SACANAGENS: O MERGULHO DO UMBERTO

Regra número 1 para não ser alvo de sacanagens da sua equipe: nunca diga quais são suas fraquezas, medos, perdições, etc.

Entregar suas fragilidades de bandeja para os colegas pândegos é pedir para ser contemplado com uma treta quando menos esperar.

Umberto Durand era operador de vt e áudio. Colega querido por todos, era um grande parceiro de reportagens.

Mas tinha pavor de mar, lagoa, rio, etc. Ficar alguns minutos com água na cintura era o máximo que se permitia. E já considerava uma baita prova de bravura.

Em 1994, partimos de Tapes para uma viagem de uma semana pela Lagoa dos Patos a bordo de um belo veleiro de dois mastros e 10m de comprimento, o Igaraçu. A missão era produzir um programa do Projeto Ecologia (programa semanal de reportagens especiais da RBSTV) sobre o “Mar de dentro”, que é como os navegadores e pescadores chamam aquela imensidão com mais de 300km de extensão e onde, das partes mais largas, não se consegue ver as margens.

Nossa equipe era composta por mim, a produtora e editora Mônica Roemmler, o repórter cinematográfico Edison Silva e Umberto como seu auxiliar  operando o gravador de vídeo (vt), áudio e luz. O veleiro era conduzido pelo seu dono, um empresário veterano navegador da lagoa e um amigo que atuava como seu imediato no comando da embarcação.

Totalmente equipado e seguro…

Para poupar os reservatórios da embarcação, tomávamos banho na própria lagoa, já que longe das margens a água era suficientemente limpa.

Apesar de ser uma das maiores do mundo, boa parte da Lagoa dos Patos é rasa. Fora dos canais de navegação, por onde passam os navios, é possível encontrar longos trechos com água pelo peito, mesmo a muitos quilômetros das margens.

Na hora do banho, Umberto sempre ficava com água pela cintura, agarrado na escadinha de corda pendurada na lateral do casco, e usando colete selva-vidas. Os demais mergulhavam livremente naquelas águas deliciosamente quentes de verão.

Lá pelo quinto dia de navegada, longe de tudo, amanhecemos perto de um grande banco de areia, onde ancoramos para a higiene matinal antes de começar a jornada de trabalho. Umberto ainda estava na cabine quando eu e Edison nadamos alguns metros até um ponto tão raso que dava pra ficar em pé com água pelos joelhos.

Entre o veleiro e onde estávamos havia uma distância de 4 ou 5 metros. Naquele pequeno trecho que nos separava do Igaraçu a água era profunda.

Foi quando surgiu das profundezas da nossa deturpada mente o monstro da sacanagem. Nem foi preciso combinar. Apenas sorrimos um para o outro e chamamos o ingênuo colega:

– Aeee Umbertoooo, vem aqui com a gente! É tranquilo, bem rasinho!

Ele subiu ao deck, emergindo pela portinha da cabine. Ao nos ver no banco de areia, sorriu mas mesmo assim travou.

– Eu heim? Tá louco, não me meto nesta água!

– Mas olha aqui tchê, água tá no joelho, dá pra ficar numa boa, sem perigo!

Realmente a imagem era convincente. Umberto ficou olhando desconfiado, mas começou a ceder.

– Huumm, sei não…

– Vem rapaz, a água tá boa demais!

Mônica assistia tudo sentada no deck, intrigada com a nossa insistência. Ela não sabia o que estávamos aprontando. Mas já desconfiava que tinha sacanagem no ar. Ou melhor, na água.

Umberto se lotou de coragem e caiu na água com aquele jeito desastrado de quem nunca nadou. Foi direto pro fundo. Emergiu se debatendo desesperadamente.

Na mesma hora eu e o Edison o pegamos e o levamos até a escadinha, onde ele se agarrou com um gato em pânico tentando sair da banheira.

Mas ainda faltava o tal requinte de crueldade…

– E aí, perdeu o medo dágua?

Ele não conseguia dizer nada. Apenas bufava ofegante com as mãos crispadas nas cordas da escadinha. Depois de alguns segundos, tentando se refazer do susto, subiu sem dizer nada e foi se secar dentro do veleiro.

Ainda dentro dágua, ficamos nos olhando com aquela cara de guri que estourou a janela do vizinho com uma bolada.

Mesmo dormindo, colete por perto!

– Putz, acho que desta vez pegamos pesado…

 

Que nada! Pouco depois já estávamos todos dando risada e tomando cerveja no deck, com um lindo por do sol ao fundo.

Por via das dúvidas, Umberto passou o resto da viagem enfiado no colete salva-vidas, que ele só tirava pra dormir, mas que mantinha sempre por perto.