LAURA REJANE

Não é exagero dizer que Laura Rejane Mamfrim de Freitas, ou LAURA REJANE, como todos a conhecem, é uma daquelas raras unanimidades no nosso meio. Profissional com uma trajetória admirável, colega terna e generosa, gestora focada e firme, mas humana. Laura sempre deixa boas lembranças e grandes realizações por onde passa. Além da experiência conduzindo equipes de jornalismo, qualificou um grande número de profissionais que hoje brilham no mercado depois de passarem pelos cursos coordenados por ela.

Formada jornalista na Universidade Católica de Pelotas, com especialização em Gestão, passou a maior parte da carreira no Grupo RBS, onde ficou por 27 anos. Começou como repórter na RBSTV Pelotas e depois coordenou o jornalismo da RBVSTV Caxias do Sul. Em Porto Alegre, foi editora do Núcleo Rede Globo, chefe de reportagem, editora-chefe do Jornal do Almoço, coordenadora do projeto Caras Novas (programa de treinamento da RBS), editora-chefe do programa Teledomingo, coordenadora de jornalismo das 11 emissoras da RBS no interior e editora-chefe do RBSNotícias..

Na SportTV, da Rede Globo, foi chefe de reportagem, diretora de jornalismo e coordenadora do Passaporte SportTV, projeto de seleção e treinamento de jovens jornalistas para coberturas de esporte ao redor do mundo.

Laura também foi editora-chefe do telejornal BandCidade, da Band/RS, e editora –executiva do UlbraNotícias, da Ulbra TV.

Criou a SÓ TV Escola de Telejornalismo, que por três anos treinou muitos profissionais. Recentemente coordenou a reestruturação do telejornalismo na TVE/RS.

. Viveste o jornalismo desde os tempos das Remingtons e Olivettis até os dias de hoje, com as tecnologias que impuseram profundas mudanças nos veículos e nos profissionais. Como observaste estas transformações?

Sempre recebi todos esses avanços tecnológicos de uma forma muito positiva. Não podia ser diferente. Na década de 80, quando comecei no telejornalismo, a parafernália que se tinha que transportar pra gravar uma entrevista ou qualquer imagem era tanta que tornava a operação de TV muito lenta. Os profissionais podiam ter agilidade para transmitir a notícia, mas era frustrante, precisava paciência budista para operar equipamentos enormes, montar, gravar, desmontar… fazer uma transmissão ao vivo era uma operação de guerra. Ainda acho a operação de TV lenta, mas não se compara. Cada mudança me fascina pela agilidade que proporciona.

Repórter em Pelotas nos anos 80

. Os veteranos sofrem mais com as mudanças vertiginosas nas plataformas de comunicação. Como sobreviver neste admirável mundo novo?

Apesar de ter começado com o formato U-matic (alguém lembra?), hoje me sinto confortável para continuar aprendendo com as mudanças. No início, nos anos 80, 90, os avanços chegavam lentamente. A nossa geração teve sorte porque havia um tempo maior para a adaptação. Pode-se dizer que tivemos oportunidade de criar condicionamento físico e mental para a grande virada. Na última década, todos os alertas foram acionados. E quem, mesmo assim, não percebeu, vive de nostalgia. Não é fácil. Ainda patinamos, não aproveitamos tudo que esse maravilhoso mundo novo nos proporciona. As posições se inverteram. Antes, os jornalistas eram mais ágeis do que a tecnologia, agora corremos para aprender, assimilar e usufruir de tantas possibilidades. Sobrevivemos!

Equipe do Jornal do Almoço, final dos 90

. As redações são cada vez mais enxutas, em todas as plataformas. O bom jornalismo está encolhendo também?

No momento em que o jornalismo precisa expandir para além dos meios convencionais, chegar à internet de uma forma mais completa, parece contraditório enxugar as redações. As novas tecnologias agilizam, mas aumentam o trabalho, porque oferecem novos espaços para o jornalismo. A tendência é o trabalho nas redações de rádio, tv, jornal e internet de uma mesma empresa fluir de forma integrada, com troca de informações, melhor administração do tempo e se complementando. O que poderia somar para melhorar a apuração das notícias e aprofundar jornalismo acaba servindo para justificar a redução das equipes. Assim corremos o risco de ter notícias mal apuradas, superficiais e com falta de capricho no texto.

Projeto Caras Novas

. Os repórteres da atual geração tem a mesma gana dos anteriores ou as facilidades de acesso à informação via web faz com que sejam menos persistentes?

O Dr. Google responde a qualquer chamado, mas não substitui a observação, o senso crítico, a checagem da informação, olhos e ouvidos atentos… se isso não estiver claro, entramos nós, veteranos, para orientar e chamar a atenção para algumas armadilhas da internet. O jornalista não sai pronto da universidade, nem poderia. Sai com boas referências, animado, com garra, com boa vontade para fazer diferente e, de preferência, com humildade para continuar aprendendo. Sempre colaborei para a formação de jornalistas recém formados nas redações. Chegam com entusiasmo e criatividade, sugerem projetos, arriscam. O problema é que, aos poucos, vão “se enquadrando” no padrão antigo. Me parece que nem as chefias estão preparadas para bancar o novo nem os jovens tem credibilidade suficiente para se bancar.

. Um gestor de jornalismo, seja editor, chefe de reportagem ou coordenador de departamento precisa não só conhecer bem a máquina da comunicação como saber lidar bem com as pessoas. Como manter o ritmo da produção, administrar vaidades e estimular um ambiente digno?

Com a equipe da UlbraTV

Sendo justo, ouvindo, percebendo o sentimento da equipe. O jornalista geralmente tem personalidade forte, opinião e uma certa vaidade, principalmente no ambiente de TV. O gestor tem que conhecer cada profissional da equipe, suas habilidades, seus temores, dificuldades, talentos… todos diferentes e igualmente necessários numa equipe. Não fosse assim, seria monótono demais. Não dá pra ignorar que os problemas pessoais influenciam no trabalho, é humano. Precisam ser administrados com a solidariedade dos colegas e a compreensão dos gestores. As decisões tem que considerar todas essas variáveis. Às vezes, fatos e circunstâncias nos atropelam e o jeito é fazer o melhor dentro do possível. O jornalista é questionador por natureza. O gestor é questionado. Tem que argumentar as decisões. O debate na redação é saudável. O gestor também precisa rever decisões com naturalidade. Gestor erra, pede desculpas, faz de novo. O pior é trabalhar com um gestor inseguro. Esse não volta atrás se for preciso e aí é um desastre.

. Na tua trajetória no jornalismo, ocupaste desde as funções básicas do começo até importantes tarefas de gestão, como formar, orientar equipes e organizar departamentos de jornalismo. Qual foi o momento mais desafiador?

Na equipe da SporTV

O maior desafio foi trabalhar no esporte. Quando fui para a chefia de reportagem do SporTv no Rio de Janeiro, em 2009, nunca tinha pensado em fazer jornalismo esportivo, quase desisti. Quando cheguei na redação, abri o coração. Reconheci que estava no meio de especialistas no assunto. Eu entendia de televisão, mas me faltava a memória esportiva. Estudei muito, perguntei mais ainda e, por fim, já andava trocando ideias. Aprendi a curtir varias modalidades de esporte, virei torcedora, leitora voraz de biografias de atletas. Uma vivência daquelas que marcam para sempre, que enriquecem.

 

 

. Qual foi a tua grande alegria na profissão?

O Projeto Passaporte SporTV. Coordenei as 3 primeiras edições do projeto. Foi inovador. Estava entusiasmada com a possibilidade de preparar uma equipe para ganhar o mundo com uma câmera e um computador.

Com uma das turmas do Passaporte SporTV

Imagina o sonho de começar a carreira como correspondente no exterior… os jornalistas eram escolhidos num longo processo de seleção e depois recebiam 5 meses de treinamento em produção, reportagem e edição. Cada um era enviado para um país com a missão de garimpar boas histórias do mundo do esporte. O resultado foi aprovado, o projeto premiado e muitos talentos revelados.

. E o pior momento?

Ah, esqueci! A profissão foi generosa comigo… Encontrei pessoas que confiaram em mim, me ajudaram e ensinaram ao longo desses anos todos…

. Qual foi a cobertura que te marcou?

Uma especial foi a cobertura das olimpíadas de Londres em 2012. Fui escalada para a coordenação. O SporTV não tinha os direitos de transmissão e contava com poucas credenciais de acesso às competições. Precisávamos fazer muito com pouco. Foi uma grande cobertura graças a determinação da equipe. O grupo afinado venceu a cobertura olímpica, apesar das barreiras. Terminamos com festa e sensação de dever cumprido.

No estúdio da SporTV, Copa de 2014

. Que conselhos darias para um jornalista iniciante?

Que pense de forma ampla, que procure conhecer o que está sendo feito no mundo da web e dos canais pagos. Se mergulhar nos inúmeros meios, vai se identificar com algum e fazer disso o seu negócio. Não quero dizer que trabalhar numa grande empresa tenha perdido o encanto. Pelo contrário, quem tiver essa oportunidade não deve desperdiça-lá. É uma experiência riquíssima, só não pode mais ser o único e grande sonho. Penso que as possibilidades de trabalho na comunicação são cada vez maiores.

 

. O jornalismo ainda encanta?

O que me encantava continua encantando e encantaria mesmo que não fosse jornalista. São as histórias de vida e o jornalismo investigativo. O jornalismo factual e de serviço é obrigação, utilidade pública. Tem que fazer e pronto.