FLÁVIO PORCELLO

FLÁVIO PORCELLO tem mais de quatro décadas de experiência profissional na teoria e na prática. É formado em Jornalismo pela Fabico (UFRGS) e em Direito (UFRGS). Atuou como repórter e âncora em emissoras como a Globo, SBT, TVE-RS, RBS e Pampa, e em  jornais como O Globo, Estadão, Gazeta Mercantil, Folha da Manhã e Zero Hora. É professor de jornalismo há 25 anos. Ensinou na Famecos (PUCRS) por 13 anos, e nos últimos 12 dá aulas para os cursos de graduação e pós-graduação da Fabico (UFRGS). Mestre e Doutor em Comunicação pela PUCRS, tem especialização pela Universidade de Navarra (Espanha). Foi o primeiro coordenador e hoje integra o conselho cientifico e editorial da Rede de Pesquisadores em Telejornalismo – TELEJOR.

Entre suas experiências profissionais pode-se destacar a apresentação, com Cláudia Nocchi, do Jornal Meridional, na metade dos anos 80, na TV Pampa de Porto Alegre. O telejornal marcou época e até hoje é referência como modelo de jornalismo isento, plural e democrático. Toda a liberdade editorial idealizada e praticada pelo Jornal Meridional foi marcante num momento político importante, pois a imprensa enfrentava a censura e saia de 25 anos de feroz ditadura militar. Foi um dos criadores e o primeiro âncora do programa Frente a Frente, há mais de duas décadas no ar na TVE-RS.

No campo acadêmico Porcello pesquisa as relações entre Televisão e Poder e ministra as disciplinas sobre Jornalismo e Política nos cursos de graduação e de pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor de várias publicações e um dos organizadores da Coleção Jornalismo Audiovisual que há 10 anos publica regularmente o resultado das pesquisas em Telejornalismo no Brasil.

Qual o perfil do profissional que as faculdades buscam formar hoje?

Um profissional completo que deve ir além do domínio das técnicas profissionais do jornalismo e saiba ouvir, pensar, contextualizar e transmitir fielmente as informações que a sociedade precisa receber. O direito à informação é um preceito constitucional e o jornalismo é quem forma os profissionais habilitados a cumprir esse papel. O mundo digital oferece desafios e traz ameaças. A informação nunca foi tão acessível. O problema é que, em tempos de radicalismo, intolerância, desrespeito, discurso de ódio e mentiras que chegam antes da verdade, o jornalismo precisa conferir a certificação de autenticidade das informações. O diploma que os jornalistas trazem de suas faculdades é a vacina que protege neste mundo contaminado pelas “fake news”. Tenho muito orgulho do meu diploma obtido em 1977 na UFRGS e dos mais de três mil alunos que tive e tenho nos 25 anos de docência na PUCRS e na UFRGS.

Primeiro âncora do Frente a Frente – TVE/RS

Como o universo das redes sociais está impactando no ensino do jornalismo?

A maior ameaça ao jornalismo hoje não é a quantidade de cursos, mas sim a informação falsa, a mentira, a intolerância, o discurso de ódio e o desrespeito às outras opiniões. Tudo isso circula livremente no mundo virtual. Não podemos e nem devemos criticar o ambiente de liberdade que a internet nos oportuniza e jamais vamos defender que ela seja censurada como na China. A questão é saber fazer uso dessa a liberdade de expressão. Jornalista de verdade, ético e responsável, checa, apura, verifica, confere e só depois publica.

Precisa tempo para isso? Claro. Mas se quiser ser jornalista de verdade que lute no seu ambiente profissional pelo tempo que precisa para certificar se a informação é verdadeira antes de publicá-la. E se alguém que estiver lendo agora retrucar: “coisa de professor…dizer isso na aula é fácil, quero ver fazer na pressão do dia-a-dia das redações”. Eu respondo: Eu fiz. E lutei. Digo sempre aos meus alunos: lutem também. O campo da luta não é aqui na sala de aula, é lá na redação. Estudem, preparem-se e sigam para lá para lutar com os jornalistas que enfrentam todos os dias as pressões do  “dead line”, dos prazos, da economia, da política, dos compromissos do jornal.

A proliferação das faculdades de comunicação ajuda ou prejudica?

A meu ver não ajuda nem prejudica. O aumento exponencial do numero de faculdades de jornalismo (hoje são 25 em todo o estado) é um reflexo do crescimento vegetativo da população, acrescido da importância do jornalismo para a vida das pessoas. O problema é que o mercado de trabalho convencional já não absorve a enorme legião de jornalistas formados a cada semestre. Mas se o emprego convencional em redações está escasso e em constante redução de vagas, há outras alternativas que o mundo digital oferece aos novos profissionais. As novas tecnologias reduziram distancias e custos, quem souber pode criar seu próprio trabalho.

Uma crítica antiga às universidades é a distancia entre o mercado acadêmico e a realidade na rua?

Critica muito procedente. Universidade e mercado profissional do jornalismo operam em velocidades muito diferentes. Basta comparar o tempo que um jornalista pesquisador tem para realizar sua pesquisa e o tempo que o jornalista de redação tem para fechar sua matéria, ainda mais em tempos de informação instantânea e transmitida em tempo real. Por isso um lado precisa entender a dinâmica do outro. Essa compreensão é necessária para aproximar os dois lados que devem se completar. Jornalistas do mercado devem aprofundar as informações que trazem para a redação e pesquisadores devem dar sentido pratico ao que pesquisam cientificamente para qualificarem o ensino e formarem profissionais próximos da realidade. Há alunos sem paciência para estudar pois acham que Wikipédia é a grande biblioteca virtual. É um erro. Precisam ler muito para saber pensar e escrever. E, por outro lado, há professores frustrados que levam para as aulas o ressentimento pelo seu fracasso como jornalistas. Pregam o ódio ao jornalismo e ao mercado de trabalho. Erro pior porque desanimam e desmotivam os alunos.

Ainda existe este hiato entra teoria e prática?

Sim, existe. As novas diretrizes curriculares implantadas no curso de jornalismo (a UFRGS adotou o novo currículo em agosto) procuram reduzir essa distância. As disciplinas práticas vieram para o inicio do curso. Mas não depende só do currículo. O professor precisa trazer para a sala da aula a sua experiência prática. Se não teve experiência, ou pior, se traz do mercado ressentimentos e frustrações, o que vai ensinar? O professor deve ser motivador e motivar. E o aluno também tem que saber que jornalismo exige paciência, persistência, vontade de trabalhar. Se tiver pressa, quiser reduzir tudo a alguns caracteres para colocar logo na rede, vai ser difícil aprender.  Penso que bom professor deve primeiro saber fazer o que ensina e depois ensinar aos alunos como se faz.

Conduzindo o evento Fronteiras do Pensamento

O mercado da comunicação busca cada vez mais profissionais jovens em detrimento dos veteranos. Como isso repercute no ambiente acadêmico?

É uma realidade. Sempre foi e continuará sendo assim. O jovem traz vitalidade ao ambiente, em todos os setores da vida. O que lhe falta é a experiência, a vivência, a maturidade que só terá depois de algum tempo de pratica profissional. E isso o profissional experiente tem sobra. A mescla ideal é formar equipes de trabalho que reúnam a experiência dos mais velhos com a ousadia dos mais jovens. Infelizmente, em muitas redações a experiência dos antigos não é valorizada pois eles dizem verdades que os gestores não querem ouvir. A experiência custa mais caro, a fórmula mais fácil e barata é trazer jovens inexperientes que apenas obedeçam as ordens. Isso ajuda a explicar a queda na qualidade do jornalismo atual que é apressado e não cumpre uma de suas missões fundamentais: trazer informação qualificada e critica. Hoje há muita opinião para pouca informação. E essa é uma das primeiras lições que os experientes dão aos novatos: o publico precisa muita informação para, depois, formar sua opinião.

As faculdades de comunicação estão aproveitando as facilidades que a web e as novas tecnologias oferecem para gerar conteúdos com as atividades dos alunos?

Sim, com certeza. Seria impossível ensinar jornalismo hoje sem o uso das novas tecnologias. Claro que a condição econômica e o porte da instituição de ensino, bem como a qualificação do corpo docente da faculdade, são essenciais nesse processo. Um professor que não se atualizou terá dificuldades em entender o mundo digital em que seus alunos vivem e, estes por sua vez, se desprezaram tudo que veio antes da geração Y também terão dificuldades de aprendizado. O desafio do ensino atual é evitar que os futuros jornalistas sejam tão desinformados que possam ser facilmente substituídos por robôs da internet.

Como deve ser o perfil de um professor de jornalismo na realidade atual?

Múltiplo, atualizado e critico. Não pode viver de lembranças do passado (“no meu tempo é que era bom…”) desconhecendo as realidades do mundo digital e sem conseguir acompanhar a velocidade em que a informação está circulando. Não pode temer a novas tecnologias. Deve atualizar-se constantemente, pesquisar, estudar, ouvir e compreender a complexidade do mundo contemporâneo. O professor de jornalismo hoje deve ser orgulhoso de sua trajetória profissional e acadêmica e não desmotivar os seus alunos com suas frustrações e ressentimentos. Os alunos querem aprender jornalismo e o professor tem que saber ensinar com vontade e motivação, apontando aos seus alunos os caminhos da profissão e da vida.