NATHALIA FRUET

NATHALIA FRUET é daquelas repórteres permanentemente inquietas, atenta à tudo. Basta conversar um pouco com ela para perceber o entusiasmo pela profissão. Formada em Jornalismo em 2007, na Universidade de Caxias do Sul, começou a viver a atividade ainda estudante, como estagiária na sucursal da RBSTV, em Caxias do Sul.Depois fez estágio na Rádio Caxias, onde acabou contratada.

Em 2008, pediu demissão pra ir trabalhar na Rádio BAND NEWS, em Porto Alegre. Em cinco anos de Band, atuou na BANDNEWS FM, Rádio Bandeirantes e na BAND TV, onde fincou pé no telejornalismo..Em 2013, foi a RBS, trabalhando inicalmente com repórter na TVCOM passando depois para a RBSTV. Trabalhei 3 anos em 7 meses na capital, até realizar o sonho de trabalhar em Brasilia, na sucursal da rede gaúcha, onde hoje acompanha intensamente os acontecimentos do poder central. Nathalia recebeu menção honrosa no Prêmio da Associação Riograndense de Imprensa em 2008 e foi finalista em outras três edições Fui escolhida por dois anos seguidos melhor repórter de rádio no prêmio PRESS e melhor repórter de TV, na mesma premiação, em 2015.

. Qual a maior virtude de um repórter de TV ?

A principal virtude do repórter de TV é ter humildade pra dividir, pra compartilhar. Dividir suas ideias, dúvidas, angústias com editores, produtores, cinegrafistas. Na televisão, o resultado final, a matéria no ar, vai depender, principalmente, do entrosamento do repórter com o cinegrafista. Não adianta eu ter uma ideia sobre uma imagem pra começar a contar uma história se eu não troquei ideia com o cinegrafista. Isso vale pra pautas produzidas e para o factual também. Esse compartilhamento sempre foi importante, mas agora é fundamental, porque hoje a gente sabe que o material que vai estar na TV, possivelmente, já está na internet, em várias plataformas. Então, como é que a equipe vai fazer aquele telespectador ter interesse por um assunto, que já está sendo tratado massivamente nas redes ?? Essa resposta nunca é definitiva, mas fica mais fácil quando a gente compartilha!! Eu tenho que saber que todo o dia é um desafio novo. A tarefa é desapegar de conceitos e estar aberto pra aprender com as histórias dos outros todos os dias.

. Como se deve lidar com as fontes?

Eu sempre costumo questionar quando alguém me procura pra dar alguma informação, qual o interesse daquela pessoa em repassar a informação. O interesse é, realmente, denunciar o que está errado ou existem segundas intenções? Se eu percebo que existem segundas intenções eu procuro ser franca e sempre deixo claro que eu percebi qual o real interesse da fonte. E também sou franca pra dizer se algo vai realmente virar pauta ou não. Eu tenho que ter clareza se a fonte está repassando um fato ou está produzindo um fato.  As fontes interferem decisivamente no nosso trabalho. Por isso, a importância de uma relação honesta. Eu confesso que isso já me fez perder algumas fontes, mas também as que fidelizaram nunca repassam algo que não é notícia. Aqui, em Brasília, esse exercício tem que ser feito diariamente. As tais segundas intenções são bem freqüentes.

. Como forma a sua base de conhecimento ?

Isso sempre me provoca perturbação. Ainda na época da faculdade tu começas a te dar conta que no jornalismo diário, tu vais ter que lidar com pautas de economia, política, saúde, educação. Só que somos generalistas, ou seja, não temos o conhecimento teórico desses assuntos específicos, sabemos um pouco de tudo, mas não temos o conhecimento científico. Então, a leitura é a forma que eu encontro pra saber um pouco mais sobre algo que eu não domino. Faz 10 anos que eu me formei, então, eu penso também em voltar a estudar. Fazer um mestrado. É uma ideia que eu estou amadurecendo já há algum tempo, mas que, por causa, da rotina maluca eu nunca consegui ainda colocar em prática.

.Como dever ser a relação com o repórter cinematográfico ? E com o editor ??

Eu falei disso nas virtudes do repórter de TV e reforço aqui. As matérias mais legais que eu fiz sempre aconteceram depois de muita conversa entre cinegrafista, produtor, editor. Eu posso usar como exemplo uma matéria que eu e o Mário Júnior repórter cinematográfico  que tem mais de 30 anos de experiência, fizemos para o Jornal do Almoço, da RBS TV, durante uma enchente em Esteio. A cidade estava alagada, com casas debaixo d’água. E nós decidimos ir até uma das casas onde um morador disse que não sairia, porque não queria perder tudo de novo (era a terceira vez em dois anos que a água tomava a casa dele). A gente estava longe da casa, a uma distância de uns 700 metros, e não conseguiríamos gravar com ele a essa distância. Eu olhei pro Mário e disse:  Vamos lá ?? O Mário respondeu: Vamos !!! Antes de ir, como a água batia na cintura, a gente perguntou para os moradores que já estavam fora de casa, se havia perigo, algum bueiro, buraco, algo assim, e eles nos mostraram por onde deveríamos ir. A Defesa civil ainda não havia chegado ao local) . Assim que a matéria foi ao ar, alguns questionaram, se deveríamos ter ido ou não, e a nossa resposta foi: a equipe decidiu que deveria ir pra conseguir ouvir o morador. Teve quem disse que acertamos, mas teve também quem disse que fizemos errado. Nenhuma verdade é absoluta, no jornalismo, então, nem se fala! Eu só posso dizer que naquele momento a equipe ( repórter + cinegrafista ) decidiu o que seria o certo e a matéria aconteceu. Isso resume o que eu penso da relação entre cinegrafista, repórter, editor, produtor e auxiliar. O repórter não faz nada sozinho e nesse dia eu só fiz, porque o cinegrafista topou. Televisão é imagem, então, se o cinegrafista não estiver na mesma batida que o repórter, as coisas não acontecem!  Acho que tem que ser uma relação franca. A equipe tem que ter liberdade pra falar o que pensa, sem que ninguém fique melindrado. Se precisar brigar, a gente briga, mas depois a gente se entende!

. Como lidar com situações tensas ou perigosas na reportagem?

Eu adoro adrenalina e situações eletrizantes. Gosto das pautas altamente operacionais, como eu costumo dizer. Isso não só no trabalho, mas na vida! É a minha intuição que vai me dizer até onde eu devo ir e o meu medo que vai me impor limites e vai me dar o indicativo pra parar. Por exemplo, a cobertura dos ataques violentos na Vila Cruzeiro, em 2016, entre facções rivais, teve um período bem tenso em que todo o dia aconteciam tiroteios. Fui escalada algumas vezes para essa cobertura. A regra sempre foi ficar em lugares estratégicos. Evitar uma exposição desnecessária, saber em qual momento a equipe vai precisar entrar numa viela ou não. Será mesmo necessário ? Qual é o risco? Esse é o raciocínio que sempre faço. Nos protestos de 2013, eu participei da cobertura em Porto Alegre, pela TVCOM. Eu acho que acompanhei, pelo menos, umas cinco manifestações. Nunca aconteceu nada, porque eu não deixava de acompanhar, mas tentava sempre me afastar das circunstâncias arriscadas.  Meu medo é o meu guia. Quando termina a adrenalina e começa o medo, é porque devo parar ou recuar!

. Repórter tem que só receber a pauta ou criar a sua?

Repórter tem que sempre criar a sua pauta! O repórter não pode ficar esperando, tem que ir em busca da notícia. Esperar é se acomodar. Na minha opinião, repórter acomodado não é repórter, não nasceu pro métier”. É evidente que a rotina do jornalismo diário nem sempre permite que todo o dia o repórter traga sua própria pauta. Mas o repórter tem a obrigação de fazer esse exercício!

. Como lidar com as várias plataformas que a profissão impõe hoje?

Essa é uma boa pergunta. Na verdade, acho que eu ainda estou descobrindo como lidar com essas várias plataformas. Essa transformação em “looping” que está acontecendo é muito engraçada. Eu  lembro na época da faculdade (entrei em 2002 e concluí em 2007 ) não existia facebook, instagram.  Então, o máximo que os professores falavam nas aulas era sobre sites e blogs. O que eu quero dizer com isso? Que estou aprendendo todo o dia a lidar com as outras plataformas que também estão servindo pra noticiar. Eu procuro sempre compartilhar nas redes sociais as matérias ou os assuntos que vão virar pauta até pra me aproximar das pessoas. Alguém pode comentar algo, e até virar fonte. Agora, se essa é a melhor forma de dialogar com as outras plataformas só o tempo vai dizer.

. O momento mais difícil da carreira?

A cobertura da tragédia da boate KISS. Nessa época, eu ainda trabalhava na BAND. Eu lembro bem daquele 27 de janeiro de 2013. Eu estava na praia, de folga, quando o meu irmão me ligou dizendo que 92 pessoas haviam morrido numa boate, em Santa Maria.  Arrumei as coisas e voltei para Porto Alegre. No trajeto, ouvindo a rádio, o número crescia a cada meia hora. No meio da tarde, seguimos pra região Central do Estado. Foi muito estranho, porque no caminho pra Santa Maria, no  trajeto contrário, não paravam de passar ambulâncias, e eu pensei:”Tô indo pra cobertura mais difícil da minha vida de repórter”. E foi isso mesmo! Eu cheguei lá e já fomos direto pro ginásio, onde estava acontecendo o velório coletivo. Trabalhei naquela cobertura pra rádio e pra TV. Eu cheguei no domingo  e não parei de entrar no ar. Acho que o mais difícil foi a cobertura dos sepultamentos. Na terça-feira, a gente acompanhou o sepultamento dos dois filhos da mesma mãe. Nesse dia eu chorei copiosamente, como criança, porque não tem como tu não pensar que podia ser a tua mãe, os teus irmãos. Inclusive, questionei se deveríamos cobrir os sepultamentos. Será que não tínhamos que ter deixado aquele momento exclusivamente para os familiares ? E isso não só a BAND, mas todas as emissoras, porque todo mundo acompanhou. Por isso, que eu digo que estamos sempre aprendendo e não temos respostas definitivas. Acho que eu tirei muitas lições daquela cobertura. A primeira delas foi que precisamos estar atentos às pautas que estão pipocando no nosso cotidiano todos os dias. Quantos de nós jornalistas não freqüentam todos os dias, sem se dar conta, lugares que não podiam estar funcionando, que não seguem as regras básicas de segurança. O Ricardo Kotscho sustenta que um dos problemas do jornalismo é esperar as tragédias acontecerem. Só que muitas vezes o problema que provocou aquela tragédia estava escancarado no nosso cotidiano. Eu concordo com ele.

A outra lição é sobre aquela regra que diz que temos que manter sempre um distanciamento dos sujeitos da notícia. Eu sempre discordei disso. E lá, em Santa Maria, mais ainda. O trabalho jornalístico passa sim pela capacidade que eu tenho de ter empatia pelo outro. E isso não significa entrar no ar chorando junto com um familiar das vítimas. Significa ter clareza de quando perguntar, do que perguntar, pra que e por que motivo perguntar. Às vezes, aqueles pais e aquelas mães, que estavam enterrando os seus filhos, queriam apenas um pouco de atenção, um abraço, uma palavra pra tentar amenizar aquela dor. E eu como jornalista tenho obrigação de entender aquele momento e não usar isso pra conseguir algo, que não vai mudar em nada o resultado do meu trabalho.

E tem ainda as lições pra vida pessoal. Eu fiquei muito impactada com aquelas histórias. E só pensava na minha família, nos meus pais e nos meus irmãos. É clichê dizer isso: mas a gente não pode esperar o amanhã pra gente deixar claro de como a gente ama pai, mãe, irmãos… Então, a cobertura da tragédia da KISS foi sim o momento mais difícil nessa minha curta vida de repórter, mas me ensinou muita coisa também!

. O melhor momento ?  

O melhor momento tem que ser sempre o AGORA. É assim no trabalho, é assim na vida! Fazia pelo menos uns 2 anos que o meu coração dizia que eu precisava mudar! Vir trabalhar em Brasília me deu motivação nova e eu preciso disso pra viver, caso contrário, começo a ficar entediada.  Eu ainda não tinha concluído o curso de jornalismo, quando vim pela primeira vez pra uma cobertura aqui na capital federal. Lembro que quando eu cheguei no Palácio do Planalto pra acompanhar uma comitiva que veio convidar o presidente da República pra estar na abertura da Festa da Uva, em Caxias, eu pensei: “Deve ser tri trabalhar aqui! Quem sabe um dia?”. Pois hoje, estamos aqui pra o que der e vier. No trajeto da casa pro trabalho, eu enxergo, de longe, o prédio do Congresso Nacional. O meu coração pulsa!  É o sinal de que estou no caminho certo. Por aqui é tudo muito complexo. Eu ainda estou entendendo como funcionam os poderes, as instituições. Possivelmente, eu fique 5, 10, 15 anos aqui e não vá saber tudo desses trâmites. Mas com o tomá-lá-dá-cá, que acontece na nossa cara todos os dias, o jornalismo é ainda mais importante! A minha obrigação é tentar aproximar a rotina palaciana do seu João e da dona Maria. Mostrar que as decisões tomadas aqui impactam diretamente a vida de homens e mulheres, que pegam ônibus às 5h da manhã, dão duro o dia inteiro, e não tem perspectivas de melhorar de vida. Então, seguimos nessa luta, pra tentar transformar. O caminho é longo, mas eu não posso deixar de acreditar!

. Como lidar com a fogueira de vaidades da televisão ?

Saber lidar com a fogueira de vaidades da televisão é o que vai me fazer melhorar como repórter e melhorar como jornalista. É um desafio e tanto, porque o ego do jornalista, todos sabemos, que é gigante! Tens uns que acreditam, piamente, que são o rosto do “Quarto Poder”, Não é o meu caso. O repórter de TV tem que ter clareza que não é uma celebridade. Tem muitos que acham que podem fazer jornalismo e ser celebridade, ao mesmo tempo. Isso não funciona, são coisas incompatíveis. Quem quer ser celebridade tem que ir pro entretenimento, porque em algum momento tu vai esquecer o jornalismo! Isso não significa não dialogar com o telespectador, pelo contrário; a televisão cria essa facilidade.

Tu está no mercado e alguém para pra conversar é a chance que tu tens pra ter um feedback do teu trabalho e também se aproximar dessas pessoas. É isso e ponto! A minha primeira preocupação quando eu estou na rua tem que ser sempre com a informação. Então, se o cabelo não está o ideal, a roupa está um pouco amassada, isso não me importa e não me preocupa! O que vai me deixar indignada é voltar pra redação sem ter alguma informação, alguma imagem, algum personagem, entrevistado que eu considero essencial pra aquela matéria! É preciso controlar o tal do ego diariamente!

. A grande matéria que ainda não fez?

Bah!!, tem muitas matérias que eu quero fazer! Mas tem um assunto que, desde sempre, me perturba: a realidade dos moradores que moram nas periferias. Recentemente a gente acompanhou pela TV os conflitos na Rocinha, zona Sul do Rio de Janeiro. E é sempre assim: falamos da briga entre traficantes, dizemos que trabalhadores e trabalhadoras são reféns do tráfico, mas ainda estamos muito distantes do cotidiano dessas pessoas. Eu queria poder compreender melhor a realidade deles e transformar isso em matéria. Outro assunto que eu acredito que rende uma grande matéria é o trabalho escravo. O país todo está acompanhando a discussão sobre a portaria do Trabalho Escravo, editada pelo governo federal. Ainda tem gente que acha normal trocar mão de obra por comida e moradia. Isso não é normal, não pode ser! Em 2013, fomos gravar uma série de reportagens para a TVCOM sobre pessoas que ainda hoje passam fome. Gravamos todo o material no norte do Rio Grande do Sul. Encontramos famílias que não tinham o que comer e que por causa disso acabavam se submetendo a situação análoga ao trabalho escravo. Acho que esse assunto renderia uma grande matéria ou até mesmo uma série de reportagens.

. Dica para os novatos

Eu tenho 33 anos. Então, eu me considero uma “foca” ainda no jornalismo. Mas a dica que eu dou para os que estão chegando é: o jornalismo não vai acabar, como sentenciam os mais pessimistas. Mas o valor que a profissão vai ter dependerá do quanto vamos nos empenhar pra nos aproximarmos do Seu João, da Dona Maria, e agora, mais do que nunca dos filhos deles, que estão consumindo conteúdo na internet, em várias plataformas. A minha obrigação é levar pra todos eles a informação correta, bem apurada!