GIOVANI GRIZOTTI

Ele é repórter de TV há 21 anos, mas nunca bota a cara na telinha. No máximo, aparece como uma silhueta difusa, sempre desvendando falcatruas, crimes e outras tramóias com as reportagens investigativas que se tornaram a sua especialidade e o fizeram conhecido em todo o país – pelo menos de nome e voz. GIOVANI GRIZOTTI, 44 anos, é jornalista formado na FAMECOS/PUCRS. Começou no rádio, em Capão da Canoa e em 1996 chegou a Porto Alegre para atuar na Rádio Gaúcha. O perfil investigativo logo o fez repórter também da RBSTV. Hoje trabalha exclusivamente produzindo reportagens para o jornalismo local e para a Rede Globo, especialmente para o Fantástico. Já conquistou mais de 50 prêmios, entre os quais dois Esso, Vladimir Herzog, CNT, Rede Globo, Jayme Sirotsky, etc, e por quatro vezes foi finalista no prêmio IRE da Associação dos Repórteres e Editores Investigativos dos EUA .

. Como nasceu o gosto pelo jornalismo investigativo?

Foi muito natural. Começou com uma denúncia de venda de carteira de motorista por policiais de Capão, quando ainda estava na Rádio Horizonte. Lá sofri a ameaça mais real de toda a carreira: foi descoberto um plano para me assassinar. Uma carta entregue à direção da emissora descrevia até o caminho alternativo que eu fazia para ir pra casa. Assim que me mudei pra Gaúcha, recebi uma denúncia parecida. Foi a reportagem que fez o governo transformar o Detran numa autarquia, retirando-o da Polícia Civil. As pessoas começaram  a associar meu nome ao de um repórter que trabalha com esse tipo de assunto. E aí não parei mais.

. Tua carreira começou no rádio. Como foi a transição para a TV?

A TV era minha grande meta, um sonho, pois para provar determinadas situações, a imagem é fundamental. Porém, já naquela época, a gente já trabalhava no multimídia, publicando no site da rádio documentos, etc. Então, foi bem tranquilo.

. TV dá mais impacto à reportagem investigativa, mas também exige muito mais base para a denúncia por conta da necessidade de imagens e depoimentos gravados em vídeo para comprovação. Como foi a adaptação do teu modo de trabalhar às exigências do telejornalismo? 

Foi só dar uma adaptada na imagem, e aprender com os colegas da tevê (entre os quais, você, uma referência a todos nós).  Na época, os equipamentos eram precários. Para obter uma imagem escondida, a gente adaptava uma câmera dessas domésticas, imagina, numa leva-tudo. E tinha a famosa pasta de notebook. Hoje, está tudo mais fácil. Por outro lado, as pessoas que cometem crimes estão cada vez mais desconfiadas e observam tudo. Então, essa tecnologia também precisa estar em permanece evolução. A ideia de eu não aparecer foi do então diretor Raul Costa Jr. Achei meio estranho no começo. Hoje, não me imagino mostrando o rosto na tela.

. Como é a vida de quem precisa se manter invisível porque produz denúncias de repercussão, mexe com muitos interesses e corre riscos reais de vida? 

É tranquilo. Basta ter alguns cuidados. Mas não deixo de ter minha vida social. Possuo um esquema de segurança tal que, se algo acontecer a mim, instantaneamente sao disparados mecanismos de proteção que não deixaria impune qualquer ameaça à minha integridade física. Mas o pior eram as pressões externas, de autoridades incomodadas com nosso trabalho. Esse é o  pior violência que um jornalista pode sofrer.  Mas isso, nos últimos anos, não tem acontecido. Os políticos nem tentam, porque sabem que não levam. No começo, as pressões eram comuns. Hoje, praticamente não existem.

. Recebes muitas ameaças? De que tipo? 

A mais recente foi de um deputado, na Assembleia, que me xingou diante de câmera: “Tu é sem vergonha, pilantra, uma hora dessas vai sobrar pra ti”.

. Qual foi o momento mais perigoso que viveste nas investigações?

Talvez tenha sido em Capão da Canoa mesmo, ainda quando estava na Rádio Horizonte. A emissora na época, acho que era em 1995, recebeu uma carta que descrevia um plano para me assassinar. Seria um acidente de trânsito. A carta citava, inclusive, o caminho alternativo que eu fazia para ir pra casa. Foi um susto. Depois, descobri o autor, que confirmou tudo. Como o caso foi tratado internamente com as autoridades envolvidas, tudo ficou na ameaça. Por conta da reportagem sobre a Máfia das Próteses, tive que andar com segurança e carro blindado, no Rio. Também armaram batidas na estrada pra me interceptar…

. De onde vem tuas pautas? Como é o processo de levantamento de potenciais investigações?

De várias maneiras. As especiais  partem da minha percepção dos fatos. Entender o momento, a realidade, qual tipo de crime ou fato está se repetindo, não só aqui, mas no Brasil, de modo a receber uma atenção especial…Muitas vezes, esse processo é deflagrado por uma denúncia. Por exemplo: quando fui procurado sobre o esquema para furar a fila do SUS, que envolvia o assessor de um deputado federal, fiz uma pesquisa e descobri que esse tipo de fato ocorria em outros estados. Aí a gente junta tudo e expõe uma realidade nacional, e não apenas local. Já aconteceu, também, de uma nota de canto de página de jornal inspirar uma denúncia nacional. É preciso ficar atento a tudo.

. Existe reportagem investigativa e existe o chamado o denuncismo. Como evitar as duvidosas pautas de apelo e investir em temas concretos, com reais possibilidades de aprofundamento?

Na verdade, uma denúncia  precisa ser apurada e ter interesse público para virar notícia. Por hora, ela é apenas uma denúncia. Se comprovada, vira notícia. Caso contrário, é apenas uma denúncia.

. Como é o teu processo de depuração de um assunto, até a decisão de investir na pauta?

A primeira coisa é medir o interesse público de uma denúncia. A pergunta é: a quem interessa? Quando maior o público envolvido, mais eu aposto, não importanta se o alcance é local ou nacional. Claro, se for nacional, a gente presta um serviço para o Brasil, e não apenas para o RS, que é o nosso foco. O segundo passo é discutir a viabilidade: é possível transformar isso em reportagem de televisão? Se a resposta for sim, a gente  investe. Mas é tanta coisa que às vezes a gente se confunde. É preciso eleger prioridades.

. A RBS criou uma equipe focada em reportagens investigativas, reunindo pessoal de Zero Hora, RBSTV e Rádio Gaúcha. Mas antes já havia troca de informações entre os veículos. O que isso muda no cenário da investigação jornalistica?

Acho que o impacto de uma reportagem, quando repercutida ou preparada por todos os veículos, é muito maior. E se há impacto, há repercussão e tomada de providências. Assim, conseguimos mudar uma realidade e, principalmente, cumprir nosso papel. Também é importante levar em conta a otimização de custos. Nesse caso, pode haver divisão de tarefas, sempre adaptando o material captado ou gravado às características de cada veículo.

. Quem são tuas referências profissionais na reportagem investigativa?

O número 1 é Eduardo Faustini, o repórter “secreto” do Fantástico. Ele  apostou em algo que não se fazia, o que a gente chama de “esculacho”, o “escancaro”, o que justifica uma reportagem ser exibida numa programa chamado Fantástico. Já organizou até velório com boneco dentro de um caixão, para expor ao país a Máfia das Funerárias. Tudo o que faço, me inspiro nele. É de longe, o melhor.

. O trabalho de investigação e seus riscos exige uma parceria intensa com o repórter cinematográfico. Como tu constrói esta relação? 

É sempre muito importante, somos uma equipe e não existe reportagem sem uma parceria e sinergia entre repórter e cinegrafista.

. Muitas pautas envolvem temas que eventualmente se chocam com interesses das emissoras. Como lidar com isso?

Falando de um modo geral, nas redações, acredito que isso não ocorra mais. Se ocorre, é numa escala bem menor que no passado. As emissoras sabem que, se omitirem determinado assunto, a concorrência, principalmente as mídias sociais, irão preencher essa lacuna. E talvez até denunciar essa omissão. O desgaste é grande.   Aqui na RBS, posso garantir, não existe assunto proibido.

. Com quem é mais difícil lidar? Políticos, empresários ou bandidos?

Políticos, claro. Os bandidos se assumem como tal. Se for o caso, matam, e até mostram a cara. Já alguns políticos, agem de maneira sorrateira, às escondidas. E isso vale tanto em relação à imprensa quanto à opinião pública. No caso dos empresários, no passado, até existiam algumas pressões por causa de eventuais interesses comerciais, mas isso não existe mais. Existe, entre eles, a percepção, correta, de que a imprensa é livre e que eventual noticiário negativo faz parte do jogo.

. Qual reportagem te deixou mais feliz com o resultado?  

No campo das denúncias, sem dúvida, a Máfia das Próteses. A série mudou toda uma realidade, resultou na abertura de duas CPIs no Congresso, operações policiais, medidas do governo, e repercute até hoje. Mas existe outro segmento ao qual me dedico, que é o da cultura gaúcha, que, bem…Talvez a mais emocionante e que me deu mais satisfação pessoal ainda esteja por vir…Vai ser exibida pelo Fantástico, dia 24, véspera de Natal.

. Que dica darias para os jovens repórteres?

Que invistam na profissão apenas se forem apaixonados pelo jornalismo. Caso contrário, o risco de se frustrar pode ser muito grande.