JOSÉ PEDRO VILLALOBOS

JOSÉ PEDRO VILLALOBOS, que todos os colegas chamam de Zé Pedro, é jornalista com 27 anos de atuação, sendo 20 deles na RBSTV e TVCOM. Atuou como editor-chefe do Bom Dia Rio Grande, Jornal do Almoço (durante 9 anos), foi coordenador de produção e reportagem da RBSTV e gerente de produto da TVCOM. Deixou o grupo RBS em 2014 e atualmente presta serviços nas áreas de vídeo, conteúdo para sites, redes sociais e projetos especiais em comunicação. Formado em jornalismo pela Famecos – PUCRS. é pós-graduado em Direção Editorial pela ESPM-SP.

. Com a experiência de tantos anos como editor-chefe, administrando equipes e coordenando coberturas importantes, qual é a tua visão sobre o telejornalismo que se faz hoje?

Eu vou falar especificamente sobre o telejornalismo de tv aberta feito aqui no Estado, senão precisaria analisar o conteúdo das tvs a cabo e das web tvs e aí fica muito amplo. De modo geral, o telejornalismo vive um momento de transição mas, contraditoriamente, de pouca ousadia. A maioria das emissoras mantém modelos tradicionais de programação, de telejornais, de reportagens. Eu acho que deveriam abrir os olhos e ouvidos para o que está acontecendo na internet. Tem muita coisa bacana sendo feita, mini docs, formas variadas de narrativas em vídeo… Nem vou entrar na questão dos Youtubers. O telejornalismo clássico, aquele da emissora de TV, com reportagens exibidas em telejornais com hora certa para começar e terminar, tem cada vez mais relativizada a sua importância – mesmo que as audiências ainda sejam muito grandes. Até agora não entendo por que as grandes emissoras – principalmente as locais, as que não são cabeças de rede – não estão produzindo material próprio para veicular exclusivamente na internet. É um espaço infinito, aberto, cheio de possibilidades que vem sendo ocupado por web TVs, produtoras independentes, organizações, universidades e até indivíduos. Com este foco, as emissoras precisam ter uma visão  360, muito adiante do material “no ar”.  Tem que abastecer o site, o canal de vídeos, as redes sociais, os conteúdos em texto, o áudio (podcasts são uma realidade forte no EUA, por exemplo. Aqui ainda não ganharam relevância de audiência, mas é questão de tempo). Por que uma emissora de Porto Alegre, por exemplo, não tem ainda um noticiário ao vivo no Facebook ou no Youtube? Paradoxalmente, emissoras de rádio estão ocupando este espaço com muita rapidez, ainda que de modo rudimentar, pouco refinado.  Imagina quando as empresas de TV, com toda sua estrutura e capacidade de produção, acordarem para o fato de que não precisam ficar restritas à programação da grade…

No suite master, botando programa no ar

. Com tantas mudanças provocadas pela tecnologia, como deveria ser a estrutura de uma redação atual?

Além das atividades tradicionais de produção, edição, captação de imagens e reportagem, as redações não podem mais abrir mão das funções ligadas ao mundo digital. Web designers, social medias (fundamentais não apenas para gerenciar postagens mas também estabelecer o diálogo online com o público), analistas de web, ilustradores, especialistas em Big Data e jornalismo de dados  ( o verdadeiro jornalismo investigativo) e – atenção, polêmica! – inteligência artificial. Sim, grandes jornais como  Le Monde, Washington Post ou a agência Associated Press já utilizam programas capazes de produzir textos com base em dados coletados exclusivamente via sistemas de informação. Aqui cabe uma pequena defesa de tese:  inteligência artificial pode apurar informações, mas ainda não tem condições de contar, com emoção, uma história. Exemplo: um acidente de trânsito com morte até pode ser buscado via sistema. Com os nomes das vítimas, é possível buscar o histórico de vida digital de cada um. Mas só pela ação humana vamos avaliar que o morto era um jovem que recém havia feito transplante de rins, comemorava a nova vida e transformar isto numa história que emociona. Mas então onde entram os robôs? Nas informações numéricas, de mercado, de dados, naquilo que está disponível num sistema e onde não se faz necessária a ação de sensibilidade humana. Tudo isto – com certeza esqueci algumas funções digitais – para que o veículo possa existir tanto na sua forma nativa quanto na internet. Claro que este é um modelo ideal de funções. O que vai determinar o número de profissionais envolvidos é o tamanho da empresa, da operação. Na prática, por razões econômicas, a tendência é contar com profissionais all-in-one, capazes de realizar mais de uma atividade. Sem falar no espaço que – se a economia permitir – deverá ser cada vez maior para as produtoras independentes participarem das programações, em modelos de parceria, coprodução ou compra de conteúdos.

. Com as facilidades tecnológicas de hoje, os jornalistas da geração atual tem muito mais acesso à informação. Isso tem influenciado na qualidade dos profissionais?

. Acredito que existem dois caminhos para responder esta questão. Por um lado, do ponto de vista do domínio das ferramentas digitais, das formas e plataformas,  temos profissionais cada vez melhores, inclusive eliminando funções que antes eram absolutamente necessárias nas redações. Em modelos enxutos, um videomaker faz o papel de, pelo menos, 3 profissionais. Se isto é bom ou não, já não cabe discussão, uma vez que há uma decisão tomada pelas empresas: a de reduzir custos ao mínimo necessário para funcionar. O segundo caminho, que me preocupa demais, é o da qualidade de informação. Aqui acho que existe um nó a ser desatado.  A facilidade para encontrar informações prontas na internet não pode abolir a profundidade de informação, de questionamento. Se, por um lado existe uma tese de que a noção de autoria mudou e as pessoas não se preocupam mais com o “dono” do conteúdo, por outro o profissional não pode confiar cegamente no que está lançado na internet, nas redes sociais ou mesmo em outros veículos. Tem que fazer uma apuração mínima para garantir pelo menos a veracidade do que vai publicar. Jamais copiar e publicar simplesmente.

Na redação da TVCom, com Vivian Cunha, Tanira Lebedeff, Vanessa da Rocha e Danuza Mattiazzi

. Os jornalistas veteranos tiveram que se adaptar aos gadgets, novas plataformas e o ritmo de trabalho que isso tudo trouxe. Como está sendo esta assimilação?

Sem escapatória. É impensável um profissional querer continuar vivo no mercado sem saber se mexer no  mundo tecnológico.Talvez mais difícil do que operar um equipamento ou entender uma plataforma, um aplicativo, seja adaptar a forma de pensar ao universo digital. Quem não é nativo digital sempre vai precisar quebrar esta barreira para se manter atualizado. Por outro lado, quando este profissional experiente consegue se integrar ao ambiente digital, traz enormes vantagens de conhecimento e conteúdo.

. Continuamos assistindo no telejornalismo o velho desfile de chavões e lugares comuns, soluções banais de narrativa e abordagens superficiais. Porque isso não muda?

Sigo falando sobre  tv aberta local, ok? Honestamente, não sei. Na questão das narrativas, talvez falte ousadia para quebrar regras. Ou uma cultura de incentivo e confiança à mudança nas empresas, fazendo com que o profissional acabe seguindo pelo caminho “seguro” de sempre. Ou pior: a pessoa é incentivada a fazer “diferente”, mas quando faz sofre uma enxurrada de críticas internas e cobranças. Isso é desleal, para dizer o mínimo. Também acho que falta sair do modo automático e questionar o que está sendo feito. Vou dar um exemplo bem  básico: o uso de  “personagens” para ilustrar todas as reportagens. Vejo nisto um gasto enorme de energia e tempo de produção. Para quê? Para encontrar” alguém que vai gastar 50 Reais no presente de Dia dos Namorados”, numa daquelas tradicionais matérias sobre datas festivas. Que se usem personagens em situações que realmente pedem isto.

 Quanto à linguagem, sou de uma turma que nasceu e cresceu profissionalmente ouvindo que devemos evitar o uso de chavões, lugares comuns, tudo o que possa significar pobreza de linguagem. O desafio sempre foi se expressar de um modo que fosse compreendido tanto pela pessoa mais humilde quanto pelo intelectual, sem parecer complicado para o primeiro ou óbvio para o segundo. Esta visão ia sendo passada para cada nova turma que chegava às redações.

 Mesmo assim parece que, geração após geração, voltam todos os vícios de linguagem e a pobreza de expressão. Não sei onde aprendem, até porque algumas formas são antigas e nada coloquiais. “Fechar com chave de ouro” é um clássico do lugar comum. “Abigeato” é outro palavrão. Se a tendência agora é falar como as pessoas falam na rua, me digam onde é que tem alguém por aí falando em “abigeato”? Não faz sentido.

 
. O que faz mais falta aos repórteres de hoje?

O desafio geral é saber, afinal, onde está a verdade neste mundo de fake news, interesses variados, “realidades alternativas”… Para o repórter iniciante, falta desconfiar mais da informação e da fonte, questionar, pensar no que está fazendo, refletir (a quem interessa divulgar esta informação que estão me dando? Estou sendo usado em nome dos interesses de alguém?); falta conteúdo, conhecer mais sobre história e se interessar por entender o que está acontecendo no mundo, com todos os contextos e conexões possíveis. Uma das coisas que mais me incomodam é ouvir um profissional dizer que não conhece determinada pessoa ou fato porque “não é do meu tempo”.  Depois do Google, não existe como seguir dando uma resposta preguiçosa destas. Aliás, “meu tempo” é o tempo comum a todos, o agora, certo? Então parem com essa desculpa medíocre. Para os experientes o desafio é não achar que  sabe tudo, que não vai errar, que não tem mais nada para aprender. Precisa manter  o olhar atento ao diferente, deixar-se encantar e surpreender pelas coisas. Infelizmente vejo alguns profissionais caírem numa espécie de desânimo, autocondescendência (acreditam que tudo o que fazem está bom e basta) e autossuficiência. Isto, para mim, é sentença de morte profissional.

Fotografia, uma paixão

. É cada vez mais comum, em coberturas de factuais distantes, acionar pessoas que não são jornalistas para que elas deem seus relatos via imagens de celular, uma vez que elas estão de passagem ou residem no local. Isso prejudica o jornalismo, na medida em que as emissoras eventualmente deixam de enviar correspondentes nestas situações?

Depende do fato, do evento. Há um bom tempo os veículos perderam o monopólio sobre a divulgação de informações, inclusive com imagens. É provável que muito mais gente fique sabendo em tempo real sobre um atentado ou uma manifestação a partir de postagens individuais nas redes sociais do que pela ação de uma empresa de mídia. As pessoas estão agindo assim: registram e divulgam tudo. Ainda mais agora, com a possibilidade de fazer “ao vivo” nas redes… De modo geral, não vejo problemas em contar com imagens e depoimentos de pessoas que estão participando de determinados eventos. Uma vez, na TVCOM, fizemos o acompanhamento da Jornada da Juventude, no Rio, através de estudantes gaúchos que foram para lá e toparam conversar conosco todas as noites via Skype, além de enviar vídeos curtos e fotos, que fomos publicando nas redes sociais. O grande cuidado é quanto à checagem da informação, da imagem, que chega à redação. Não são poucos casos de fake news, fotos adulteradas, que acabam veiculadas como se fossem verdades. Já para coberturas complexas, como eleições, não tem como abrir mão de equipes profissionais.

 . Como deve ser a relação entre editor e repórter? Como harmonizar os pontos de vista de quem veio da rua com a matéria e quem vai editar com um olhar mais contextual?

Não tem fórmula mágica, apenas bom senso. Entre quem foi para a rua e constatou, pessoalmente, o fato e quem ficou dentro da redação deve haver uma busca pela melhor versão possível da verdade. Estou usando esta expressão porque já cansei de discussões sobre parcialidade no jornalismo e não tenho mais paciência para estas polêmicas de Facebook. Então, uso o conceito de “máxima verdade possível”, que é a busca honesta da história real – sem paixões, teses pessoais ou agenda política/partidária/futebolística/filosófica/etc. para contaminar o exame objetivo dos FATOS. Aliás, tem uma frase que ouvi numa série bem apropriada: você nunca consegue chegar até a verdade sem conhecer toda a história. Por tudo isto, é preciso maturidade e equilíbrio nas escolhas que precisamos fazer num processo de edição – além de uma boa dose de humildade para saber que, talvez, não estejamos conseguindo contar TODA a verdade. 

. Muitas vezes o editor é um mediador entre a posição do chefe de jornalismo e a do repórter. Com administrar estas situações?

O mais complicado em tudo isso é quando o “chefe” tem tese e quer que a equipe comprove o que ele acredita ou deseja. Nunca gostei deste tipo do posicionamento. Acho que, ao editor, cabe entender os motivos dos dois lados mas defender, acima de tudo, o que foi constatado como FATO. Contra fatos não há o que contrapor.

. Como os editores, especialmente editores-chefes, devem contribuir para a formação dos repórteres e também dos demais editores?

O editor-chefe é um líder, queira ou não – e, na minha opinião, tem que querer, senão não serve para a função. Mesmo em modelos menos burocráticos e hierárquicos, com decisões compartilhadas e coletivas, o editor-chefe sempre será a figura de referência, o modelo a ser seguido nas decisões, na forma de pensar e encarar os problemas que surgem. Esta é a grande contribuição que ele pode dar: mostrar os caminhos, orientar, ser modelo. Mas nunca fazer o trabalho pelos outros – isto é paternalismo.

Bom, daí temos situações que nem sempre são as desejáveis nas redações: por questões de desenvolvimento profissional, status quo e financeiras, muitas vezes ótimos editores e repórteres, sem perfil nenhum para o comando, acabam aceitando posições de chefia e não sabem lidar com isso.