FUGINDO DA MESMICE NOS TEXTOS DE TV

Qualquer manual furreco de telejornalismo dita que o texto de TV deve ser objetivo, curto e claro. Até aí tudo bem.

Mas muitos luminares da comunicação e gestores de redações pregam que a escolha das palavras deve priorizar as mais simples e a construção das frases precisa ser o mais direta possível, sem adjetivações e nada mais;  apenas uma crua descrição da obviedade que salta das imagens.

Isso equivale a dizer: já que o povo é burro, então que se fale como burro.

Não podemos perpetuar essa presunçosa estupidez!

Obviamente texto de reportagem em TV não pode ser um sermão barroco. Nem por isso deve ser oco como uma ata de condomínio. Texto sem vida é apenas uma fila de palavras que fazem algum sentido sem brilho algum.

O telejornalismo é recheado de dogmas que resistem ao tempo sem que ninguém questione porque a coisa é daquele jeito. Simplesmente se aceita que é assim que se faz, porque é assim que sempre foi.  É a arte de escrever com resignação bovina.

A coisa piora por conta de editores sem muitas luzes que trucidam os textos de repórteres que ousam desafiar as indevassáveis regras do texto zumbi.

Um das práticas mais comuns e cegamente obedecidas é a descrição literal das imagens. O atestado máximo de falta de imaginação do repórter ou do editor.

Nestes tempos em que exigência de diploma é cada vez mais ficção e que todo dia sub-celebridades se tornam “repórteres” incensados pela mídia, é preciso desenvolver um padrão profissional que permita fugir da mediocridade crescente.

Um texto de qualidade faz a diferença entre o repórter que tem o que dizer e aquele que apenas fala o que a câmera mostra.

DOSTOIEVSKI OU PAULO COELHO, NÃO IMPORTA. LEIA!

É preciso dar personalidade à narrativa, com brilho nas expressões e harmonia na estrutura. E dosar com equilíbrio para não “viajar” e perder o foco da matéria.

Como se faz isso?

–  Não tenha medo de ousar. Ser criativo não significa renunciar à descrição fiel dos fatos. Solte a imaginação, mas com os pés no chão.

–  Uma boa base cultural é fonte segura de soluções de texto. Isso se constrói com muita leitura, a fonte suprema de um vocabulário rico. Leia clássicos, contemporâneos e boas revistas para ter várias opções de narrativas.

– Busque sempre um novo olhar sobre o que vai descrever, evitando ceder ao senso comum sem antes refletir com distanciamento.

–  Fuja dos chavões, lugares comuns e outras soluções rasas de redação.

–  Não tenha medo de usar referências como citações de cinema, teatro, música, literatura, etc. Mas faça isso com critério, de maneira que dê clima e charme ao texto com eficiência e bom senso.

–  Não há problema algum em copiar o estilo de outros repórteres consagrados. Com o tempo você desenvolve seu próprio estilo, baseado nas suas referências.

–  Não tema usar adjetivos ou expressões mais elaboradas, desde que sejam compreensivos, importantes como informação e que realmente contribuam para o texto. Se apenas reforçam o que o vídeo mostra, evite.

– Escreva como se estivesse fazendo um roteiro de filme para seduzir o telespectador a ouvir sua história do início ao fim. Organize de forma harmoniosa os trechos de off, as entrevistas e a passagem.

– Desconfie sempre do seu primeiro texto! Leia e releia antes de gravar.

DUAS GRANDES SACADAS DE TEXTO!

Vamos imaginar a cena: no gigantesco garimpo de Serra Pelada, milhares de homens levam nas costas sacos de areia, subindo os barrancos das imensas crateras da mina a céu aberto. Pelos padrões anódinos de redação cultuados hoje Brasil afora, o off narrado por 10 entre 10 repórteres seria algo como “…milhares de homens sobem os barrancos de Serra Pelada levando sacos de areia nas costas…”, como se aquela imagem impressionante na tela não fosse eloquente o bastante e precisasse de descrição para que o público entendesse.

Hamilton Ribeiro

Agora veja como o veterano repórter Hamilton Ribeiro, da Globo, abriu uma reportagem especial sobre Serra Pelada, descrevendo a obstinação daquele formigueiro humano: “Se é verdade que a fé move montanhas, então aqui já foram movidas várias delas.”  Foi numa matéria para o Jornal Nacional, lá no final dos anos 70. A referência ao dito popular foi infinitamente mais eficiente do que a óbvia descrição do que a câmera mostrava.

Outro exemplo: O repórter Fernando Silva Pinto, correspondente da Globo nos EUA, voou com pilotos de caças supersônicos da força aérea norte-americana. E descreveu a experiência vertiginosa fechando o texto assim: “…são homens que voam em alturas que só conhecemos em nossos sonhos, em velocidades que só vivemos em nossos pesadelos” . No ponto!

Fernando Silva Pinto

São apenas dois exemplos de como é possível  escrever com imaginação e classe, desde que o repórter realmente se proponha a isso e construa sua capacidade de ir além da mesmice.  Há muitos outros exemplos como estes na Record, Band e outras. Assista, selecione e aprenda!