MEMORÁVEIS SACANAGENS – PARTE 1

Até os anos 90, havia no jornalismo uma tradição – ou melhor, uma instituição –  que era a sacanagem divertida com os novatos, ingênuos ou incautos. Eram brincadeiras normalmente inofensivas que marcavam o “batismo” do sujeito nas lidas da imprensa.

Mas a praga do politicamente correto, o comportamento “certinho” de muitos das novas gerações de chefes das redações e as safras de profissionais contaminados pelo mimimi surgido dos anos 2000 em diante foram aos poucos banindo esta “prática histórica”, substituindo a zoeira por um ambiente de chatice onde estas brincadeiras praticamente passaram a ser encaradas como uma espécie de bullying passível de denúncia.

Pois é, são outros tempos.

De vez em quando a gente até houve falar de algum desprevenido que caiu numa dessas. Mas é cada vez mais raro. E quanto acontece são coisas tão bobinhas que envergonhariam os pândegos do jornalismo raiz e suas elaboradas armadilhas.

Em telejornalismo, uma das sacanagens mais comuns era ordenar ao novato que providenciasse urgentemente uma “borracha de apagar croma do VT” e a levasse ao chefe da redação. Pra quem não é de TV: o croma (Chroma key) era um efeito eletrônico antigo que criava um fundo para as imagens em primeiro plano.

Eu caí nessa no meu primeiro dia de repórter na TV Guaíba, lá em 1985. Percorri voando todos os setores da emissora, perguntando pra todo mundo onde achava a tal borracha. Até que comecei a estranhar as risadas e caí na real. Estava batizado.

Os novatos não eram as únicas vítimas. Muitas vezes os veteranos malandros  aplicavam trotes em colegas que por alguma característica especial de comportamento se tornavam alvo obrigatório.

E de vez em quando o pessoal pegava pesado.

Neri, ou Nerizinho, era operador de VT no telejornalismo na RBSTV no final dos anos 80. Tinha fama de pedichão, sempre filando cigarro, café, lanche, etc. Um dia os medonhos da cinegrafia decidiram que estava na hora de dar uma lição no inconveniente colega.

Sabendo que ele não podia ver o pessoal no cafezinho sem pedir que alguém bancasse um, a turma da externa completou um copo grande de café preto com uma overdose de Lactopurga,  um poderoso laxante.  Quando Nerizinho apareceu, foi presenteado com o mimo, que ele aceitou muito feliz, sem desconfiar da gentileza.

E partiu faceiro para a jornada diária com a equipe de reportagem.

A alegria durou até o café sabotado começar a fazer efeito.  Neri passou o tempo todo correndo desesperado para o banheiro mais próximo, ou onde quer que fosse, para se “aliviar”. Um dia certamente inesquecível para o pedichão.