JOSÉ HENRIQUE

JOSÉ HENRIQUE CASTRO assina as suas imagens apenas como José Henrique. Simplicidade que contrasta com as cenas elaboradas que são sua marca como repórter cinematográfico. Começou no jornalismo nos anos 80, como auxiliar técnico na TVE/RS. Mas botou a câmera no ombro na RBSTV, onde trabalhou por 13 anos.

Com olhar aguçado, faro jornalístico apurado e meticuloso na construção das imagens, José Henrique é hoje um dos repórteres cinematográficos de “elite” da Rede Globo, onde atua há 22 anos. Detentor de dezenas de prêmios, é uma das grandes referências para os profissionais da imagem no telejornalismo.

. Qual é a reportagem mais desafiante?

É aquela em que você traz a imagem que ninguém tem, o que ninguém espera, em que você como cinegrafista traz a matéria. Aquela em que ninguém acreditava e você consegue.

. Qual é a imagem mais gratificante?

Aquela que só você tem!

. O maior perigo que já enfrentou trabalhando?

Já passei por algumas situações perigosas, principalmente em coberturas de operações policiais.Os piores momentos foram entrando em favelas do Rio de Janeiro, com tiro pra caramba e você não pode ficar para trás. Na maioria das vezes são morros e a subida é bem difícil. Muitas vezes você tem que se jogar no chão e rastejar com a bala cruzando por cima. É bem complicado!

. O maior defeito de um cinegrafista?

É não ser um verdadeiro jornalista. Não saber o que é notícia. E achar que sabe tudo, que nada mais é novidade.

. E de um repórter?

É querer ser mais importante do que a informação, maior que a noticia, quando a vontade de aparecer no vídeo e botar a cara na tela é o que importa.

. Câmeras high tech salvam cinegrafistas limitados?

Pode ajudar em algumas situações, mas o mais importante a tecnologia não consegue dar: a fotografia, o bom gosto, a sensibilidade, saber o que filmar. É o que eu sempre falo: como repórteres cinematográficos temos que escrever a noticia com imagens, temos que saber contar uma história com nossa imagem. A evolução dos equipamentos influência na qualidade técnica da imagem, mas não substitui a sensibilidade do olhar de um bom profissional.

. Então como a tecnologia está influenciando no papel do cinegrafista?

A evolução tecnológica vem nos dando belos recursos. Por exemplo, câmeras que trabalham com pouca luz nos oferecem a possibilidade de trabalhar com a luz ambiente que retrata a realidade. Isso eu gosto muito. O mais importante na nossa profissão é você saber contar uma história com suas imagens.

. O repórter cinematográfico deve interferir na edição?

Sim, sempre que for possível. Deve pelo menos ajudar, falando sobre as imagens que trouxe.

. O que é mais importante no olhar do cinegrafista?

É saber enxergar a noticia, o que é mais importante para a sua matéria .

. Mulher tem espaço nesta atividade?

Sem dúvida! Por sinal aqui na Globo Rio meu Supervisor está em busca de uma mulher para atuar como repórter cinematográfico.

. Há diferença em trabalhar com repórter homem ou mulher?

O que menos importa em um repórter é o sexo, e sim a qualidade do trabalho.

. Que peso o cinegrafista deve ter na construção da matéria?

Para o telejornalismo somos fundamentais, pois sem imagem você não tem matéria, no máximo uma nota pelada (imagens com locução do apresentador). Quando estamos com o repórter temos que dividir o peso da reportagem, mas é fundamental para o repórter cinematográfico também estar bem informado sobre o assunto da sua matéria, para já pensar como conduzir e mostrar a história, ajudar a desenvolver a matéria, opinar, discutir com o repórter, na hora da passagem conversar, dar dicas, casar a informação do texto com a sua imagem. Na minha opinião a pior coisa para a nossa profissão de cinegrafista e a submissão ao repórter, sem ter opinião própria, aquele que pergunta para o repórter o que ele quer que filme. Este para mim é o pior exemplo para a nossa profissão.

.  Dica para cinegrafistas novatos:

A principal dica é só se tornar um repórter cinematográfico se realmente gostar da profissão, pois se não gostar, não vai crescer profissionalmente. A outra é assistir televisão, ver muitos filmes, documentários, etc. Tudo é valido pois sempre se aprende. Outra coisa é saber se valorizar profissionalmente. Isto se consegue com o trabalho e também com o comportamento, sabendo se portar como um profissional e como já mencionei, estar sempre bem informado.

. Dica para repórteres novatos

Em mais de 30 anos de profissão já trabalhei com muitos repórteres, alguns simplesmente fantásticos, outros nem tanto. O grande diferencial entre eles é o que os melhores com quem já trabalhei tem em comum: a humildade, a noticia sempre em primeiro lugar e não a imagem deles, não querem aparecer mais que os personagens, mais que a noticia. Outra coisa fundamental é estar bem informado. Os grandes repórteres estão sempre atualizados, pois a pior coisa para um repórter é sentar para entrevistar alguém sem ter informação. Já passei por algumas situações bem vexatórias. O novato precisa pensar como jornalista, pensar na notícia, e não em como vai aparecer. Não pode se transformar em um Repórter Ator. Hoje infelizmente existem muitos.

. Como percebe o olhar dos editores e chefes de reportagem sobre o trabalho dos cinegrafistas?

Está mudando. Hoje tem muita gente nova. Editores e chefes de reportagem mais antigos tinham um outro olhar para os cinegrafistas. Nós tínhamos mais espaço dentro das redações. Diga-se de passagem que aqui na Globo Rio estamos conseguindo reverter isso, pois tenho um chefe que batalha bastante ao nosso lado por isso. Hoje a nossa categoria tem que lutar para recuperar este espaço e respeito que tínhamos. Mas também o próprio cinegrafista tem que se fazer respeitar, ajudar nesta reconquista, mostrando a sua importância dentro de uma redação, não sendo apenas um apertador de botão e sim um repórter cinematográfico de verdade.

. Cinegrafistas que fizeram história:

São vários, seria injusto citar um ou outro.

. O telejornalismo mudou?

Bastante, em alguns aspectos para melhor, em outros para bem pior. Na minha opinião uma das piores mudanças é em relação a qualidade do nosso jornalismo, tanto no lado dos repórteres como da qualidade das imagens, que hoje são usadas sem pudor algum, muitas vezes desnecessariamente, em nome do dito factual. Há muitos repórteres que parecem ganhar por quilometro andado, pois a matéria e o repórter andando o tempo todo com respiração ofegante de cachorrinho é muito ruim, todas as matérias são quase iguais, é triste ver.

.  As TVs usam cada vez mais imagens feitas por populares com celular ou câmeras amadoras. Isso preocupa?

Preocupar não digo, mas eu diria que dá uma certa tristeza. A banalização da imagem, o fim da qualidade na minha opinião pode trazer uma maior audiência temporária, mas não definitiva. Concordo com o uso quando é uma coisa realmente muito importante, forte, aí tudo bem. Mas para qualquer situação é absurdo. A baixa qualidade destas imagens pode trazer vantagens momentaneas, mas não mantém audiência. Temos alguns exemplos que duraram pouco, lembram do Aqui e Agora (programa policialesco do SBT nos anos 90)? E há muitos outros. As audiências duradouras são conquistadas e mantidas com qualidade.

 

 

 

 

 

 

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. A matéria mais desafiante é aquela em que você traz a imagem que ninguém tem. É muito bom.