LUIZ BARBARÁ

Luiz Barbará, 28 anos, gaúcho de Uruguaiana, se formou jornalista na PUC-RS/ Famecos em 2011. Decidiu ser jornalista aos 10 anos de idade, quando participou do Jornal do Almoço Especial de Dia das Crianças 1999, substituindo na bancada o comentarista Lasier Martins.

Naquele momento se encantou pelo mundo dá televisão e decidiu que ali faria carreira. Em 2011 foi produtor, editor e repórter do programa. Começou a carreira ainda durante a faculdade, participando da extinta TV Foca, quando ganhou seu primeiro prêmio jornalístico: menção honrosa de melhor reportagem universitária do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo 2009.

Foi estagiário do SBT/RS e da assessoria de imprensa do Internacional, onde participou da cobertura do bicampeonato da Libertadores da América. Depois passou pela RBS TV Porto Alegre como estagiário, produtor e editor. Foi repórter da RBS em Santa Cruz do Sul. Também passou pela Band/RS atuando como editor-executivo do programa Brasil Urgente. Foi onde colocou no ar a cobertura da tragédia da boate Kiss em 2013. No mesmo ano foi para Record TV RS, onde venceu três prêmios: ARI em 2013, Prêmio Ministério Público do Trabalho de Jornalismo 2017 e Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo 2017.
Em 2015/16 cobriu férias de verão na Record TV Rio de Janeiro. Em 2017, voltou para faculdade no curso de Cinema da PUC-RS e ancorou debates na TVE. Há pouco mais de um mês chegou ao Rio de Janeiro para uma nova etapa profissional: editor dos telejornais das 13h e 16h da GloboNews. 

Aos 10 anos, na bancada do Jornal do Almoço

. Qual foi a matéria que te fez pensar: “Agora sim, sou um jornalista” ?

Acho que eu ainda estou em um processo constante da construção de ser um jornalista. Fiz matérias no comecinho da carreira que achava ser o máximo. Hoje vejo com outros olhos. Mas acredito que o momento em que vi que estava crescendo nesse processo foi em 2013, durante um temporal.

Estava a caminho de uma pauta. O trânsito parou, a chuva não parava, se formou um grande engarrafamento, pessoas ficaram ilhadas… Liguei para a redação, disse que pauta prevista não tinha como ser feita e cobri o que estava acontecendo. Parece simples, não é? Mas foi um momento em que me senti muito jornalista. Porque senti que tinha a sensibilidade de ver o que era notícia, de mudar um esquema, fugir da rotina. Só a minha equipe estava no local do fato que virou a notícia do dia no RS. Depois essa reportagem factual ganhou Menção Honrosa no Prêmio da Associação Riograndense de Imprensa. Já revi essa matéria algumas vezes e hoje faria algumas coisas diferentes.

Mas me sinto jornalista também com cada matéria que muda alguma realidade, que ajuda, que dá voz para minorias.

As reportagens em que eu ganhei prêmios esse ano, sobre a “Doença da Folha Verde e a vida dos plantadores de fumo” (ganhou o Prêmio do Ministério Público do Trabalho) e  “Colônia Itapuã, Cidade Fantasma”, sobre o antigo leprosário construído na Era Vargas que onde cerca de 2000 pessoas moraram e hoje só restam 17 pessoas.

A reportagem ganhou o Prêmio dos Direitos Humanos. São histórias de denúncia, resgate, difíceis de serem feitas e que foram reconhecidas. A grande matéria não pode ser aquela que somente vai ao ar, como se diz. Não existe nada mais decepcionante do que quando dizem: “fecha com o que tem” ou “matéria boa é a que entra”. Não. Matéria boa é aquela que muda algo, que faz as pessoas pensarem. Resumindo, ser jornalista pra mim é buscar e contar histórias que vão além de informar.

 

. Qual foi o momento de maior tensão na reportagem?

Sem dúvida nenhuma, a situação que vivi no ano passado durante uma reportagem investigativa. Fiquei em cárcere privado, fui ameaçado e constrangido. Não foi só tensão, foi medo também.

Vi e senti de perto o quanto nós jornalistas ficamos fragilizados quando não existe estrutura para o trabalho investigativo. Tive muito pouco apoio. Existe um grande equívoco no nosso meio com o pensamento de que jornalista tem que correr risco e que isso faz parte da profissão.

. Telejornalismo é trabalho em equipe. Como te relacionas com o repórter cinematográfico e outros integrantes?

O jornalismo em si é um trabalho de equipe. No telejornalismo ainda mais. Sempre tento criar um ambiente de franqueza e tranquilidade. No trabalho em equipe eu sempre penso que nunca todo mundo vai estar 100% ou a fim de fazer aquilo. Mas gosto de comprometimento e seriedade. Isso gera confiança.

. Como faz para “cavar” pautas?

Leitura variada. Ás vezes uma  pequena nota de jornal pode virar uma grande reportagem de TV.  Memória.  Olho atento. Uma dica simples: caminhar por vários lugares, andar de ônibus. A gente sempre assiste ou passa por alguma situação interessante que pode render uma pauta. E ir criando fontes. As mais variadas. Numa conversa de bar também surge pauta.

. A relação com o editor é sempre um momento em que podem surgir diferenças de interpretação do material produzido. Como harmonizar os pontos de vista nesta hora?

Felizmente nunca tive grandes problemas com editor, a não ser que este tenha preguiça de ver o material feito. Como eu atuo como repórter e editor, acho que construí uma boa visão dessa relação. Se tiver cumplicidade melhor ainda. Se tiver que ser uma relação apenas técnica tem que ter confiança. Como repórter sempre trabalhei durante longos períodos com o mesmo editor, então tudo fica mais fácil. Porque aí cada um já pega o jeito, a forma de trabalhar do outro. O respeito cresce, a parceria e ideias também. Como editor sempre tento escutar o máximo o que o repórter tem a dizer. Só quem esteve na rua mesmo sabe de fato como aconteceu, então isso que tento respeitar sempre.

. Repórteres da tua geração são mais acostumados a lidar com várias plataformas. Como faz para manter a qualidade do conteúdo com tantas tarefas?

Preferia ser um repórter da antiga geração. Acho que a tecnologia ajuda bastante, torna tudo mais fácil. Mas também acho que tira o brilho ás vezes de uma conversa olho a olho, de ir atrás da informação direto na fonte. As grandes reportagens que fiz foram feitas com fontes que não tinham whatsapp ou Skype. Algumas sequer tinham telefone. O prazer é muito melhor. Agora, sobre atuar nas mais variadas plataformas, acho bom e perigoso ao mesmo tempo. O bom é que com um mercado cada vez mais enxuto, a gente tem que estar preparado para tudo. O perigoso é que quando tu quer ser tudo, tu acaba não sendo nada.

 .  Qual é a grande matéria que ainda não fez?

Várias. Um grande fato sempre está prestes a acontecer e pode se tornar uma grande reportagem. Mas tenho fascínio por lugares de difícil acesso. Me inserir naquela cultura local, vivenciar o dia a dia daquelas pessoas. Uma grande reportagem da Amazônia, talvez. Já fizeram várias, mas acho que sempre pode ter algo diferente.

. Como forma a tua base de conhecimentos para lidar com a profissão?

A leitura diária, buscar as mais variadas fontes de informação,  vontade de aprender, respeito com os mais experientes, estar atento e ter personalidade. E principalmente ter a consciência que tudo pode mudar de uma hora para outra.

. Qual a melhor forma de conduzir uma reportagem?

Acho que não existe uma fórmula pronta e talvez isso que mais me motiva no jornalismo: a possiblidade de ir criando, reinventando formas. Jornalismo lida com movimento, todo dia é dia de fazer algo diferente. O que nunca pode mudar é a vontade, coragem e a sensibilidade.

 

. Como lida com as fontes?

Com respeito e limites. É deixar claro que não é um sistema de trocas. É informação e ponto.

. Qual foi a grande conquista na profissão até agora?

Chegar na maior empresa de comunicação do país é uma conquista e tanto, talvez a maior conquista para quem pensa só no jornalismo como mercado. Como eu ainda tenho algumas utopias e acho que todas essas me tornaram o profissional e pessoa que sou, penso no jornalismo como meio de mudança, então como disse no começo da entrevista, quando consigo mudar alguma realidade, é uma conquista. Os prêmios que recebi até agora também são muito importantes porque são sinais que o meu trabalho está sendo visto e reconhecido.

. Tua trajetória até então foi no jornalismo gaúcho. Agora vem o desafio de atuar na GloboNews. Como está encarando esta nova etapa?

Eu tive uma rápida passagem no Rio de Janeiro entre 2015/2016 na reportagem da TV Record. Mas antes disso fui criando experiência em quase todos veículos do RS. Fiz estágio no SBT, na assessoria de imprensa do Internacional (TV Inter), comecei como estagiário de produção na RBS TV, virei editor, fui para o interior e me tornei repórter. Voltei para Porto Alegre na Band, onde fui editor e repórter. Depois fiquei só reportagem na Record. Agora estou com a responsabilidade da edição novamente nos jornais diários da GloboNews. É um novo ritmo. É um lugar que dá estrutura para aquilo que se propõe. Estou empolgado e feliz com o que está acontecendo e com o que pode acontecer.

. Como foi a chegada na GloboNews?

Através de contatos. Conversas e correr atrás. Nunca ninguém bateu na minha porta. As oportunidades surgiram porque fui em busca. Crio uma rede de contatos e mostro meu trabalho. Fui muito bem recebido aqui na GloboNews. Eles respeitam muito o trabalho de quem vem do RS. E logo virão novidades, o que me deixa bastante feliz e motivado.

. A matéria do cárcere privado gerou um atrito com a Record porque reclamaste da falta de apoio da empresa. Depois tiveste papel importante na mobilização de funcionários dentro da empresa contra as condições de trabalho. Pouco depois foste demitido. Que lição ficou disso tudo?

Acredito que a falta de apoio na questão do cárcere privado muito se deve pela mobilização pelas melhorias nas condições de trabalho. Pra que defender e proteger um funcionário que reclama? Só que esse mesmo funcionário fora de lá foi o único que deu 2 prêmios nacionais pra emissora no último ano. Sendo que o do MPT, foi o primeiro da casa em 10 anos de existência. Saí com a consciência tranquila que sempre cumpri com o que tinha que ser feito, ou seja, tentar fazer jornalismo com qualidade. A lição que fica é que infelizmente nossa profissão não é respeitada por algumas administrações. E para piorar, temos uma classe amordaçada e medrosa, onde nem mesmo os colegas se protegem. Boa parte dos mais novos quer o estrelato, os mais velhos estão acomodados – ou quem sabe até ressabiados que as lutas dos jornalistas não dão em nada mesmo. Foi complicado. Mas hoje o que importa é que meu trabalho está sendo reconhecido. E vou lutar pelo bom jornalismo, como sempre fiz e da forma como construí o meu currículo. Uma carreira é feita de construções, com altos e baixos. E a minha está recém começando.