pedir avaliações, etc. Isso não tem preço.

Não se trata aqui de retórica sindical rançosa nem corporativismo arcaico. É fato.

Por mais que estejamos acostumados com modernosas e ocas práticas “inovadoras” de gestão, que sempre vem ornadas com neologismos gringos (tipo”downsizing” ) e suas ridículas versões nacionais (“descontinuar” é apenas uma entre tantas babaquices cruéis) jamais se viu tamanho desdém pela qualificação, história e conquistas profissionais.

E pior ainda: nunca se viu tanta despreocupação com o efeito disso na qualidade da informação que é levada à sociedade, a quem os veículos de comunicação deveriam servir.

Muitos apontam a web e suas infinitas facilidades como o tiro de misericórdia no já alvejado jornalismo de qualidade. Mas dizer isso é o mesmo que culpar a arma e não quem a usou premeditadamente.

A Internet e todas as maravilhas que a tecnologia vem nos brindando nas últimas décadas são ferramentas imprescindíveis que deveriam consolidar a missão de formar e informar cada vez melhor uma nação.

Mas o que vemos no Brasil é uma idolatria de crente às benesses econômicas da instantaneidade e do custo zero ao acesso, produção e disseminação da informação – seja ela de que qualidade for, bem ou mal intencionada.

E a essência da cultura jornalística vai aos poucos sendo patrolada por uma visão cada vez mais imediatista e ambiciosa, onde aspectos como apuração detalhada e profunda, capacidade intelectual e vivência na atividade deixam de ser premissas básicas do bom jornalismo para serem apenas problemas a serem eliminados por terem se tornado, na visão de muitos gestores de comunicação, sinônimo de desperdício e prejuízo.

Esta tendência não é exclusividade dos brasileiros. Mas justamente nestes tempos em que precisamos nos reconstruir e colocar o Brasil no rumo das nações evoluídas, mostramos que estamos na contramão dos que tem na qualidade da sua imprensa um fator fundamental para a solidez da sociedade e da própria democracia.

O Brasil ainda vai pagar muito caro por isso.