FLORIZA E A CANTADA DO MANO LIMA

Sabe o Mano Lima, cantor e compositor de música nativista que ficou famoso com sucessos que satirizavam o machismo do gaúcho? Pois bueno, esta figuraça protagonizou uma cena hilária envolvendo uma jornalista da então TV Gaúcha.

Início dos anos 90. O programa Galpão Crioulo, nos seus áureos tempos, comandado pelo lendário Antônio Augusto Fagundes, o Nico, era uma das principais atrações da programação.

Além das transmissões em estúdio na capital, o programa viajava pelo interior do estado, com uma grande estrutura. Era sempre uma baita festa quando uma cidade recebia a turma do Galpão. Um acontecimento!

A troupe estava em São Borja, na fronteira oeste, para mais um programa especial. Palco montado, a enorme equipe técnica pronta para começar a transmissão. Como sempre acontecia quando o Galpão Crioulo visitava alguma cidade, o povo comparecia em peso  para assistir as apresentações.

A diretora do programa, a jornalista Floriza Xavier Hias, conferia os últimos aprontes. Nos bastidores, conversava com cada artista para acertar os detalhes das apresentações.

Foi quando se aproximou do Mano Lima, uma das atrações. Concentrada no roteiro, prancheta na mão, Floriza se dirigiu ao gauchão, que era a própria imagem do que hoje se chama de “xucrismo”, neologismo sarcástico que confere uma certa aura cultural aos hábitos menos refinados da gauchada.

– Mano, o que tu vai cantar?

O cantor, com aquele jeitão estudado de quem deliberadamente personificava a grossura campeira, se aproximou da diretora, e, como quem vai fazer uma confidência, fala com a voz grossa e cheia de malícia bem perto do ouvido dela:

– Como é que eu tô neste corpo?

Ela se virou bruscamente para o tipo barbudo, com chapéu de beijar santo em parede e barbicacho travado no queixo, que a olhava com uma calculada expressão de falso galanteador.

– Como é que é???

Ele continuou impávido. E se curvou novamente para falar ao ouvido da diretora do programa:

– Como é que eu tô neste corpo?

Floriza perdeu a paciência e passou uma descompostura no músico, diante da equipe técnica que observava meio atônita aquela cena inusitada.

– Olha aqui, se tu tá me cantando, isso é de muito mau gosto!!

Mano Lima esboçou um sorrisinho maroto e disse:

– Não tô te cantando guria! “Como é que eu to neste corpo” é o nome da música que eu vou cantar…

Todos ao redor caíram na gargalhada. E o mal entendido acabou virando brincadeira entre os técnicos da emissora, que toda vez que topavam com ela pelos corredores da emissora não perdiam a oportunidade para lascar um “E aí, Iza, como é que eu to neste corpo?”

Em 2018, um parente da Floriza encontrou Mano Lima no interior e comentou o “causo” acontecido há tantos anos. Ficou surpreso ao ver que o cantor lembrava do acontecido, e mais: mandou um recado para ela pelo celular, dizendo que apesar do seu jeitão era um sujeito meio tímido e que tinha ficado um tanto sem jeito com aquela situação que nunca esqueceu.

Oigalê, bagual!.