O NAMORO JORNALISMO E ENTRETENIMENTO

O jornalismo cada vez mais flerta com o entretenimento. Dependendo da cultura de cada país, este flerte pode se tornar algo efetivamente produtivo ou então resultar numa promiscuidade inconseqüente que mina o conteúdo em favor da diversão barata, ou “do jeito que o público gosta”, diriam alguns.

No Brasil, este namoro está virando caso sério.

Em nome do que em muitas redações se entende como a necessidade de aproximação com o público, a sobriedade inerente ao jornalismo está sendo desdenhada para dar lugar a um modelo de narrativa recheado de concessões à “criatividade” e a performances mais, digamos, desinibidas dos repórteres.

O resultado é um formato cada vez mais diversão e menos informação.

Esta tendência é especialmente preocupante na televisão. E preocupa justamente por que, apesar do crescimento vertiginoso das plataformas digitais, ainda é pela televisão que a grande maioria dos brasileiros se informa.

Embora a combinação jornalismo x entretenimento não seja necessariamente indesejável e quando bem dosada possa trazer bons resultados, alguns fatores justificam o temor pelos efeitos colaterais deste casamento arranjado.

Um deles é a tendência de temperar o jornalismo com pitadas cada vez mais generosas de informalidades e gracejos para tornar o conteúdo mais leve e palatável diante do avanço de outras mídias que ameaçam os meios tradicionais.

Esta receita pode desandar se quem aplicar os ingredientes não souber preparar adequadamente o prato oferecido ao público.

PROCESSO RUIM, RESULTADO IDEM

Um problema sério é a forma como se dá o processo de combinação de jornalismo com entretenimento.

Com o expurgo crescente dos veteranos e a juvenilização generalizada das redações, há cada vez menos profissionais nos veículos que sejam referências de experiência profissional.

Estão sumindo do mercado pessoas que pela vivência no jornalismo tem critérios sólidos, objetivos e discernimento para orientar sobre fórmulas de narrativa que evitem a banalização pura e simples sugerida pelas “modernidades” destes novos tempos.

Por conta dos atuais modelos de gestão chefes de jornalismo, de redação, editores, colunistas e repórteres recebem cada vez mais cedo responsabilidades que antes exigiam mais experiência de trabalho e de vida.

Em princípio, o normal nesta geração é ser mais propenso, ainda que de forma inconsciente, a valorizar as fórmulas fáceis oferecidas nestes tempos de informação rápida e inconsistente a toda hora e em qualquer lugar, graças às plataformas digitais, que ditam a urgência da veiculação ante à concorrência, mesmo que a apuração possa ser deficiente ou mesmo inexistente.

A superficialidade e a pressa resultam numa cultura jornalística cada vez mais rala, que muitas vezes resvala na abordagem inconsequente e irresponsável, venenos mortais para o bom jornalismo.

Em alguns veículos onde ainda resiste alguma cultura jornalística consistente, a fórmula com ares de entretenimento geralmente resulta em abordagens espirituosas que trazem leveza e originalidade, sem comprometer a informação necessária.

Já outros enxovalham a essência da reportagem com performances que revelam uma imbecilidade criminosamente deliberada em nome do que alguns ousam chamar erroneamente de “new journalism”.

O estrago é visível em reportagens de assuntos mais leves, como matérias de comportamento, coberturas de eventos, entrevistas com artistas, agendas culturais e outros acontecimentos que remetem a abordagens mais descontraídas.

O estímulo ao histrionismo se revela forte também nas reportagens sobre hábitos de consumo. É comum ver repórteres de TV ou rádio cobrindo feiras de descontos ou datas de apelo comercial com a tagarelice e o entusiasmo dos garotos propaganda das grandes lojas de varejo.

Na cobertura esportiva, especialmente no futebol, a situação está chegando a níveis francamente constrangedores. Para evitar a mesmice e tornar as matérias mais atraentes, muitos repórteres abusam de um imenso arsenal de bobagens onde proliferam textos quase infantis e abordagens que beiram o pastelão.

No meio disso tudo, o conteúdo essencial acaba sendo patrolado por performances que oscilam entre o bobo e o ridículo, nas TVs, rádios e web.

Tudo em nome da busca pelo “encantamento” da audiência.

Outro efeito profundamente danoso desta prática é que muitos bons repórteres tem seus talentos naturais e mesmo suas bem sucedidas experiências anteriores neutralizados pelo modelo de adoração do besteirol jornalístico que grassa de norte a sul nas redações.

Como combater tudo isso e resgatar o jornalismo de verdade?

Penso que a única saída é valorizar acima de tudo a qualidade da informação e também os que são responsáveis por prepará-la para o público. Estimular sim a modernização das redações, mas construindo uma cultura jornalística sólida, integrando pelo menos alguns veteranos com trajetória reconhecida e jovens talentosos, que mesmo sendo maioria possam ser orientados com dedicação e responsabilidade. Todo mundo sai ganhando.

Ok, não vai faltar quem diga que isso hoje é utopia.

Se for mesmo, aí está uma utopia em que vale a pena apostar.

Ou então, esqueçamos o jornalismo que conhecemos e tratemos de engolir o “show de notícias” com toda sua magia, encanto e fascínio.